— Safira, tem tipo, seis quilos dentro da minha barriga. — Charlie arfou. — Precisa ir com mais calma!
— Droga, desculpa. — Balancei a cabeça, oferecendo uma mão para Charlie. — Sempre esqueço da quantidade de degraus.
Charlie deu de ombros e terminou de subir a escadaria para a praça de alimentação do Hamerson Rink. Nos sentamos em uma mesa e alonguei o pescoço. Não que eu esteja dizendo que estive levando os treinos com calma, mas ultimamente mergulhei — e me afoguei — de cabeça. É tão intenso que mal tenho tempo para regenerar as dores em meus músculos e os cortes nos meus calcanhares, já que estão sendo refeitos progressivamente.
— Eu almocei às onze da manhã hoje. — Charlie devolveu o cardápio. — Nem me pergunte a respeito.
Charlie finalmente está com uma barriga um pouco mais aparente. Para quase sete meses de gestação, creio que deveria estar maior, mas já chegamos a conclusão que seu corpo não permitirá isso. Ela ganhou um pouco de peso, mas sempre foi esguia e alta, sendo mantida com a dieta complexa e maluca de Claire, então acredito que o ganho de peso está sendo na verdade, muito benéfico.
— Não estou com fome. — Torci o nariz.
— O quê? — Charlie tocou em minha testa. — Está bem?
— Ela não parece bem. — Elijah palpitou surgindo do nada, como sempre faz.
— Caramba, quem precisa de inimigos! — Bufei, cruzando os braços.
— Estou sendo honesto! — Elijah pegou o cardápio. — Está pálida e com olheiras, é preocupante.
— Quando foi a última vez que comeu? — Charlie perguntou.
— Eu tomei café da manhã e minhas vitaminas. — Nove horas atrás. — Está tudo bem. Só não estou com fome, deve ser o nervoso.
É o nervoso, e também a saturação. Eu tenho consciência dos efeitos que um treino pesado pode fazer com o meu corpo. As vezes pulo refeições porque prefiro ficar treinando, outras vezes, estou cansada e perco o apetite. Também não ando dormindo tão bem, o que é novidade para mim. Sempre consegui dormir no horário e constantemente, agora passo noites em claro com uma insônia interminável, ou esse sonho me atormenta. Sonho toda vez há mais de uma semana com a mesma coisa: estou em casa, em Barrie. Minha mãe está andando pela casa, e eu persigo ela pelo corredor. Ela carrega consigo uma caixa e um chave, e há algo dentro muito importante que ela quer manter longe de mim. Eu continuo andando atrás dela, mas não consigo alcançá-la, porque ao fim, ela dá um jeito de fechar a porta do corredor. Então eu chamo Alec, mas ele não me escuta. Corro até sua casa, mas ele não me vê. Mas eu o vejo, parado em frente ao jardim, estático. Agarro sua camisa em câmera lenta e toco em seu peito para que reaja, mas não o sinto. Não há um coração batendo.
Não contei para ninguém, mas Elijah percebeu que estou indo tomar banho para começar o dia — e esvaziar a cabeça — as vezes, duas horas da manhã.
— Faltam cinco dias para as Seccionais. É um momento crítico, estou comendo feito um condenado.
— Passou muito rápido. Mas vocês dois estão preparados, é tudo questão da forma do pensamento.
— Eve sempre diz isso. Mas é difícil, quando tudo está em jogo...
— Está acabando. — Elijah tentou aliviar. — Tem noção de que estamos a um mês e meio de distância das Nacionais? É uma loucura.
VOCÊ ESTÁ LENDO
Shattered Ice
RomanceO DESTINO É FEITO DE GELO Quando se é uma patinadora artística, baseia-se na confiança. Nos outros, e em si mesma. O gelo é o nosso fiel confidente, um reflexo de nossa alma. Prometemos manter o gelo que nos desliza por nossos destinos intacto, ...
