As pessoas não entram na vida da gente por acaso, cada uma tem um motivo para estar nela, e o tempo de permanência é determinado justamente pela razão que a fez entrar. Então faremos parte da vida de alguém enquanto essa pessoa precisa da gente ou e...
Lucca está conosco há uns três meses. Consigo disfarçar bem meus sentimentos, sou envergonhada demais para assumir que gosto dele ou para tentar uma aproximação nesse sentido. Até porque não sei se ele nutre algo além de amizade com relação a mim.
Tudo que posso afirmar é que Lucca é um ser humano fantástico, está sempre pronto para ajudar e não mede esforços para agradar, se mantém na dele e, apesar da Drª Marissa espalhar para os quatro cantos do hospital que rola um clima entre os dois, não percebi ele dando lado para ninguém. Isso, de certa forma, me conforta.
Particularmente nunca percebi nada entre os dois, mas quem sabe, não o fiz por estar mais inclinada a não prestar atenção ao que ele faz. Já é difícil assim, imagina se eu procurasse ficar sabendo de tudo que ocorre durante seu turno de trabalho. Mesmo que tenha participado de todas as nossas reuniões no tempo em que está conosco, não sabemos muita coisa a respeito de sua vida pessoal, ele é muito discreto nesse assunto.
O que tem me tirado o sossego nesse último mês é a iminente mudança da Melissa. Ela passou no vestibular para graduação em enfermagem e como ainda não tenho condições de fazer a faculdade, pela primeira vez em anos, vamos fazer coisas distintas.
Não é o fato de ficar sozinha que me apavora, mas o fato de não ter a Mel por perto para conversar sobre tudo e qualquer coisa, como sempre fizemos. Minhas frustrações sempre foram mais fáceis de superar com ela por perto.
Pelo menos, depois que conversamos abertamente sobre meus sentimentos, ela parou de me atormentar com a história da minha "paixonite" pelo Lucca. Sei bem que foi somente por eu ter garantido que já havia passado, que foi coisa de momento, por ele ser novidade, então, às vezes, ela comenta alguma coisa, mas não tanto quanto no começo, agora ela o faz só quando quer me irritar.
Ainda não sei o que vou fazer, mas provavelmente irei morar com um dos meus colegas de trabalho, possivelmente a Fernanda ou Jordan. Não falei nada com eles para não causar mais estresse antes do tempo, posso prever que vai ser uma briga quando eu disser.
— Aiiiii Cathyta, não fica assim maninha! Me corta o coração! — Melissa para de arrumar suas coisas e me encara, já que estou chorando. No próximo mês as aulas dela começam e ela está arrumando a mudança com antecedência, pois, pretende passar esses dias que restam na casa dos pais antes de ir.
— Desculpa Mel, não sei o que fazer daqui para frente, nunca precisei ficar sem você, sempre fizemos tudo juntas!
— Tuuuudo não né maninha! Namorar, namoro sozinha. — Ela pisca marota tentando melhorar o meu humor.
— Pensei que era com o JC. — Ironizo e ela percebe que sua tentativa não surtiu o efeito desejado.
— Não está feliz por mim Cathyta?
— Claro que estou feliz por você, é o nosso sonho, você só vai realizar antes! — Estou realmente feliz por ela estar indo realizar o nosso sonho, afinal, ela só o adiou por mim.
— Então maninha, não chora! Se eu pudesse, te levava comigo... Tem certeza de que não quer tentar uma vaga em algum hospital por lá? Pelo menos a gente ainda moraria juntas.
— Mesmo que eu quisesse tentar, não poderia agora, sabe que tem o casamento do meu irmão em breve, então, não posso contar financeiramente com meus pais nesse momento, e nem arcar com as despesas adicionais que a mudança exigiria. E tem o hospital também...
— O Lucca você quer dizer...
— Para com isso Mel, não pira nesse assunto novamente.
— Quando vai admitir, pelo menos para você, que ainda é apaixonada por ele?
— Não vou admitir nada. E, mesmo que eu fosse, e não estou dizendo que sou, mas mesmo que fosse, ele não me vê dessa forma.
— Como não garota? O homem só falta andar com um babador quando você está por perto.
— Não delira Mel, ele não me trata diferente das outras. E, além do mais, outro dia, sem querer, ouvi uma conversa dele ao telefone. Falava com uma mulher, e pela intimidade dos dois, ela é alguém muito importante na vida dele.
— Ele nunca me falou sobre ter alguém... se bem que nunca perguntei, até porque sempre pensei que ele era parado na sua... será que me enganei tanto assim? Eu tinha tanta certeza!
— Venho tentando dizer pra ti desde o começo que não temos e não teríamos nada, para tirar essas noias sobre a gente da cabeça. Você às vezes gosta de se iludir com coisas impossíveis Melissa...
— Epa, epa, epa... Espero que essa frase não seja o que estou pensando dona Catherinna...
— Se você quer dizer que estou pensando conforme a realidade dos fatos, então sim...
— E, na sua mente, qual seria a realidade dos fatos?
— Amiga, olha para mim! Uma pirralha, gordinha e que nunca teve um namorado na vida... Um homem como ele jamais iria se interessar por alguém como eu...
— Lógico! Preciso concordar que um homem como ele não poderia se interessar por uma garota inteligente, linda, carinhosa, centrada, divertida, altruísta, honesta, praticamente a mulher perfeita. É, pensando bem, você tem razão, que homem em sã consciência se interessaria por alguém assim? Nem consigo imaginar um absurdo desse! — Ela diz irônica e ao mesmo tempo muito brava comigo. Não consigo responder, começo a chorar e sinto Melissa me abraçar.
— Cathyta, não chora, vem aqui... — Apoio minha cabeça em seu ombro e ela passa a mão em meus cabelos.
— Desculpa me alterar assim... mas é que às vezes, você me tira do sério, e preciso te trazer para a realidade novamente! — Diz enquanto me esmaga em seu abraço. Sei que o sermão vem, então não digo nada, só choro ainda mais e espero.
— Me explica por que você insiste em se diminuir quando se trata do Lucca? Você nunca teve problemas de autoestima em relação ao sexo oposto, sempre se amou e se viu como realmente é, o que faz com que os outros te vejam. Por que com ele você parece ficar cega sobre si mesma? Por que essa insegurança toda?
Não respondo, só suspiro cansada dessa situação. Ela tem razão quanto a isso, eu realmente não sou assim, sempre me amei do jeitinho que sou, mas tudo que diz respeito a ele, é diferente, não sei explicar. Ela me afasta um pouco e me olha irônica.
— Até porque, você nem gosta dele... — Diz com um jeito "te peguei garota".
— Nem eu sei Mel... nem eu sei... — É a única resposta que tenho.
— Chega de chororô! Animação nesse corpinho gostoso! — Diz, secando minhas lágrimas e me puxando para levantar com ela.
É difícil me animar com tudo que está acontecendo. Melissa vai para faculdade e não tenho condições de ir com ela e, para ajudar, continuo apaixonada por um cara fora do meu alcance. Vou dar tempo ao tempo, esperar as coisas acontecerem, afinal, fora tudo o que está acontecendo, ainda tem o casamento do meu irmão no final desse mês.
— Vou tentar amiga, prometo!
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