As pessoas não entram na vida da gente por acaso, cada uma tem um motivo para estar nela, e o tempo de permanência é determinado justamente pela razão que a fez entrar. Então faremos parte da vida de alguém enquanto essa pessoa precisa da gente ou e...
No instante em que ele se vira em minha direção, noto que seus olhos estavam fechados, mas no momento que meu nome sai de seus lábios, ele os abre e nossos olhares travam um no outro. Não esperava vê-lo aqui, o nervosismo me domina e não sei exatamente como agir, suas piscinas azuis me desarmam completamente.
Percebo que as lembranças que eu havia guardado, não fazem jus à figura imponente que me olha com evidente espanto. Ele está ainda mais lindo! Sinto minhas mãos suarem e todos os sentimentos que pensei não nutrir mais em meu coração despertam, mais fortes do que nunca, me deixando abalada.
— Doutor Lucca, me desculpe, não sabia que teria alguém no consultório hoje! — Digo, tentando não demonstrar todo o meu nervosismo nessas simples palavras.
— É você mesma? Quer dizer, claro que só poderia ser você, ninguém mais organiza as coisas desse jeito. — Ele murmura, mais para si mesmo, mas consegui ouvir perfeitamente, é claro que ele não esperava me ver aqui, mas pelo tom de voz, não identifiquei se foi uma surpresa boa ou ruim.
— Sim, sou eu mesma. Espero que as coisas tenham ficado do seu agrado... e...e...eu preciso ir...encaminhar um paciente do doutor Gustavo... Com licença. — Digo nervosa, e saio o mais rápido possível, tenho medo de fazer ou dizer alguma besteira.
Deus! Parece que cinco anos não passaram de cinco dias! Nada mudou, nem mesmo o que sinto. Não, isso, na verdade mudou, está mais forte, mais intenso, não me permitindo pensar com coerência e, nesse momento, sou grata por não o ter encontrado há dois anos, quando o procurei antes de me casar, ou, certamente, não teria conseguido seguir em frente com aquela decisão, mesmo que eu não me arrependa de tê-la tomado.
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Procuro ocupar a maior parte da minha tarde com tarefas, ajudando os outros médicos. Graças a Deus a secretária retorna amanhã e não precisarei voltar aqui. Será bem menos difícil de suportar se eu não precisar conviver diretamente com ele. Ele é comprometido e tem uma filha, jamais irei me intrometer em seu relacionamento, não sou assim.
Não o vi pelo resto da tarde. Ele não saiu da sala e eu não precisei entrar lá novamente. Agora está quase na hora de acabar esse tormento e poderei respirar aliviada, amanhã é outro dia. Organizo a mesa da secretária assim que retorno do consultório do Doutor Leandro e enfim, posso ir encontrar meu irmão para irmos embora juntos.
— Tia bonequinha! Tia bonequinha!
Ouço a vozinha doce chamar meu nome quando estou quase na porta da sala do meu irmão, e meus olhos são atraídos para a entrada do corredor que dá acesso ao setor jurídico do hospital, onde fica seu escritório. Instantaneamente um sorriso se forma em meus lábios e abro meus braços enquanto a pequena fadinha rosa solta a mão da tia e corre para mim.
— Oi minha fadinha!
Respondo quando a pego no ar e trago para meu corpo, onde ela se agarra parecendo uma macaquinha. Beijo seu rostinho corado e a aperto contra o peito, sentindo seu cheirinho de criança e morangos, um aroma que gostaria de engarrafar e guardar para aqueles momentos de stress.
— Você também ficou com saudade? — Liv fala com as mãozinhas nas minhas bochechas.
— Mas é claro que fiquei! Eu gosto tanto de fadinhas e agora tenho uma que é minha amiguinha, como não iria sentir saudades? — Respondo ainda a apertando, mas ela não reclama, pelo brilho nos olhinhos, parece até que gosta.
— Eu disse pro meu papai que você ia ficar com saudades. — Ela fala séria, como se a constatação fosse a coisa mais óbvia do mundo para ela.
Liv! A pequena fadinha é simplesmente a criança mais encantadora que já conheci. Entendo Enzo ser tão apaixonado pela pequena, afinal, o mesmo aconteceu comigo, praticamente amor à primeira vista. Sou retirada do meu momento pela voz do meu irmão.
— Olha só, minhas duas pequenas juntinhas! — Enzo fala chegando ao nosso encontro, pega nós duas em um abraço de urso e deixa um beijo em minha bochecha.
— Oi grandão!
— Irmão! — Ele diz e, somente nesse momento, noto Lucca parado em sua porta. Estranho, mas ele parece estar emocionado. — Aproveitando que vocês estão aqui, ao mesmo tempo, quero finalmente apresentá-los. Pequena, esse é o Lucca, meu melhor amigo, cunhado e pai da minha pequena princesinha. E Lucca, essa é Catherinna, minha irmã, a minha pequena! — Enzo me abraça e beija minha têmpora.
— Você é a irmã do Enzo? — Ele responde, e mesmo parecendo confuso com a informação, respira com certo alívio.
— Sim, eu sou. E você o melhor amigo e cunhado do meu irmão, quem diria, não é? — Sinto o constrangimento que o seu olhar me causa atingir as minhas bochechas, que ardem, e provavelmente estão bem vermelhas agora.
— Pois é, quem diria! — Concorda simplesmente.
— Vocês já se conheciam? — Enzo questiona.
— Sim, nos vimos no consultório mais cedo. — Respondo rapidamente, não quero dar margem para questionamentos que não estou pronta para responder.
— Gente, preciso ir! Vamos princesinha? — Lucca diz, parecendo ter pressa em sair dali. Será que a esposa não gosta que ele interaja com mulheres? Pode ser isso, e eu realmente entendo, não que eu seja ciumenta, mas acho que se fosse comigo, se ele fosse meu, seria bastante possessiva.
— Mas nem conversamos direito irmão! — Enzo diz indo em sua direção.
— Nos falamos amanhã Enzo, agora realmente preciso ir. — Ele responde e olha para mim, provavelmente quer que eu coloque a pequena no chão.
— Tchau minha fadinha! Obedeça seu papai. — Me despeço dela, colocando-a no chão e beijando sua bochecha.
— Tchau tia bonequinha. Tchau tio dindo. — Liv se despede de nós dois e corre para o colo do pai, que acena e se vai rapidamente.
— O Lucca está muito estranho hoje...deve ser o cansaço da viagem, só pode. — Meu irmão fala, quebrando o silêncio que se seguiu.
— É, deve ser isso. — Concordo, já que não sei muito bem o que falar.