49. Catherinna

37 5 6
                                        

Agradeço mentalmente ele ter me permitido falar até agora, praticamente sem interromper. Fiquei extremamente furiosa quando percebi que ele monta cenários completos em sua mente baseado em suposições que quase nunca tem fundamento e acabam levando outras pessoas a serem induzidas ao erro.

Claro que aparentemente, também conclui erroneamente a situação conjugal dele há cinco anos quando ouvi aquela conversa dele ao telefone e deduzi que houvesse alguém, contudo, da última vez foi justificável já que a própria ex-mulher se intitulou esposa e não havia muito como julgar diferente.

Mas agora, vendo-o parado me olhando chorar, me sinto tão infantil, como se o que fiz naquela época, mesmo que eu fosse de fato uma adolescente, não fosse condizente com a minha idade, sua reação me fez sentir uma tola apaixonada, e me sinto pior ainda por meu corpo reagir ao seu comando da forma como reagiu.

— Ouvi você, e agora peço a mesma cortesia. Você é livre para ir assim que terminarmos de conversar, mas não agora.

Me vejo obedecendo ao seu comando de forma involuntária, como se minha mente quisesse sair dali e acabar com a humilhação, mas ao mesmo tempo, meu corpo não obedecesse a minha consciência. Aquiesço de forma resignada e espero que ele continue, porque sei que há muito a ser dito ainda.

— Primeiro, por que pensou que houve alguma reconciliação entre Clarissa e eu?

— Ela me disse que era sua esposa...

— Ela disse? Como? Quando?

— Há dois anos, quando estive aqui o procurando...

— Você me procurou? Aqui? Em minha casa? — Não consigo identificar as suas reações e isso está me deixando cada vez mais apreensiva, mesmo assim, respondo ao que quer saber.

— Eu... eu vi uma foto sua na mesa do meu irmão e consegui seu endereço... eu...queria te ver, conversar, foi antes de me casar... Eu achei que... achei que fosse um sinal e resolvi arriscar..., mas quando cheguei aqui, ela disse que o marido não estava e que estariam viajando em seguida... Conheci a fadinha naquele dia...

Digo e me sinto sorrir um pouco com a lembrança da pequena que certamente me cativou naquele momento, mesmo que a nossa interação tenha sido curta.

— Eu lembro desse dia, eu a vi saindo do hospital e tentei te alcançar, mas você entrou rapidamente em um taxi e se foi. Recordo também das palavras da minha pequena quando cheguei em casa, dizendo que havia visto uma boneca, nunca imaginei que fosse você, Clarissa não soube me dizer quem era.

A revelação de que ele me viu naquele dia deixou-me um pouco chocada, nem sei se ele percebeu, mas a constatação de que mais uma vez nos desencontramos por pouco... É, de certa forma, assustadora.

— Desencontros...

— Você disse que foi antes de se casar... Então você realmente se casou?

— Sim, eu realmente me casei. Para ser honesta, se eu tivesse conseguido conversar com você, talvez minha decisão fosse outra... Não que eu me arrependa de ter me casado com o Rick, mas quem sabe, não teria feito.

— Teria desistido do casamento por mim?

Sim, eu teria mesmo, o que me leva a concluir que esses desencontros foram necessários e que minha teoria de que nada é por acaso e que tudo deveria acontecer dessa forma só se confirma uma vez mais.

Meu casamento com o Ricardo era necessário e, se eu tivesse encontrado com ele naquele dia, teria desistido e minha vida, nossas vidas, teriam tomado rumos totalmente diferentes, sei que algum propósito havia, por isso não me arrependo.

— Possivelmente, mas agora não importa mais...

— O que isso quer dizer?

— Meu casamento já acabou de qualquer forma, por isso estou na capital.

— Como assim acabou?

— Nos separamos há pouco tempo.

— Mas eu vi vocês juntos no hospital e você disse que o ama...

Mais uma vez percebo que ele tirou suas próprias conclusões, viu uma coisa e pensa que viu outra, contudo, dessa vez, ele realmente foi induzido ao erro, eu não esclareci, Ricardo e eu somos muito ligados e a separação ainda não é oficial.

— Sim, eu o amo, mas não da forma que você pensa. Rick sempre vai ser minha família, quem sabe um dia você consiga entender a nossa relação. Ele provavelmente sempre fará parte da minha vida, e espero que a pessoa com a qual eu me relacionar daqui para frente possa entender isso, ou certamente irei sofrer demais.

Tento deixar claro desde já, seja ele ou qualquer outro, se não aceitar minha família como é, incluindo Ricardo, não sei como seria. Preciso que ele saiba que não tenho sentimentos de casal em relação ao meu ex-marido, mas ainda assim o amo e sei que preciso estar por perto, se por mim ou por ele, ainda não tenho ciência.

Lucca fica calado por um tempo, provavelmente digerindo as minhas palavras, quem sabe ponderando se vale a pena ou não continuarmos com isso. Estamos nessa conversa há algum tempo, de minha parte, já deixei claro que não há ninguém em minha vida, mas a questão de haver ou não alguém na vida dele é a que está me matando.

— Lucca, desculpa, mas eu... eu preciso saber... a quem a Liv se referiu hoje mais cedo? Vo-Você tem alguém? — Faço a pergunta que está martelando em minha cabeça desde que cheguei hoje pela manhã

— Isso depende... Você quer saber se tenho alguém em minha vida ou se tenho alguém em meu coração, por que são perguntas com respostas diferentes.

Lucca fala isso e me olha com uma expressão que não consigo identificar, mas sei que tudo vai mudar depois dessa resposta. Não sou uma pessoa que age por impulso, sempre pondero tudo, até demais eu diria, e agora, aqui, olhando para ele, tenho a certeza de que quero uma resposta, não aguento mais essa confusão de sentimentos em minha vida, essa montanha russa emocional está acabando comigo.

Claro que tenho medo de parecer uma garotinha boba, apaixonada, mas quer saber? Chega de rodeios e meias verdades, já não me importo mais se pareço uma menininha imatura, não devo nada a ninguém, vivi todos esses anos sem ele e certamente viverei os próximos se assim for o meu destino. Não gostaria de estar pensando nisso enquanto, supostamente, minha felicidade está em jogo, mas é do amor da minha vida que estamos falando!

— Nesse caso, eu gostaria que me respondesse nos dois sentidos. Acho que chega de ficarmos nos achismos e julgando erroneamente as situações. Não sou mais uma adolescente apaixonada por um homem inalcançável, nem você é um garoto imaturo, somos dois adultos e acho que está na hora de agirmos como tal.

Noto o espanto nos olhos do Lucca e não o julgo, pois nem sei de onde veio a coragem para falar com ele nesse tom, realmente sempre gostei das coisas esclarecidas, somente com ele não conseguia falar, no entanto hoje, senti a necessidade de ser eu mesma, se ele quiser, terá que aceitar tudo em mim, qualidades e defeitos.

Ele fica um bom tempo em silêncio, realmente devo tê-lo surpreendido, mas agora estou me sentindo desconfortável, será que me excedi ou o ofendi de alguma forma? Espero que não, pois nunca foi essa a minha intenção, contudo, sua quietude por tanto tempo está me deixando cada vez mais nervosa.

Assim é...Destino?Histórias para pegar e não largar. Descubra agora