Capítulo 4 - Memória

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A minha incrível e tão detestável habilidade de pensar de mais. Pensar ao ponto de tomar decisões precipitadas e com grandes possibilidades de arrependimento, afinal, é disso que a minha vida é feita.
Na noite passada, minha mente repetia sem parar, jogando na minha cara que acabei com a vida de Henri. "já não bastou todo o sofrimento que o seu pai o fez passar?!" "Ele me odeia!" era tudo o que eu conseguia pensar. E então, meus planos de parar com os remédios foram frustrados. Mas antes de tomá-los, enviei uma mensagem para Karen pedindo para encontrá-la na tarde do dia seguinte.

Bom, hoje é o dia seguinte. Eu não sei como ela (ou eu mesmo) vai reagir ao notar que lhe convidei para tentar desenterrar provas contra o Dr. West. Uma mínima evidência de que ele era de fato um filho da puta, eu nem posso contar com um possível depoimento dela.
Primeiro, preciso saber se há possibilidades de, pelo menos tentar limpar a barra pra Henri, sem que ninguém saiba disso. Se eu conseguir, o que é muito improvável, tenho impressão de que vou conseguir dormir mais tranquilo a noite.

Já a aguardo numa mesa na área externa de uma delicatessen. Cheguei mais cedo por três motivos; eu não tinha nada pra fazer, a minha ansiedade, e eu também precisava tomar um ar. Com o meu notebook na mesa a frente, pesquiso mais sobre gap year, mas meio que nem consigo raciocinar o que leio.
Quando subo o meu olhar, posso vê-la. Está diferente da última vez em que a vi, meses atrás. Seu cabelo está mais curto, tem até um semblante mais sereno e menos carregado. Ela sorri. Quando começo a descer o meu olhar para fechar o meu computador, reparo numa surpresa, que com certeza não estava tão presente há quatro meses. Uma barriga de grávida.
Quando a noto, chego a ter um calafrio por dentro, mas não sei exatamente o motivo. Karen é tão nova e tão... independente. Tenho certeza absoluta de que não foi planejado. E claro, pelo tamanho da barriga, engravidou enquanto ainda "estava" com Henri.
Mais um motivo para me deixar pensativo, diante dos meus olhos.

-Quanto tempo!-Diz, enquanto arrasta uma cadeira a minha frente e senta-se devagar.

-É bom te ver.-Sorrio, fingindo não estar com mil teorias em mente. Já que não posso ser normal, me resta fingir.-Vocês dois...

Ela revira os olhos, me lembrando os tempos de escola, mas logo sorri novamente. Pelo visto, tem algumas coisas para dizer, mas está tentando escolher a menos impactante para sair primeiro.

-Também foi uma surpresa para mim.-Dá de ombros.-Quando tentei dar um jeito, já era tarde de mais.

-Imagino...

-Meu namorado me largou, era um filho da puta. Minha mãe acha que é dele, mas não importa, eu não posso ficar com uma criança. Não agora.

Assinto devagar, para demonstra interesse no assunto.

-Quantos meses?

-6.

Ela ainda meio que estava com Henri. Eu só preciso perguntar.

-Então...-Começo a dizer.

-Não! Eu não sou a minha irmã, sei quando um relacionamento está morto, e aquele já estava há muito tempo, como o pai desse bebê.

Suspiro, relaxando na cadeira, mas não de alívio. Nunca de alívio. Sinto o seu desespero disfarçado por algum desdém e o seu jeito de sempre. Karen é uma boa pessoa, mas ela será uma péssima mãe.

-O que você faria se... ele estivesse vivo?-Questiono.

Pensa. Acho que isso nunca lhe passou pela cabeça antes. Só depois de, talvez cinco minutos, responde.

-Ele provavelmente iria querer me fazer vomitar esse bebê, já que me dava o anticoncepcional... eu só fiquei um único dia sem tomar. É incrível como um descuido pode foder com tudo.

FrenesiHistórias para pegar e não largar. Descubra agora