Capítulo 22 - Confusão

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Antes de abrir o meus olhos, já sei que não estou na minha cama. Um pouco mais desconfortável.
Eu nunca vou entender porque quartos de hospital são tão claros. A minha cabeça dói imediatamente, sinto que eu poderia melhorar um pouco mais se fechassem essa janela que faz a luz do sol invadir e criar um contraste cegante com as paredes brancas.
Há um curativo na minha testa, bem próximo ao meu cabelo, e eu provavelmente levei alguns pontos.
Fazem meses desde quando estive aqui pela última vez, foi quando tentei morrer e nem fiquei sabendo, tomando tantos medicamentos. Precisei ser desintoxicado, e mesmo desacordado e delirando, eu sentia a dor.

Dessa vez, tenho certeza de que não houve delírio nenhum, está mais do que claro. Começo a rezar, mesmo sem saber, para que eu não tenha ficado desacordado por mais de algumas horas, enquanto começo a me erguer.

-Finalmente, meu Deus... eu quase morri de preocupação.-Minha mãe, é claro. Acredito no que diz, e ela tem motivos para isso. Ficou parecendo que foi Henri quem me empurrou daquela escada, como fez com o pai, e ficará difícil convencer todo mundo do contrário.

Minha irmã a acompanha, arrastando uma bota ortopédica em um dos pés.

-Por quanto tempo eu dormi?-Pergunto, olhando ao redor e não encontrando o meu celular em lugar nenhum. Droga.

-O que ele fez com você? Eu não deveria te deixar sozinho em casa sabendo que tinha um assassino solto por aí, que péssima mãe eu fui.-Começa a se torturar, odeio quando faz isso.-A noite passada foi o meu maior pesadelo, meus dois filhos... num hospital!

Ao puxar o lençol que me cobria, noto hematomas nos meus joelhos, devido a queda. Tenho uma dor insuportável nas minhas costelas também, mas como a minha pele não precisou ser aberta, acredito que está tudo bem.

Lili, minha irmã, informa do seu jeito que sempre esteve bem. Ela está beirando a adolescência, então as preocupações em excesso da minha mãe a ofendem mais do que deveria. Uma dia ela irá entender.

-O que aconteceu com o Henri?-Pergunto, sabendo a resposta.

-O que já deveria ter acontecido antes. Ele foi preso, querido. Não precisa mais se preocupar.-Informa, tirando o meu celular da sua bolsa e trazendo-o para mim quando nota que ainda estou tateando onde posso.-Atendi o seu celular e avisei para o Oliver que você está bem, ok?

Droga. O universo tinha que dar um jeito de estragar tudo mais um pouco, enfiando a única pessoa que me trata como alguém normal no meio de toda essa loucura, com a ajudinha da minha mãe, claro.

-Como assim?! o Oliver soube?

Lili aponta para uma TV na parede, eu nem tinha prestado atenção antes. A programação exibe um telejornal, e mostra a frente da nossa casa, indicando ser o lugar onde o assassino foi pêgo. O meu sangue no chão. Todo mundo convicto, pois a teoria é uma só.
Sinto raiva.
E também, curiosidade. Como souberam onde ele estava?

-Bom... eu vou chamar a enfermeira, tá bom? Preciso ir em casa e ela ficará com você.-Diz, após notar, na minha cara, que essa situação toda me deixa revoltado, ao invés de aliviado. Não tenho tempo a perder, ficando deitado numa cama de hospital.

Antes que Lili vá, junto a minha mãe, peço que espere. Ela presta atenção no que tenho a dizer. Através da língua de sinais, digo "mantenha a mamãe longe do celular". Assente, saindo logo em seguida.

Dou uma olhada no meu celular. Um textinho sobre recomeços e outras besteiras da minha terapeuta, que a propósito sabe que estive encontrando Henri, alguns convites para entrevistas de Nelly, Oliver me desejando forças, Camille querendo detalhes, disfarçada atrás do seu "bom dia", e, nenhuma mensagem de Karen, o que, parando para pensar, é bem estranho, já que sempre faz questão de ressaltar que se importa comigo.

Arranco o esparadrapo que segura o cateter de soro da minha veia, não sinto que preciso mais disso. No momento em que começo a me levantar da cama, percebo que ainda não bolei um plano. O meu carro com certeza não está por aqui, não posso contar com Callie, pois se ela ainda não entrou em contato, é porque tem seus problemas para resolver, e além disso, não estou em condições de surgir do nada pedindo para me socorrer. Ligo para Oliver, antes de parar para pensar muito.
Foi a única opção que me restou, já que não confio em ninguém mais.

*

Para a minha sorte, a enfermeira não tava nem aí para o paciente em questão, no caso, eu. Quando passei, após vestir as minhas roupas, sendo o mais discreto possível, a vi falar no celular há poucos metros do quarto. A conversa parecia estar bem interessante. O universo continuou ao meu favor quando os corredores e recepção estavam praticamente vazios, só precisei me esforcar para correr um pouco.
A única dificuldade que tive foi para vestir a minha roupa, meu corpo está muito dolorido. Pra ser sincero, não imaginei que seria tão fácil fugir de um hospital estando sob observação. Acredito que pelo caso já estar "solucionado". Que se dane, eu vou mandar o Dr. West direto para o inferno.

Oliver dirige o conversível de Nelly, e sinceramente, sinto alívio por ela não estar no banco do fundo. Acredito que por ser mais rápido, eu disse que se tratava de uma emergência. Espero que sua namorada esteja ocupada o suficiente para não saber que estamos juntos.
Quando me vê, desce do carro e meio que corre para vir de encontro a mim, que já não consigo mais correr.

-Você tem certeza?-Pergunta, notando minha palidez além do normal. O reflexo do sol no carro machuca os meus olhos e agravam a minha dor de cabeça. Assinto, protegendo a minha vista com a mão.-Pode me contar o que aconteceu?... se não for muito difícil, claro.

Demoro um pouco para separar na minha mente o que deve ser contado ou não, enquanto me aproximo do carro. Corre para abrir a porta para mim. Ao que parece, pensou em tudo, pois o teto do automóvel descapotável está presente no momento, e não há indícios de chuva.
Não posso dizer que me sinto melhor, pois todo o meu corpo dói e a minha mente está a ponto de surto. Também, sou dessas pessoas que sentem vontade de vomitar por ter qualquer vestígio de anestesia no sangue. Lado ruim? todos. Lado bom? estou dentro do Porsche de uma hippie riquinha, e ela não está aqui.

-Não foi nada de muito grave...-Tento a sorte.

-Não? A sua mãe me disse que tinha um assassino na sua casa. E... você acabou de sair do hospital.-Mostra não ser nem um pouco ingênuo enquanto começa a dirigir. Eu não disse onde queria ir, só que precisava urgentemente cair fora.-Eu acho que estou mais preocupado do que curioso.

Me esforço para conseguir colocar o cinto de segurança de forma que eu não sinta que levei um tiro no quadril.

-Eu preferia que fosse o contrário.

Um curto silêncio. Raro, vindo dele. Não é atoa que diz "bom.." e pensa até surgir seu próximo argumento.

-Por que pensa assim?

-Tem muita gente preocupada comigo...-Digo.-Eu queria te manter fora dessa para continuar sendo uma excessão.

-Isso significa que até a Nelly sabe o que tá rolando e eu não?-Manda o argumento mais inusitado que eu poderia esperar.-Eu não esperava tamanha traição...

Se eu não estivesse quase morrendo, eu poderia até rir da forma como o diz.

-Foi um acidente.-Digo.-Desculpa.

Tira os olhos do caminho a sua frente e reduz a velocidade para virar pra mim por um segundo, retornando quando ouve duas buzinas logo atrás.

-Peraí, por que tá pendido desculpas?

Não tenho respostas. Eu simplesmente não sei.

-Eu não sei.

Se eu estivesse no seu lugar, também estaria confuso. Lhe chamei para me buscar de repente sem dar a mínima satisfação, e ele apareceu, menos de dez minutos depois. Acho justo lhe deixar saber de tudo, mas não agora, e não aqui.
Começo a lhe dizer por onde ir.

FrenesiHistórias para pegar e não largar. Descubra agora