É domingo, não tenho nada a declarar sobre esse acontecimento trágico. Ultimamente, não posso mais me encher de medicamentos as duas da tarde pra apagar e acordar na segunda como se nada tivesse acontecido, então tento, ao máximo, fingir que esse dia não me deixa deprimido. Geralmente, vou trabalhar, mesmo não sendo necessário aos finais de semana. Quando faço isso, a menina que deveria ficar com esse turno me agradece tanto que fico sem reação. Eu raramente a vejo, pois só aparece quando já terminei todo o serviço. Mas isso não me tira do sério, de jeito nenhum, as vezes até chego a ocupar a minha mente. Callie também surge por aqui as vezes.
O filme quase sempre é uma merda, todo mundo reclama da pipoca, o refrigerante é 80% gelo, e lamento pela pessoa que faz a limpeza na sala do cinema, pois são incontáveis camisinhas usadas, entretanto, é um lugar tranquilo e agitado ao mesmo tempo, tudo o que eu preciso no momento.
Também estive pensando sobre a carta de suicídio mal sucedido do Seth. Eu não li, não abri, e continua no bolso da minha jaqueta desde o dia em que a peguei pela primeira vez. Tenho pensado se realmente quero saber o que tinha a me dizer... se sou realmente digno de ler as suas palavras cheias de ilusão e sentimentos puros, que escreveu enquanto eu estava pensando em outra pessoa. Se eu seguisse a emoção, já teria lido há um tempão... a razão está insistindo que essa carta foi escrita para outra pessoa. A pessoa que ele achava que eu era.
Levanto-me do banco onde eu estava sentado, atrás do balcão e caminho até uma portinha discreta, onde há uma dispensa muito mal organizada. Lembro-me de ter visto uma velha maquina de triturar papéis por aqui um dia, e felizmente tenho êxito ao encontrá-la de imediato, pois estou quase desistindo de fazer isso. Tiro o papel do meu bolso e aperto o botão, causando um barulho esquisito. Depois de um suspiro, e sem muito pensar, enfio a carta que jamais será lida no triturador, que a tranforma em tiras finíssimas, que imediatamente vão de encontro ao chão.
Em silêncio, dou adeus ao último pedaço em forma física que eu tinha de Seth, um sacrifício necessário.
O barulho da porta de vidro batendo lá fora faz o meu momento melancólico se dissipar um pouco. Se fosse algum casal em busca de um lugar sossegado pra transar com o pretexto de assistir a um filme eu saberia, eles sempre chamam de forma nada discreta.
-Callie, sei que está aí. Isso só teve graça nas duas primeiras vezes.-Tento a sorte, tendo certeza de que se trata de Callie, e logo lembrando que a sua vó provavelmente ainda está acordada e não a deixaria dar uma escapada dessas.
Não tenho resposta nenhuma, o que me resta é sair para olhar. A porta está permanece fechada, começo a crer que foi o vento noturno. Porém, a porra da luz do sensor ferrado pisca lá fora. O vento não pode fazer isso. De qualquer forma, terei que ir resolver. Esse é um momento daqueles em que odeio trabalhar nesse lugar e volto a me sentir em um daqueles filmes de terror, o céu nublado contribui com tudo.
Respiro fundo antes de segurar a maçaneta e sair.
Eu não sei se deveria estar sentindo frio por estar devidamente agasalhado, mas estou. Por aqui, só o contato físico é capaz de resolver isso. Há um bosque com um lago bem atrás, nenhuma construção dos lados, um lugar totalmente fora de contexto. Bom, um motel disfarçado de cinema.
Consigo reiniciar o sensor rápido e já está tudo bem.
Já posso voltar ao meu estado de lamentação e melancólia anterior, afinal, é domingo.
Antes de retornar para dentro, viro-me para trás, só para ver se está tudo em ordem. E não está.
De longe, avisto uma silhueta masculina que conheço muito bem. Eu conheço! Sim, os meus olhos estão vendo! Pisco inúmeras vezes só para ter certeza. Não o enxergo nitidamente por conta da luz de um único poste que ilumina o estacionamento, mas ao que tudo indica, Henri está bem ali, parado e virado para mim.
Na minha cabeça, tontura. Tudo começa a girar. Meu coração parece querer sair do peito, e as minhas pernas, involuntáriamente começam a caminhar indo em frente.
De repente, uma luz surge atrás "dele", como de um farol de carro, cada vez mais próximo. Se eu já não estava enxergando muito bem, agora tudo piorou. Tento proteger os meus olhos com a mão, simplesmente já não conseguia mais mantê-los abertos. Foi menos de dez segundos, quando abaixo a mão, já não está mais lá. Só o que vejo é o carro invadir o estacionamento.
Meu sentimento é de frustração, e também de perda, mesmo eu tendo muitos motivos para acreditar que foi tudo fruto da minha imaginação.
O carro estaciona numa das inúmeras vagas vazias. Mais uma surpresa, mas essa é cem porcento real. Não faço idéia do que Oliver faz aqui, mas devo ter comentado com a sua namorada sobre o meu local de trabalho. No momento, eu não estou em condições de forçar a minha mente a lembrar de nada, então se for uma entrevista, eu lamento. Mal consigo respirar.
-Ei! que coincidência, já estava indo embora?-Pergunta, empurrando a porta para fechar e vindo até mim com as suas mãos nos bolsos do casaco... como Seth. Tento disfarçar que estou em choque.-Você tá bem?
Assinto rapidamente.
-Sim, claro... eu não sabia que você viria.
-Pois é... eu quero te pedir desculpas pessoalmente, te pressionei de uma forma que não deveria e nem perguntei se queria falar sobre o assunto, eu a Nelly pensamos bem.
Sinto que ainda estou com aspecto de perturbado, mas tento sorrir.
-Tudo bem, não precisa se preocupar.-Afirmo, constantemente olhando para trás dele, onde não há absolutamente nada.
-Se você quiser aparecer no campus para conversar, de repente... fica a vontade.
Assinto devagar. Curioso, vira-se também, para tentar desvendar o motivo do meu comportamento anormal. Não o julgo.
-Sim, pode ter certeza.-Digo, segundos após a sua proposta.
-Acho que vou ter que perguntar se você está bem novamente.-Diz, virando-se para mim e dando de ombros.-Está esperando alguém?
Eu preciso de uma resposta. Preciso saber se tô pirando de vez.
-Quando você estava vindo, viu alguém parado ali?-Aponto para o início do estacionamento.
Pensa.
-Bem... eu estava digitando no celular, mas juro que foi só porque não tinha carro ou árvore nenhuma por perto... e ninguém, eu acho.
Agradeço pela informação, voltando para o lugar de onde nunca realmente saí.
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Frenesi
General FictionSEQUÊNCIA DE "BULLYING". "Eu não posso esquecer de quem eu sou... Onde você está? Por que não volta para mim, para então podermos resolver toda essa bagunça? E se... eu acabar me interessando por outra pessoa? (...) para o nosso bem, eu não posso es...
