~ 2 meses depois.
Eu ainda não decidi a palavra certa para usar, "melhor" seria muito ganancioso, e "pior" eu estaria mentindo. Fazem dias que voltei a dormir durante toda a noite... e sentir também. Voltar a sentir alguma coisa que não seja tristeza ou angústia é tão reconfortante que posso até ficar feliz por estar com raiva, por exemplo.
Hoje faz, talvez, uma semana de que arrisquei fazer uma das façanhas mais arriscadas da minha existência. No começo quase morri, literalmente, mas ao passar dos dias pude perceber que isso só me fez bem.
Em uma consulta, de repente, a Dra. Susan simplesmente me sugeriu que eu ficasse longe do meu celular, computador, ou qualquer fonte de notícias. Eu surtei e me levantei do divã, andei em círculos na sua sala por longos minutos temendo que talvez fosse realmente o melhor para mim.
A verdade é que eu estava mais obcecado do que nunca, e isso estava me matando aos poucos. Eu estava melhorando, aí veio o julgamento e tudo foi por água a baixo.
Estar literalmente frente a frente com o Henri algemado, naquela roupa laranja e num tribunal me fez precisar de um coquetel de calmantes. Frio como sempre, o seu olhar estava fixo a frente, o meu, não saiu dele por um único instante. Se eu precisasse resumir o meu testemunho agora mesmo, eu não faria idéia do que disse. Não pude identificar um único sentimento na sua linguagem corporal.
Quando terminei, levantei-me e sai, parando antes de deixar o tribunal para dar uma última olhadinha para trás. E apenas os seus olhos se moveram em minha direção. O frio na barriga que senti me causou um milhão de outras sensações. O seu olhar me disse, do seu jeito, que tudo ficaria bem.
E se tudo ficaria bem, eu também precisaria ficar. Desliguei o meu celular e enfiei em uma das minhas gavetas. Eu não ficaria entediado, tinha Oliver, e ele me faz bem... talvez até um pouco mais do que deveria. Nós apenas descobrimos que os assuntos surgem como mágica, e digamos que uma amizade como essas é impossível de ser entediante. Fomos numa viagem de três dias, velejar num dos barcos chiques da família da Nelly, só nós dois, sem qualquer tipo de tecnologia, lidamos com a indignação de Callie, que queria ir mas os seus pais não deixaram, e com o total apoio de Nelly, que a propósito já entrevistou o advogado do Henri duas vezes para um telejornal. Ela está mais do que realizada e super ocupada com isso tudo, e as vezes penso que é só disso que precisa.
Voltamos hoje a tarde, e é por isso que tenho tanta dificuldade para acordar da minha soneca paralela e desnecessária. Eu estava tão exausto que literalmente sentei-me na cama e acabei dormindo.
Tudo o que posso dizer no momento é que não ter pelo menos um relógio de pulso é uma merda. Só sei que é noite porque está escuro lá fora. A parte estranha é a minha mãe ainda não ter aparecido para verificar se estou vivo.
Levanto-me rapidamente, porquê o meu sono arruinou alguns dos meus planos e eu ainda tenho uma mochila para desarrumar. E... preciso ligar o meu celular para saber o porquê de as coisas ainda não estarem bem para o Henri... preciso me atualizar sobre tudo o que diz respeito a ele, na verdade.
A luz que invade o meu quarto indica que a porta está sendo aberta, viro para olhar imediatamente dando de cara com Callie. Eu pensei que estivesse ocupada ultimamente com os seus pais obrigando-a a escolher uma faculdade para ter um futuro.
-Não me conta sobre a viagem, ainda tô bolada com vocês por não terem me sequestrado.-Diz, parando na minha frente e de braços cruzados.
-Peraí, o que você está fazendo aqui?-Questiono.
Pensa. Tenho certeza de que está escondendo algo. Não sou muito bom em pegar as coisas no ar, mas Callie é ainda pior em disfarçar.
-Preciso estar tramando alguma coisa para vir até a casa do meu melhor amigo?-Dá de ombros, umas três vezes. Se ela cometesse um crime, seria pega nos primeiros minutos.-Anda, vem logo! Acorda!
VOCÊ ESTÁ LENDO
Frenesi
Ficção GeralSEQUÊNCIA DE "BULLYING". "Eu não posso esquecer de quem eu sou... Onde você está? Por que não volta para mim, para então podermos resolver toda essa bagunça? E se... eu acabar me interessando por outra pessoa? (...) para o nosso bem, eu não posso es...
