Capítulo 31 - Lágrimas

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Fugir sempre me pareceu uma boa idéia, mas dessa vez, temos que nos contentar com algo breve e de curto prazo. Por motivos óbvios.

O Henri está indo bem, mas eu ainda preciso convencê-lo a ir a um psicólogo de forma indireta e sem soar ofensivo, o que não deveria acontecer... mas não posso esquecer que se trata do Henri. Passou todo o dia de ontem e a manhã de hoje na acadêmia do hotel. Eu juro que não faço idéia de como conseguiu passar horas seguidas e ininterruptas fazendo exercícios físicos, mas ele o fez. Os outros hóspedes devem ter ficado putos, pois o lugar foi fechado para uso exclusivo dele, para evitar que fosse importunado... e bom, ele ficou lá durante horas, ontem e hoje.
A melhor parte disso tudo foi que ficou exausto e dormiu. Perguntou se eu estava bem quando saiu do banho, eu menti, como sempre, dizendo que sim, e então deitou-se. E enquanto eu falava e falava, tentando, de alguma forma, chegar indiretamente a um ponto onde eu admitiria que não estava de fato bem, dormiu. Eu então respirei fundo e engoli as minhas palavras de volta.

Hoje, senti uma imensa necessidade de cair fora desse quarto de hotel um instante. Nunca estive tão ansioso. E além de ter que estar o tempo todo pisando em ovos, porque o meu namorado é, aparentemente uma bomba relógio sem hora marcada para explodir, estar num espaço grande, e ao mesmo tempo tão pequeno, me sufoca. Há dias atrás eu estava tão livre... no mar com Oliver, que os meus conceitos sobre liberdade mudaram para sempre.

Precisei mover os pauzinhos por uma boa causa. Conversei com a equipe do hotel e pedi para adiantarem o serviço de quarto (que a propósito ainda está uma bagunça), só para sermos forçados a sair.
Quando volto e abro a porta do quarto, ele está levantando dois halteres alternadamente na frente da TV. Na tela? a cara do Dr. West. Ele tinha que fazer isso justamente no horário do jornal local... se bem que no programa de fofoca e nos programas de talkshows eles só falam sobre isso também... porra.

-Serviço de quarto... vamos ter que sair.-Digo, após entrar.-Ele continua o que está fazendo, ofegante e sem tirar os olhos da TV nem por um instante. É como se isso lhe desse energia para continuar até se esgotar por completo.-Podemos ir pelos fundos.

Quando percebo que não vai reagir e está praticamente em um estado de transe, caminho até a frente da TV e aperto o botão para desligar. Ele continua.

-Acha que isso vai fazer eles pararem de falar?-Questiona, depois de um tempo.

-Não... mas o que nos deixa mal é ouvir, não é?-Digo.

Mexe a cabeça negativamente.

-Que se foda, eu nem ligo mais.

Larga os pesos no chão, fazendo um breve barulho. Logo em seguida joga-se de costas no sofá logo atrás. Seus braços devem estar doloridos mas não se importa.
Bom... ao que parece, pelo menos baixou a guarda... ele nunca deixa claro quando está disposto a negociar, mas geralmente eu ganho, pois sempre me coloco em jogo.

-Eu não quero ficar longe de você.-Digo.-Aproximando-me.-Vamos lá...

-Pode ir, eu vou ficar bem.-Diz.-Não quero ter que socar nenhum filho da puta que me fizer perguntas no meio da rua.

Quando percebo que o meu apelo não está funcionando, me aproximo mais um pouco e sento-me ao seu lado. Levo a minha mão até o seu rosto, fazendo o virar para mim, beijando-o logo em seguida.
Não me surpreende quando me puxa para cima dele. Não tivemos mais esse tipo de contato, e posso admitir que talvez tenhamos até esquecido o quão prazeroso é... bom, talvez fosse um pouco mais para mim, se a minha mente não estivesse a mil.
Sinto o seu corpo semi-nu contra o meu, e ainda assim, não sinto tesão... não como os planos que criei enquanto estava longe, não como eu costumava sentir. Nesse momento, eu começo a indagar muitas coisas, e uma delas é se consigo sentir alguma coisa além de medo.
Agora, tudo o que quero é que esteja controlado, satisfeito e longe de problemas. E por isso, me pergunto se realmente me odeio tanto ao ponto de estar nessa situação.

Não tenho outra opção além de não me importar se vai usar o meu corpo para descarregar as energias que ainda lhe restam, por mim, está tudo bem, mesmo estando tudo mal. O que importa é que não está procurando uma maneira auto-destrutiva de se manter ocupado. Então não custa muito fingir que estou sentindo prazer enquanto me fode como um animal selvagem empurrando a minha cabeça contra o travesseiro. Ele não pode ver as minhas lágrimas... ao que parece, ele nunca as vê.

FrenesiHistórias para pegar e não largar. Descubra agora