Capítulo 1 - Os Encapuzados

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Piscou algumas vezes, olhando ao seu redor. Estava em um beco estreito, as paredes altas, de casas e mais casas juntas, quase cobriam totalmente sua visão do céu. Havia uma placa próximo de si, emitindo uma luz verde em seu rosto. A garota respirou com dificuldade, sentindo uma forte dor no abdômen, levantando levemente a blusa notou um corte horizontal, do umbigo até a lateral do corpo. Felizmente o sangramento já havia estancado.

A luz no fim do beco era um pouco clara, sugerindo que o dia estava amanhecendo. A garota se levantou, com um pouco de dificuldade. Vestia uma blusa branca e um jeans preto. Suas roupas, encharcadas, não sabia exatamente diferenciar se era suor ou água. Na verdade, não sabia de nada. Ela olhou novamente em volta, assustada, não lembrava o seu nome, seu passado, quem era. Em sua mente, havia apenas alguns vislumbres do dia anterior. Ela colocou as mãos na lateral de seu rosto, lembrando-se da corrida contra quatro encapuzados, um deles quase ao seu alcance, em um dos prédios da cidade. Quando chegou ao final do prédio, sua única opção tinha sido saltar, e seu pouso fora o resultado da dor no abdômen.

— Deve ter sido um sonho — disse, para si. Era a opção mais acreditável. Como foi perseguida por encapuzados? Não tinha sentido — Um sonho de merda!

Mas então como você explicaria esse machucado? pensou. Tudo era estranho. Não conhecia absolutamente nada. Não havia carros, apenas pessoas, e muitas delas. O beco era estreito para passar qualquer carro, mas as pessoas andavam de um lado para o outro, algumas se esbarrando ao longo do caminho.

Algumas lojas estavam abrindo e outras estavam fechando, uma cidade que não dormia. Grandes placas brilhantes emitiam alguns alertas. Ela parou em uma delas, as placas ficavam em todos os lugares, escritas em diferentes línguas e tamanhos. Não conseguia diferenciar as línguas, ou saber o significado, mas uma parte de si sentia que conhecia.

Um homem de terno e de olhos de cores diferentes começou a anunciar: "... não se sabe o que causou a explosão do porto dois dias atrás. A polícia já está investigando, mas ainda nenhum suspeito foi encontrado. O governo disse...". Ela continuou andando, o moço era jovem e se expressava bem, parecia ter a sua idade praticamente. A garota bateu de ombro com algumas outras pessoas, odiando aquele lugar. Por que era tão estreito?

O que ficou em sua cabeça, não era exatamente o rosto do rapaz, mas o que havia dito. Parecia sentir algo sobre aquela explosão no porto, era tudo que sabia, sentimentos. Como se uma parte de si quisesse falar, enquanto a outra não sabe como se expressar.

A única coisa boa era que as pessoas não notavam a sua existência, apesar de ser alta, passava tranquilamente, mesmo descalça e com uma mancha vermelha na sua blusa branca, todos pareciam preocupados com suas próprias vidas para notar algo fora do normal. Não como se existisse um normal, as cores de cabelo e olhos eram todas diferentes. Um rapaz de olhos laranja passou pela sua visão. Tatuagens brilhantes e partes do corpo biônicas eram completamente aceito como normal.

Ela descansou, entrando em um beco mais vazio, encostando suas costas na parede. O machucado continuava doendo, cada vez que respirava, a dor aumentava. Havia uma tela em sua frente, totalmente preto. Conseguia ver o seu reflexo, seu cabelo curto, molhado até os ombros, seus olhos cansados. Nem a si mesma, reconhecia. Ela se afastou, com raiva.

Logo em frente notou um senhor barbudo que parecia ter uns quarenta anos começando a abrir sua loja, um pouco ofegante pelo esforço. A garota se aproximou, encostando na parede ao seu lado.

— Licença. O senhor poderia me informar onde estou?

— Hum... Na Avenida 12, senhora. Perto do Setor — respondeu. Seus olhos passaram pelo seu corpo, arregalando levemente ao ver a mancha vermelha, mas logo abriu um sorriso, despreocupado — Você pode pegar um metrô, é logo ali do outro lado da esquina. Sinceramente acredito que seja o melhor meio de transporte dessa cidade, não que eles tenham feito um ótimo trabalho, mas depois da Junção as coisas meio que...

— Obrigada — disse ela, já se afastando sem se preocupar em cortar a fala do moço. Não tinha tempo para aquilo. Ele deu um aceno de cabeça tímido em resposta.

Com passos firmes, atravessou a rua e entrou na estação, descendo algumas escadas. Sentiu-se estúpida. Até parece que iria reconhecer qualquer lugar que aquele homem falasse, ou soubesse qualquer lugar que poderia ir. Ela respirou fundo.

Uma pequena luz verde, separava a parte de dentro, da de fora. As pessoas passavam usando um cartão, só assim a luz apagava realmente. Rapidamente pulou a luz, recebendo um olhar feio de algumas pessoas. Mesmo ninguém a seguindo, ela apressou o passo, entrando no vagão e sentando em um assento de frente para o corredor.

O local era bem organizado, as cadeiras devidamente separadas de si, confortáveis. À sua direita, sentava um menino com fone de ouvido e um skate sobre o colo. Um cochicho no meio do trem pertencia a uma mãe falando com sua filha. Alguns homens de terno surgiram, sentando-se elegantemente nos assentos.

Um pequeno barulho ecoou, e as portas se fecharam, um cinto prendendo-a firmemente contra o assento. Seu coração bateu mais forte, tentou sair do aperto, mas era impossível, se tivesse uma faca... A garotinha apontou em sua direção, falando com sua mãe. Ela desistiu, forçando um sorriso amigável, ou o mais próximo disso. Levemente pousou a cabeça na janela tentando organizar seus pensamentos, mas o barulho do metrô falava mais alto, com os vultos em preto do túnel passando cada vez mais rápido, até sumirem.

— Estação XIV — disse uma voz eletrônica vindo do alto-falante do metrô.

O cinto a soltou. Estava tão distraída que nem tinha pensado para onde iria. Levantou-se para chegar perto do mapa. Seus olhos se arregalaram ao ver todas as paradas, a cidade era gigantesca. Decidiu ir à sorte, não tinha um plano, casa, nem mesmo sabia se existia pessoas em sua vida. Qualquer lugar que fosse, estava bom.

Ela levantou o rosto, notando pela primeira vez, cinco encapuzados, cada um entrando por uma porta do vagão. Seu coração acelerou, isso ela não entendia, não sentia medo, apenas vontade de agir, impulso. Fazia sentido? Seus olhos passaram rapidamente pelas outras pessoas, será que sentiam o mesmo? Aparentemente não. Seus rostos expressavam admiração, respeito e até mesmo, amor. Aos poucos começaram a sair, com sorrisos. Como se os encapuzados estivessem conversando com eles, e pedindo educadamente para se retirarem.

Não tinha para onde correr ou como se esconder. Deveria agir como eles? Sabia que mesmo que fosse a melhor atriz do mundo, não seria capaz de demonstrar admiração. O que sentia era totalmente diferente. Sua vontade era apenas uma. E pelo visto, eles também sentiam a mesma coisa, estavam ali por causa dela.

Um dos encapuzados ocupou o assento da frente, o segundo um pouco mais para o lado, os outros três mais afastados. Mesmo evitando seus olhares, percebeu que nenhum deles possuíam um rosto, apenas uma pequena luz amarela. Estavam todos vestidos de preto, um sobretudo, uma cinta, botas compridas que iam até o joelho e uma espada nas costas.

O barulho surgiu novamente. Ela se mantia em pé, sabendo o que aquele barulho fazia. Ficar presa em uma cadeira seria a pior de suas possibilidades no momento. Eles também sabiam, os que estavam sentados se levantaram em um pulo. O metrô começou a se mover. Sua mão fechou em punho involuntariamente. Era realmente real? Ela piscou algumas vezes, olhando em volta, não tinha o que fazer além de lutar. O encapuzado a sua frente já tinha a espada em suas mãos, começando a vir em sua direção.

De repente um sino agudo ecoou pelo metrô, pegando-a de surpresa, ela se desequilibrou, um dos joelhos tocando o chão, apoiando em uma das cadeiras. Quando pensou que aquela situação não poderia piorar, as luzes se apagaram. 

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