Suas mãos estavam fechadas em punho, sentia a unha afundando em sua pele.
— Eu já te disse pela terceira vez, menina — disse o Mestre, entediado — Acalme-se.
L3 firmou os olhos em sua direção. Seu cabelo branco caía em seus olhos, tocando de leve seus óculos. Ele contemplava sua mão, entediado pela cena. Os olhos pretos pareciam gigantescos por conta dos óculos redondos. Um calor dominou seu corpo, sem pensar, investiu sobre o velho.
Foi uma tentativa patética. L3 nem chegou a tocá-lo e já havia sido arremessada para o outro lado do tatame. Ela olhou sua imagem no espelho atrás do Mestre, um rosto juvenil respondeu seu olhar. Uma de suas qualidades que sempre admirou foi sua capacidade de esconder as emoções. Seu rosto não emitia nenhum sinal de irritação, apesar da festa que sentia em seu interior.
— A gente pode ficar aqui o dia inteiro se você quiser.
A menina se endireitou, respirando fundo, o rosto indiferente. Abriu a mão devagar, sentindo um formigamento na palma da mão. Ela poderia investir novamente contra ele, mas a diferença de tamanho era absurdo. O Mestre era alto e forte, L3 podia ser esperta, mas era magra e pequena, teria poucas possibilidades.
— Vou pedir novamente — O Mestre olhou em sua direção — Acalme-se.
— Eu estou calma — respondeu L3, um pouco mais alto do que esperava.
— Não é sobre aparentar estar calma. Por fora você pode transparecer o que quiser, eu não me importo. O que importa é aqui dentro — disse o velho, apontando para o coração.
L3 olhou confusa, fixando nos seus olhos pretos, esperando a continuação. Era interessante pensar o quanto aqueles olhos haviam se tornado habituais. Não fazia tanto tempo desde aquele dia.
Um arrepio percorreu seu corpo. A chuva batendo na sua pele com força. A roupa encharcada, a barriga roncando por dias sem comer. Um braço forte passando em torno de seu pequeno corpo, a segurando contra si. A menina não tinha força para levantar a cabeça e saber quem a carregava, mas não tinha ideia que aquele momento mudaria o seu futuro completamente. Esse foi o dia que o Mestre a resgatou.
— Você tem nove anos, menina — disse o velho — Já passou da hora de agir emocionalmente.
Ela havia aprendido a gostar do Mestre, a entender sua maneira séria e direta. O respeitava mas que todas as pessoas que conhecia. Mas não gostava do fato de continuar chamando-a de menina. Ele havia negado escolher seu nome. Dizia não ser seu pai e pedia que não confundisse suas obrigações. Ela trabalhava limpando a academia e somente assim, poderia continuar morando ali. L3 lembrava alguns dos nomes que suas famílias anteriores haviam dado, mas tinha fugido por um motivo, não gostaria de recordar-los.
O velho morava sozinho, não tinha família. O máximo de apego que sentia era por um gato preto, que se achava o dono da casa. L3 lembrou de uma vez que precisou gritar para expulsar o gato de sua cama. Por mais que o Mestre mantivesse uma relação distante com a menina, às vezes ao entrar no seu quarto, ela encontrava alguns presentes, embrulhados com um papel vermelho, cuidadosamente sobre a cama.
— Lá nas ruas, essa raiva foi útil, te ajudou a sobreviver — disse o Mestre — Mas em uma luta, essa raiva te consome e você afoga.
Ele sempre pronunciava as palavras com firmeza, calma e uma certa reverência. L3 respirou fundo. A academia cheirava a suor, como o habitual. Era espaçoso e reconfortante. O velho havia aberto aquele lugar quando jovem, e desde então dava aula para as crianças e adolescentes. Dizia não dar aula para os adultos por terem uma mente fechada ao aprendizado. L3 não ia para a escola, era uma experiência apenas para os ricos. Então após fazer suas obrigações ela passava todo seu tempo na academia. Pegando todos os treinos marcados no dia.
— Como assim afogar? Afogar no que? — perguntou a menina.
O Mestre expressou um pequeno sorriso.
— Todos temos um mar dentro de nós — disse — Como está seu mar agora?
— Agitado — respondeu L3, diretamente.
— Agradeço a honestidade — disse o Mestre rindo — Essa é a questão menina. Enquanto seu mar estiver agitado, você não vai agir com sabedoria. Aprenda a acalmar seu mar. Domine suas emoções.
O Mestre sentou no chão, de frente ao espelho. As mãos em cima da perna cruzada. Ele respirou profundamente algumas vezes, e olhou em sua direção esperando que fizesse o mesmo. O velho a havia irritado com sucesso. Dizendo coisas sobre seu passado. O tempo que viveu sozinha. E o que foi mais eficaz, seu medo de ficar sozinha. A menina investiu contra o velho algumas vezes, falhando todas suas tentativas. Poderia tentar novamente, mas ela sabia que era exatamente o que o Mestre esperava.
L3 sentou-se ao seu lado, respirando fundo, sem sentir nenhuma mudança. Seu corpo continuava quente, e estava com uma vontade gigantesca de atingir alguma coisa. Seu mar estava agitado e parecia não haver nada que pudesse acalmá-lo no instante.
— Era para sentir alguma mudança? — perguntou a menina.
— Bem, funciona comigo. Arranje a sua própria maneira — respondeu — Não acredito que te irritei o suficiente a ponto de ser irreversível. Se bem que eu peguei pesado ao dizer que você morou na rua porque ninguém te amava.
A garota olhou para ele com o canto do olho. Precisava se acalmar. Tentou respirar novamente, sentiu seu pulso diminuir, mas a maré continuava.
— Pode ter sua verdade nessa frase. Talvez seus pais morreram porque não conseguiam aguentar o fato de ter uma filha tão fraca.
Seu pulso acelerou novamente, o coração batendo forte contra o peito. O Mestre tinha levantado, andando ao seu redor. Voltando entediado com seus ataques verbais. Segurou firme contra a vontade de fechar sua mão em punho e se jogar em cima dele.
L3 repetiu que precisava se acalmar. Por que? respondeu a voz no fundo de sua cabeça, raiva sempre foi força. Mas a raiva não estava ajudando-a nessa luta. Ser emotiva contra alguém que sabe lutar, é simplesmente desistir, você se torna vulnerável e era exatamente isso que o Mestre estava tentando ensiná-la.
Uma imagem da sua mãe passou pela sua cabeça, seu pai, o Mestre. Todas as pessoas que ela já amou. Inspirou e expirou. O ar enchia seus pulmões e esvaziava com calma. Ela contemplou seu próprio rosto no espelho, inexpressivo.
— As vezes eu me pergunto, por que eu não deixei você morrer na rua? Eu não precisaria lidar com essa chatice e infantilidade...
L3 se levantou, ouvindo seus batimentos. O mestre parou de falar. Esperava que ela gritasse ou tivesse outro ataque de raiva. Mas L3 o surpreendeu ao abrir um sorriso. Sua mão repousou devagar no seu peito, o mar estava sob controle.
Deu um passo para a frente. Agora também conseguia refletir sobre seus ataques, imaginando o que ele faria. Tentou atingir sua perna, fazendo-o cair, mas foi bloqueada. O mestre havia bloqueado da mesma maneira que anteriormente, a forçando para frente. L3 escapou de sua defesa.
O velho decidiu atacar. O movimento do quadril indicava que seria um chute. Havia aprendido a ler as pessoas no primeiro ano. L3 se abaixou, acertando sua perna de apoio. Ele caiu, mas rapidamente se levantou, dando um soco na direção da sua cabeça. Com o mar calmo, dentro de si, conseguia tomar melhores atitudes. Segurou rapidamente na manga de sua camisa e em um giro, forçou o cotovelo para dentro, obrigando-o a ajoelhar, o imobilizando, torcendo seu pulso.
O Mestre soltou um grito abafado e levantou os olhos. O óculos desajeitado em seu nariz. Ele não aparentava estar bravo, pelo contrário, L3 percebeu uma sensação de orgulho transparecer em seu olhar. Um sorriso cresceu em seu rosto.
— Parabéns, menina — disse o velho — Você controlou seu mar.
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A Última Vida
Ficção CientíficaEm um mundo futurístico os países se destruíram em caos. A única maneira foi juntar todos os sobreviventes em um novo e único país, liderado agora por apenas uma pessoa, Imperatore. O que ninguém sabe é que esse líder foi o responsável por todos os...
