A menina acordou no ombro de L4. Estavam sentados, encostados à parede do corredor. Afastou-se devagar, com medo de acordá-lo. Seu pescoço reclamou um pouquinho pela posição que dormira. Sentiu as poucas coisas que tinha trago consigo. Seu objeto prateado, o pendrive e uma escultura pequena que faltava terminar.
Pensou no Mestre, e o que a havia ensinado. Tentou se esforçar mais, buscando outras memórias. A Academia havia sido o primeiro lugar que chamou de casa, que se sentiu protegida e que amou. E o Mestre era o mais próximo de um pai que ela já teve.
No horizonte, o sol já tinha começado a aparecer. Pouco a pouco sentia a luz esquentando na sua pele. Olhou para L4, ele parecia tão tranquilo, calmo. L3 lembrou daquele menino no beco, tremendo de frio, machucado e com medo. Sentiu uma vontade de abraçá-lo, de cuidá-lo. Não resistiu e o tocou de leve, acariciando a linha do seu maxilar e o pescoço. Sua pele era macia e lisa.
A luz batia contra seu rosto, clareando seu cabelo e o cavanhaque. Ele tinha um pequeno hematoma em cima da sobrancelha. L3 passou a mão de leve em seu cabelo raspado. Seu colar chamou a atenção, brilhando ainda mais com a luz do sol. Recuou a mão com cuidado, mesmo querendo tocá-lo mais.
Seu peito subia e descia ao decorrer da sua respiração. Ela queria ouvi-lo bater, era a prova que ele existia, que estava bem.
— Você está me encarando — disse L4, abrindo os olhos devagar.
A garota abriu um sorriso, sem conseguir afastar seu olhar. Seus olhos verdes ficaram ainda mais claros com a luz solar. O rapaz correspondeu o seu sorriso. Ele tocou de leve sua mão, entrelaçando seus dedos com os dela.
— Será que estou atrapalhando os pombinhos?
A voz veio do rapaz encostado no vão da porta. L3 tentou se lembrar do momento que a porta foi aberta, mas não havia prestado atenção. L4 com um sorriso, levantou limpando a poeira da calça jeans.
— Grande P50 — disse o Lutador — Dormiu bem?
O Programador tinha o cabelo desarrumado como sempre, caindo em seus olhos. Em um rápido movimento, ele pegou seus óculos e limpou devagar com a borda da camisa.
— Podemos dizer que sim, mas PI14 não é a melhor companhia que você quer ter na cama.
L3 se levantou. Por trás do ombro do rapaz, o Piloto andava na direção do banheiro. Ele parecia melhor que na noite anterior, mais vivo.
— Você sabe que ronca né? — disse PI14, fechando a porta do banheiro.
Na última cama as meninas dormiam tranquilamente. L3 sem querer acordá-las puxou o Programador pela camisa, na direção do corredor, fechando a porta atrás de si. Ela se certificou que o corredor estava vazio e devagar puxou do bolso o pen drive. Agora era possível ver o objeto melhor, ele também era prateado, quadrangular, não possuía uma entrada, era fechado de todos os lados. O objeto descansava no centro da sua palma. Com calma ela esticou na direção do rapaz.
— Poxa — disse P50, inclinando-se para olhar melhor — Eu nem te comprei nada.
L4 demonstrou um pequeno riso. Curioso, ele chegou mais perto. L3 ficou séria, fechando a mão em um rápido movimento.
— É do George — disse a menina — George Huff, ele me deu na tentativa de salvar sua vida.
P50, apressadamente, levou a mão no bolso e abriu sua tela. Parecia animado com o que poderia encontrar. Para a surpresa da menina, L4 não expressou nenhuma animação, apenas olhava para o chão, a testa franzida.
— E? — perguntou P50 — Funcionou?
— Não, ele morreu — disse, firme.
O Programador deu um sorriso e pegou o pen drive da sua mão. L4 continuava sem falar nada, seu maxilar trincado. Ele olhou para L3, parecendo magoado de alguma maneira.
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A Última Vida
Ciencia FicciónEm um mundo futurístico os países se destruíram em caos. A única maneira foi juntar todos os sobreviventes em um novo e único país, liderado agora por apenas uma pessoa, Imperatore. O que ninguém sabe é que esse líder foi o responsável por todos os...
