Capítulo 8 - Eu tenho medo do escuro.

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Permaneceu deitada, olhando para o teto. Não conseguia dormir. O fato de alguém ter entrado em seu quarto, estava tirando seu sono. Revirou de um lado para o outro. Sua mente não parava. Estendeu a mão e alcançou o pequeno relógio transparente ao lado da cama. Era duas da manhã. Olhou para porta, como se esperasse alguém entrar a qualquer momento. A porta cinza se destacava na branquitude de seu quarto. Parede, teto, banheiro, cama e até os móveis, eram brancos. Não tinha nenhum problema com isso, decorar o quarto era uma perda de tempo, provavelmente ela no passado, pensava o mesmo.

Fechou os olhos, uma, duas vezes, precisava dormir. Guardava o remédio no bolso da calça, talvez já fosse paranoia, mas M10 tinha dito que era o último, não podia se dar ao luxo de perdê-lo. A tentativa de roubar seu remédio estava mais do que claro.

Sabia que aqueles comprimidos foram feitos por cientistas, para agilizar sua memória. Se o roubasse, demoraria mais tempo. Ou seja, alguém não quer que eu me lembre. Talvez bem escondido em suas memórias ela já havia descoberto quem era. Precisava mais do que nunca, dormir, era sua única maneira de lembrar. Tinha tomado duas cápsulas e seu corpo estava mais quente que o normal. Ser nocauteada seria útil agora.

Desistiu de tentar e resolveu sair. Provavelmente não teria ninguém acordado agora, mas tinha a esperança de achar alguém. Queria conversar, algo que tirasse sua memória de ficar pensando em alguém entrando no seu quarto. Talvez pudesse acordar L4, ele provavelmente não se importaria. Mas mudou de ideia ao ver a luz de seu quarto apagada, não seria legal de sua parte. E afinal, ela não era criança.

Fechando a porta atrás de si, caminhou silenciosamente. Os dormitórios ficavam separados por um corredor horizontal. Deveria servir para separar os meninos das meninas, mas após o processo de Escolha ter sido interrompido, todos começaram a dormir do mesmo lado. Eram muitos quartos e por incrível que pareça um pouco antes do corredor, havia uma luz acesa.

A frestinha de luz vinda por baixo da porta a deixou um pouco nervosa, esperava com todas suas forças que não fosse o quarto de PI14. Bater na porta do Piloto seria um desastre, ou talvez uma diversão para a sua noite. Com sorte conseguiria ser nocauteada.

Bateu na porta devagarinho. Estava prestes a bater novamente com um pouco mais de força, quando escutou um murmúrio baixo e passos vindo na direção da porta. Um menino bem baixo, com o cabelo bagunçado e um óculos torto na cara, atendeu a porta.

— Que é? — disse o menino, com uma voz sonolenta. Seus olhos estavam estreitos, e parecia que acabara de acordar.

Na verdade, tinha certeza que havia acabado de acordar. Estava tão focada no fato da luz significando o sono, que não tinha pensando em alguém que poderia ter dormido com a luz acesa.

— Perdão P50. Eu vi a luz vinda debaixo da porta... Pensei que você estava acordado — respondeu L3, sentindo uma pontada de culpa.

— L3! Não...Tá tudo certo...Bom te ver novamente — disse P50 abrindo mais os olhos e notando pela primeira vez quem era. Ele abriu um sorriso tímido — Tenho que parar de falar isso, né? Não é como se a gente não se visse a anos.

L3 deu um sorriso amigável.

— O tempo passa devagar.

— Não aqui — respondeu P50 — Aqui, até os segundos contam.

L3 acenou com a cabeça, não sabendo exatamente o que significava. Ela olhou por cima do menino, observando o quarto. Ele tinha muitos computadores, aparentemente quebrados, e roupas espalhadas por todo o lugar. Era extremamente bagunçado. Achava impressionante algum ser humano poder viver dentro daquele quarto.

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