Despedidas

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Quem abriu a porta foi Klaus, que me saudou com um sorriso caloroso e uma empolgação contagiante. Meu irmão sempre foi assim, totalmente o oposto de mim. Ele era mais caloroso, receptivo e gentil, eram qualidades que ele se recusava a abandonar, mesmo com as duras repreensões do meu pai.

Hallo Klaus! – Cumprimentei.

Hallo Brünhild! Papai não acreditou que você vinha, mas eu tinha certeza – Klaus comunicou depois de um longo abraço. – Ele disse que era certo você estar atravessando o oceano agora mesmo com Torquato.

Meu pai estava em um canto da sala, o quarto deles no hotel lembrava mais um apartamento de luxo do que um simples quarto de hotel. Era um exagero digno de Albert Luxes.

Eu não fujo, eu deixo para trás o que me faz mal – alfinetei, meu pai queria me atingir, mas eu já tinha criado uma couraça imune a ele.

Bebe alguma coisa, Brünhild? – Meu pai me perguntou, não demonstrando nenhuma reação ao que eu disse.

Um Rosé, se possível – respondi cordialmente.

Meu pai fez um aceno para um mordomo, que eu não tinha visto até então, parado no canto mais distante da sala. Um silêncio desconfortável se instaurou entre nós, nem mesmo Klaus, com toda a sua leveza, parecia ter algo a dizer e quebrar o clima. O mordomo me serviu a taça com o vinho e eu me sentei no sofá, de frente para a enorme janela que deixava a vista um tapete de cidade. Esperei que um dos dois dissesse alguma coisa.

Brünhild, me conte, o que você tem feito esse tempo todo, eu senti tanto a sua falta – Klaus deu o pontapé inicial, seu interesse era genuíno, sendo assim, não achei ruim.

Eu fiz muitas coisas, Klaus, não saberia por onde começar, mas atualmente estou trabalhando na La Grand's Corporation – respondi.

Como secretária – meu pai escarneceu.

Eu tinha que começar de algum lugar – contestei.

Meu pai me encarou com seu olhar ferino, e eu o devolvi, não estava ali para ser rebaixada ao que quer que ele queria que eu fosse.

Mas – Klaus retomou, querendo a todo custo, manter o clima agradável – por onde você passou depois que saiu de casa?

Fui para a Suíça, fiz faculdade lá, – respondi, tentando soar o mais empolgado que eu conseguia – nas férias de verão eu sempre ia para um país diferente para conhecer e trabalhar em algo inusitado. Trabalhei como babá, hostess, assistente de empreiteiro, até como auxiliar de limpeza em uma agência de modelos.

Meu pai levantou de uma vez, virando o rubro liquido de seu conhaque em um gole só, deu alguns passos pela sala, me olhando por fim com todo o ódio que estava guardado em seu interior.

Você sabe o que eu e sua mãe passamos por não sabermos onde você estava? Sabe como é ano após ano contratar os melhores detetives para te encontrar e sempre acabar de mãos vazias? Você nunca teve um pingo de consideração por mim, por ela e nem mesmo pelo seu irmão, e agora fica aí sentada, contando feliz todas as "aventuras" que teve, apenas para provar que podia viver sem sua família. Era isso que você queria, Brünhild? Não ter família, não ter uma família que se importa com você e que quer o seu bem?

Respirei fundo, eu sabia que essa conversa não seria fácil, tentei adiá-la o máximo que eu podia, para quem sabe quando eu já estivesse me aposentando aos oitenta anos, mas parece que não fiz um bom trabalho.

Eu jamais – comecei, com a voz calma, mas a pressão no meu peito indicava que eu ia me alterar em algum momento – pensei em magoar, ofender, preocupar ou sequer romper completamente meus laços com vocês. Eu sei que não foi fácil para você, para nenhum de vocês, e acreditando você ou não, tampouco foi fácil para mim. Houve muitos momentos em que pensei em desistir, mas foi você quem me criou, desistir jamais resolve o problema, não era o que você nos falava? Então, eu levantei a cabeça e segui em frente, e não me arrependo de ter feito como fiz.

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