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Há vinte anos, Lúcifer, o anjo caído, envolveu-se com uma mortal. Dessa união nasceram os gêmeos Hope e Jake: ela, a primeira Tribida da história, fruto de três espécies; ele, o herdeiro do Céu, dotado de luz e força an...
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Capítulo 21
"Alguns dias começam em silêncio, outros já trazem presságios ocultos no ar... mas sempre há sinais para quem sabe observá-los."
A luz suave do sol atravessava as frestas da cortina do quarto onde Hope estava hospedada. A jovem resmungou palavras indistintas ao sentir o calor tocar seu rosto, abandonando lentamente os lençóis que ainda conservavam o calor da madrugada. Com passos preguiçosos, dirigiu-se ao banheiro, onde tomou um banho longo e silencioso. Cuidou da higiene pessoal com a meticulosidade de quem sabia que a tranquilidade podia ser breve.
Vestiu-se com sobriedade e estilo: uma calça jeans preta justa, botas pretas de salto baixo, uma blusa verde escura de tecido leve e, por fim, sua jaqueta de couro preta, inseparável companheira de estrada. Prendeu os cabelos em um coque firme no alto da cabeça, revelando o contorno definido de seu rosto e a frieza dos olhos atentos.
Já com sua mochila nos ombros, saiu do quarto e encontrou Dean, Sam e Bobby na cozinha, acomodados em volta da mesa e tomando café. Os três se viraram quando ela apareceu. Sorrisos sutis cruzaram seus rostos.
— Bom dia. — cumprimentou com leveza, parando junto à porta. — Dean, me empresta a chave do Impala só para eu guardar minhas coisas?
Com a boca cheia de panqueca, Dean apenas enfiou a mão no bolso e lançou as chaves no ar. Hope as pegou com um sorriso silencioso e seguiu até o carro, onde guardou sua mochila no porta-malas com cuidado. Dentro da casa, Sam e Bobby trocaram um olhar curioso. Dean apenas deu de ombros, voltando à sua refeição.
Quando retornou, Hope entregou a chave de volta a Dean, que, mais interessado em sua comida do que em qualquer outra coisa, apenas acenou com a cabeça. Ela riu e se juntou a eles.
— Como dormiu, Hope? — perguntou Bobby, lançando-lhe um olhar caloroso.
— Dormi maravilhosamente bem, Bobby. Obrigada. — respondeu, levando a caneca de café aos lábios.
As horas seguintes passaram depressa. Logo os três — Dean, Sam e Hope — estavam na estrada, o som clássico do rock preenchendo o interior do Impala. Enquanto Dean dirigia com atenção e ritmo, Hope aproveitava para responder mensagens de sua família. Algumas conversas triviais, outras carregadas de saudade.
Ao chegarem à pequena cidade onde os homicídios haviam ocorrido, foram direto ao motel. Por sorte, encontraram um quarto com três camas disponível. Após se instalarem, Hope não resistiu e se jogou sobre um dos colchões, apreciando a maciez inesperada.
— Quem chegar primeiro, toma banho primeiro! — gritou Dean, disparando rumo ao banheiro.
Hope se levantou num salto e correu, entrando no cômodo um segundo antes dele. Ao fechar a porta, lançou um sorriso provocativo ao vê-lo bufar do lado de fora, praguejando baixinho.
Após o banho, vestiu um short jeans, uma regata justa preta e sua inseparável jaqueta de couro. Com os cabelos ainda úmidos presos em um coque bagunçado, calçou suas botas e ajeitou a toalha sobre a cadeira. Em seguida, anunciou:
— Estou indo ao mercado comprar algumas coisas. Querem algo?
— Eu estou bem. — disse Sam, distraído.
— TRAZ UMA TORTA! E CERVEJAS! — gritou Dean de dentro do banheiro.
— QUAL SABOR? — perguntou ela, já pegando sua bolsa.
— AS CHAVES ESTÃO NA MINHA JAQUETA!
Ela pegou as chaves no casaco pendurado, desceu as escadas e saiu do motel. Caminhou até o Impala com tranquilidade e abriu o porta-malas para guardar sua carteira, quando sentiu um impacto súbito em suas costas. Seu corpo foi empurrado contra o carro.
Instintivamente, virou-se. O cheiro denso e metálico entregava antes mesmo da confirmação visual: um vampiro. Frio. Sujo. Indesejado.
— Victoria mandou um recado. — disse o ser, com um sorriso debochado nos lábios pálidos.
Hope revirou os olhos. Aquela criatura ainda a perseguia?
— Ela vai atrás do seu adorável titio e daquela namoradinha ridícula...
Hope não disse nada. Seus olhos, no entanto, falaram por ela — escurecendo e brilhando com uma aura sobrenatural. O vampiro recuou um passo, assustado. Ela sorriu e, com um movimento ágil, cravou os dentes no braço dele.
Ele gritou de dor, mas ela apenas aumentou a pressão, saboreando a sensação de poder.
— Diga à Victoria que ela pode fazer o que quiser com os dois... não me importo mais. Mas que me deixe em paz. — disse, cuspindo as últimas palavras com desprezo. — Ah, e avise que mandei ela ir se foder. Literalmente. E que corra... essa mordida? Não tem cura.
Com olhos arregalados, o vampiro fugiu em velocidade, desaparecendo nas sombras. Hope limpou a boca com o dorso da mão, suspirou e entrou no carro.
Minutos depois, retornava ao motel com sacolas nos braços. Assim que entrou no quarto, Dean correu até ela, vasculhando os pacotes.
— Por que trouxe quatro tortas?! — perguntou, espantado.
— Não sabia qual era sua preferida, então peguei todas. Tem uma de frango em alguma sacola aí. — disse casualmente, jogando-se na cadeira.
Sam pegou uma cerveja, abriu e tomou um gole. Hope separou os itens e começou a distribuir.
— Salada para o Sam. Hambúrgueres para o Dean. Um para mim. — explicou. — Sam não gosta muito de carne pesada, então fiz o equilíbrio. Dean ama hambúrguer, então trouxe dois.
— Você está com a gente há três dias e já sabe tudo isso? — perguntou Sam, surpreso.
— Sim. Já observei todos os gostos e manias de vocês. — respondeu ela, com naturalidade.
De fato, Hope era uma observadora nata. Dean era seu maior desafio — um mistério cheio de camadas, e cada gesto dele parecia uma peça de um quebra-cabeça que ela precisava montar. Já Sam... era diferente. Ele era um livro aberto. Seus olhos carregavam dores passadas, perdas, peso, angústia. Era impossível não perceber.
Dean, por sua vez, escondia tudo por trás de sarcasmo, música alta e piadas. Mas não para Hope. Ela já havia captado fragmentos em seus olhos — breves vislumbres de solidão e sofrimento.
Enquanto comiam, ela permanecia em silêncio, analisando os dois, com atenção clínica. Sam parecia pensativo, talvez suspeitando que Hope usara magia para saber tanto sobre eles. Mas não. Era apenas observadora. Extremamente observadora.
Assim que terminou sua refeição, Hope se levantou e lavou seu prato. Ao se virar, avisou:
— Quando terminarem, lavem e guardem os pratos. Vou sair e talvez demore um pouco.
— Onde vai? — perguntou Sam.
— Há um bar aqui perto. Quero buscar informações sobre o caso. Se precisarem, me liguem. — disse, vestindo novamente sua jaqueta.
— Tenha cuidado. Pode ser perigoso. — alertou Dean, com um olhar preocupado.
Ela sorriu, pegando a chave do quarto.
— Perigoso para eles. Não para mim. — respondeu com um piscar provocativo.
— Foi isso que eu quis dizer. — murmurou Dean, com um meio sorriso.
Hope riu e, sem olhar para trás, deixou o quarto e seguiu pela calçada em direção ao bar. O sol já se punha no horizonte, tingindo o céu com tons alaranjados e dando ao mundo aquela aparência de paz... que ela sabia que não duraria por muito tempo.