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Há vinte anos, Lúcifer, o anjo caído, envolveu-se com uma mortal. Dessa união nasceram os gêmeos Hope e Jake: ela, a primeira Tribida da história, fruto de três espécies; ele, o herdeiro do Céu, dotado de luz e força an...
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Capítulo — Herdeira do Inferno, Guardiã dos Céus
"Sinto o sol a escurecer, a lua a desaparecer. Os sonhos viram pesadelos, e as felicidades se tornam gotas de saudade vindas do mar da tristeza..."
SONHO ON
Hope Andrea Cullen despertou lentamente, os olhos semicerrados sendo atingidos pela luz do sol — estranhamente quente e vibrante. A primeira sensação foi de confusão. Nada ali lhe era familiar.
Ergueu-se devagar, sentindo a grama sob os dedos e o ar morno em sua pele. O silêncio do lugar era quase surreal. Onde estava? Como havia chegado ali? A última coisa de que se lembrava era de ter se deitado e adormecido profundamente — e, de alguma forma, acordara naquele vale desconhecido.
Seu instinto de loba, bruxa e vampira a fazia permanecer alerta. Os sentidos ampliados buscavam qualquer sinal de perigo, mas tudo ao redor era calma. Quase... celestial.
A ruiva caminhou com cautela por entre árvores altas até avistar, ao longe, uma cabana de madeira escura — feita de carvalho envelhecido, com detalhes rústicos que lhe davam um ar místico e abandonado. A madeira rangia sob seus pés enquanto ela empurrava a porta. O interior era inteiramente construído em tábuas de pinho, com móveis antigos cobertos de poeira, como se décadas tivessem passado sem que alguém ali habitasse.
Hope adentrou o espaço silenciosa, seus olhos analisando cada canto com cautela. O ambiente exalava mistério.
— Olá. — disse uma voz masculina atrás dela, fazendo-a girar sobre os calcanhares num sobressalto.
Era ele. A mesma voz que ouvira na floresta, há dias, quando sentira pela primeira vez aquela estranha conexão com o desconhecido.
Diante dela, erguia-se um homem de aparência impecável: vestia um sobretudo bege, os cabelos perfeitamente alinhados e os olhos azuis tão intensos quanto os dela. Havia um magnetismo sereno em sua presença.
— Quem é você? E onde estou? — questionou com firmeza, embora sem demonstrar emoção alguma.
— Sou Castiel. Um anjo do Senhor. O seu anjo da guarda. — declarou, com uma serenidade que parecia tocar a alma.
Hope arqueou uma sobrancelha, cética.
— Um anjo do Senhor? Tá... Claro que acredito. — disse em tom sarcástico.
Sem se abalar, Castiel recuou dois passos. No instante seguinte, uma luz branca intensa envolveu seu corpo e, por trás dele, duas asas se revelaram em forma de sombra — gigantescas e sagradas.
Hope ficou boquiaberta, recuando um passo.
— Uau... Você é mesmo um anjo.
— Sim. E estou com você desde o primeiro suspiro. Sei tudo sobre você, Hope. — respondeu com doçura, mas firmeza.
Ela hesitou, então perguntou com os olhos marejando de esperança:
— Então você sabe... quem são meus verdadeiros pais?
Castiel assentiu.
— Sei.
— Por favor... me diga. Eu preciso saber.
O anjo hesitou por um momento, ponderando. Mas, ao notar a dor contida nos olhos dela, assentiu novamente.
— Tudo bem. Mas o que vou te revelar mudará tudo o que acredita sobre si mesma. — disse, conduzindo-a para fora da cabana.
Sentaram-se em um banco rústico diante de uma floresta tão viva que parecia pulsar com energia divina.
— Seu verdadeiro nome é Hope Andrea Morningstar Carson. Você é filha de Alisson Carson, uma humana de alma pura... e de Lucifer, o anjo caído.
Hope engasgou com a própria respiração.
— Lucifer? Tipo... o arcanjo que caiu do céu?
— Sim. — respondeu Castiel, sem rodeios. — Lucifer veio à Terra e se apaixonou por Alisson. Ela engravidou de gêmeos: um menino e uma menina. Vocês.
Hope levou as mãos ao rosto, abalada.
— Então eu tenho um irmão?
— Sim. Jack. Ele é calmo, sereno, enxerga o bem em tudo e todos. O oposto de você, que vê o mundo com desconfiança e intensidade. Mas ainda assim, são ligados de forma inseparável.
Ela sorriu com ironia.
— Gêmeos sempre são o oposto. Ele sabe da minha existência?
— Sempre soube. Sempre desejou conhecê-la... mas teve medo.
Hope abaixou o olhar. Estava confusa, mas estranhamente em paz. Havia finalmente uma origem, uma verdade. Ela não era só uma aberração sobrenatural. Era a filha do Céu e do Inferno.
— E minha mãe? Como ela é? Está viva?
Castiel sorriu com suavidade.
— Alisson vive. Vocês se parecem muito. Temperamento forte, mas coração justo. Porém, por segurança, ela vive afastada de Jack. Lucifer não permitia proximidade.
Hope sentiu o coração aquecer. Era a primeira vez que se sentia parte de algo real. Uma mãe. Um irmão. Raízes.
— Então... quem é Lilith? Quando Rosalie me encontrou, havia uma carta assinada por ela.
— Lilith foi quem te roubou, ainda recém-nascida, no terceiro dia de vida. Ela sabia que, unidos, você e Jack seriam poderosos demais. Por isso, separou vocês.
— E Lucifer?
— Ele a encontrou, torturou-a em busca de informações, mas Lilith não cedeu. Lucifer então a aprisionou em uma tumba. Porém, anos depois, dragões a libertaram. E Lilith foi finalmente morta por Sam Winchester, que — sem saber — abriu o último selo do Inferno ao matá-la. Com isso, Lucifer foi libertado.
Hope franziu o cenho.
— Então... Sam era idiota ou suicida?
— Ele não sabia o que estava fazendo. Foi manipulado por forças que nem ele compreendia.
— E depois disso...?
— Lucifer te procurou. Mas quando perdeu as esperanças de te encontrar, mergulhou novamente nas trevas. Miguel acreditava que você e Jack poderiam ser a redenção dele. Estava errado.
— O que querem de mim agora?
Castiel a fitou com intensidade.
— Precisamos de você. Só você pode derrotar Lucifer... ou ao menos enfrentá-lo. Assumir o trono do Inferno. Redefinir o equilíbrio entre luz e sombras.
Hope sentiu o peso das palavras em seu peito.
— Eu não sei... preciso pensar.
— Pense. Mas rápido. O mundo depende da sua decisão.
Ela respirou fundo e disse com um sorriso torto:
— Parece que, mais uma vez, o mundo está nas mãos de uma adolescente instável.
Castiel a olhou com uma expressão reprovadora.
— Ah, Cass... precisamos levar a vida com mais leveza. Até mesmo a rainha do Inferno merece rir de vez em quando.
Ele não respondeu, mas seus olhos suavizaram.
— Está na hora de você voltar. — avisou o anjo. — Falarei contigo novamente... através dos sonhos.
Hope assentiu, já sentindo o mundo ao seu redor escurecer.