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Há vinte anos, Lúcifer, o anjo caído, envolveu-se com uma mortal. Dessa união nasceram os gêmeos Hope e Jake: ela, a primeira Tribida da história, fruto de três espécies; ele, o herdeiro do Céu, dotado de luz e força an...
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Capítulo 47 – Heranças Malditas
"Alguns laços de sangue não unem — condenam."
O silêncio que se seguiu à morte de Cloé era denso, quase opressor. O corpo da vampira jazia no chão, imóvel, os olhos vítreos encarando o nada, enquanto o resquício de magia antiga ainda vibrava no ar como um eco persistente, impregnando o ambiente com um peso quase sufocante. As sombras do salão pareciam mais longas, mais espessas, como se reagissem à presença que agora se impunha ali.
Hope permanecia de pé, absolutamente imóvel. Sua postura era rígida, controlada ao extremo, mas por trás daquela aparência impassível, sua mente trabalhava com rapidez, analisando cada detalhe do homem que agora ocupava o espaço onde antes existia apenas desprezo. A energia dele não era desconhecida — apenas esquecida à força.
Dean foi o primeiro a se mover. Deu meio passo à frente, instintivamente colocando-se entre Hope e o recém-chegado, o corpo rígido, alerta, os músculos tensionados para um ataque que ele sabia, no fundo, talvez não pudesse vencer. Ainda assim, o instinto de proteção falava mais alto que qualquer cálculo racional.
— Tio favorito? — Hope repetiu, a voz baixa, controlada demais para ser natural. — Eu não lembro de ter um.
Malachai Carson sorriu. Um sorriso lento, carregado de ironia e prazer, como se aquele momento tivesse sido aguardado por séculos, cuidadosamente ensaiado em sua mente.
— É claro que não lembra. — respondeu, com desdém. — Histórias inconvenientes tendem a ser apagadas. Especialmente quando envolvem traições, pactos quebrados... e família.
Hope inclinou levemente a cabeça, analisando-o com frieza clínica. Havia algo nele que lhe era desconfortavelmente familiar — não apenas o poder latente que vibrava sob a superfície, mas a arrogância antiga, a certeza absoluta de pertencimento a algo maior. Algo que ela reconhecia, ainda que se recusasse a aceitar.
— Você entrou na minha lista de problemas sem sequer se apresentar direito. — disse ela. — Então seja educado e explique por que eu ainda não te matei.
Malachai riu baixo, um som curto, quase satisfeito.
— O que você que? — perguntou, seu semblante era sereno, quase perigosamente calmo.
O sorriso dele se ampliou, satisfeito com a pergunta. Malachai caminhou alguns passos pelo salão, ignorando deliberadamente o corpo de Cloé no chão, como se aquilo fosse apenas um detalhe irrelevante, um erro já corrigido. Passou os dedos pela superfície de uma mesa antiga, absorvendo o ambiente com familiaridade excessiva, como alguém que retorna a um lugar que nunca deixou de considerar seu.
— Eu quero exatamente o que sempre quis. — respondeu, por fim, virando-se lentamente para encará-la. — Verdade.
— Verdade sobre o quê? — perguntou. — Sobre Lilith? Sobre meu pai? Ou sobre o Conselho dos Velhos que está tão desesperado para me caçar?
O semblante de Malachai perdeu parte do tom debochado. Não muito — apenas o suficiente para denunciar que Hope havia tocado em algo sensível, algo que ele preferiria manter sob controle.
— Sobre você. — disse. — Sobre o que realmente significa ser uma Carson Morningstar.
Hope respirou fundo, lentamente, sentindo a pressão se acumular em seu peito, mas sem permitir que isso transparecesse.
— Então você me usou para limpar o tabuleiro.
— Não. — corrigiu Malachai. — Eu apenas permiti que você fosse quem sempre foi. Somos mais parecidos do que você imagina, bonequinha. Incompreendidos pela sociedade, e apagados pelos nossos irmãos.
— Direto ao ponto Malachai. — disse.
— Todos que você matou, foram apenas peças. — respondeu ele, indiferente. — Algumas mais úteis que outras. Cloé sempre foi previsível. O ódio torna qualquer criatura estúpida.
— Para o que exatamente? Você poderia ter mandado um convite. — retrucou ela. — Evitaria uma carnificina.
— Discordo. — respondeu ele. — Eu precisava vê-la agir. Precisava ter certeza de que você realmente era tudo aquilo que dizem.
Hope deu um passo à frente. O ar ao redor dela pareceu reagir instantaneamente. Os olhos de Tríbida surgiram lentamente, o amarelo sombrio rompendo a escuridão, contrastando com as veias escuras sob a pele pálida. A presença dela tornou-se esmagadora.
O ar pareceu vibrar, quase estalar, como se a própria realidade sentisse o peso daquela comparação.
— Não compare comigo. — disse Hope, cada palavra carregada de ameaça crua.
— Ah, mas eu vou. — respondeu Malachai. — Porque você é o legado dele. Querendo ou não.
Dean finalmente falou, a paciência no limite, o olhar firme.
— Já terminou o discurso? Porque se for só isso, eu realmente prefiro ir embora inteiro hoje. — Dean perguntou. — E o Conselho?
Malachai respirou fundo antes de responder, o olhar distante por um breve instante.
— O Conselho serve apenas para atrapalhar planos, mas com uma boa ameaça eles ficam inofensivos. Eu gostava do Lucifer, mas o meu amor pela minha irmã sempre foi maior, você Hope é minha sobrinha, e por sermos tão parecidos é meu dever te aconselhar sobre tudo isso, eu sei como é se perder, sei também o que é escutar a vida inteira que você é uma aberração da natureza, que não deveria existir.
Ele suspirou, voltando o olhar para um quadro antigo na parede. Hope permaneceu em silêncio, atenta.
— E sei o que é perder alguém que amamos, eu perdi minha esposa, ela morreu tentando me salvar, e foi aí que eu me perdi por completo, assim como você.
Foi naquele instante que Hope percebeu que não era a única da família a carregar fraturas profundas demais para serem vistas à primeira vista.
— Mas Hope, quem me salvou foi a família, eles me salvaram daquilo que eu não conseguia sair sozinho. Você tem pessoas que te amam, e que estão lutando para te tirar dessa escuridão. — falou, encarando Dean.
— O que você realmente quer chegar com esse discurso péssimo, Malachai?
— Vim te levar para casa.
E foi ali que tudo se apagou para Hope. O mundo perdeu forma e som, e ela caiu desacordada nos braços de Dean.
— O QUE VOCÊ FEZ? — gritou Dean, em pânico.
— Calma, caçador, é uma magia antiga da família, minha mãe me ensinou. Apenas alguém da família pode usar, e ela só atinge pessoas da família. É um feitiço do sono. Vai ser assim que vamos conseguir trazer a humanidade dela de volta. — respondeu.
— E o Conselho, quem vai enfrentá-los?
— A própria Hope, só que antes precisamos levá-la para A Casa.
E assim eles seguiram. Dean, ainda desconfiado, sabia que aquele estranho era sua última tentativa de trazer sua Hope de volta.
LOCALIZAÇÃO DESCONHECIDA.
A música era alta, pulsante. Hope despertou confusa, a cabeça latejando, os sentidos desorientados.
— Anda, Kai, apareça. Cadê você? — chamou, enquanto olhava ao redor. — Isso claramente parece loucura. Talvez eu esteja endoidando.
— Está tudo bem, Hope. Tudo o que pode ser perdido também pode ser encontrado. — disse Rosalie, sorrindo.
— É bom você torcer por isso porque está prestes a perder os dentes.