Capítulo 28

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Capítulo 28 – O Silêncio que Deixaram em Mim

"Às vezes, sobreviver significa aprender a ir embora antes que o abandono venha. E, mesmo partindo, há dores que insistem em ficar."

Sair de Forks havia sido um alívio. Um suspiro preso na garganta que, por fim, encontrou liberdade. Ainda assim, o peso de partir sem um verdadeiro adeus, ou sequer um aceno sincero, esmagava o peito de Hope com mais força do que ela gostaria de admitir.

Ela sabia. Sabia que o maior problema era ser ela mesma. Carregava o sangue de um dos seres mais perigosos que já caminharam pela Terra. Era uma bomba-relógio prestes a explodir. Uma ameaça ambulante para qualquer um que ousasse se aproximar. Ela entendia o medo. Compreendia a hesitação.

Mas não vinha de estranhos o que mais doía. Era dos seus pais. Aqueles que um dia juraram amor eterno. Aqueles a quem ela amava acima de qualquer coisa. Aqueles por quem teria morrido sem hesitar.

A dor que sentia não era do abandono dos outros. Era da traição silenciosa de quem a criou.

E, apesar disso — ou talvez por causa disso —, Hope encontrou abrigo onde jamais imaginou que existiria: nos braços de quem veio de um mundo completamente oposto ao seu. Em meio a caçadores, armas e aço, conheceu algo que jamais vira com os olhos imortais dos Cullens: humanidade. Afeto genuíno. Lealdade silenciosa.

Nos Winchester, encontrou aquilo que a eternidade havia lhe negado. Com eles, descobriu uma versão de si mesma que jamais imaginou existir. Uma mulher forte, vulnerável, real. Amada.

Dean dormia ao seu lado no banco do carona. O rosto relaxado, as mãos sobre o colo. Seu sono era um paradoxo: pesado como chumbo, mas tão leve que qualquer toque parecia capaz de acordá-lo. Hope sorria discretamente ao observá-lo. Ele não fazia ideia do quanto sua presença era o que a mantinha em equilíbrio.

O carro cortava a estrada silenciosa rumo ao Bunker, o antigo quartel dos Homens das Letras que os irmãos encontraram numa das tantas caçadas. A mesma fortaleza que agora chamavam de lar.

Desde a destruição da casa de Bobby pelos demônios que a procuravam, haviam se estabelecido ali. Hope pediu a Castiel que trouxesse seus pertences de Forks, e montou seu quarto com cuidado. Era simples, mas carregado de significado. Pela primeira vez, ela havia criado um espaço que era apenas seu.

Dean, em contrapartida, havia montado seu quarto com entusiasmo quase infantil. Tapetes com símbolos de rock clássico, paredes decoradas com pôsteres antigos, estantes de armas reluzentes. O sorriso que ele deu ao ver tudo aquilo pronto foi algo que Hope jamais esqueceria. Fotografou o momento em segredo, apenas para guardar aquela felicidade em algum lugar onde ninguém pudesse tirá-la.

E ela adorava vê-lo feliz. A forma como seus olhos brilhavam. Como sua risada aquecia o ambiente. Aquilo preenchia lacunas dentro dela que nem sabia que existiam.

Castiel, por outro lado, estava distante. Esperava-se mais do anjo que a ajudara a sobreviver. Ele era presença, força e proteção. Mas nos últimos meses, havia se tornado apenas silêncio. Esperava que houvesse motivo. Mas não deixava de se ferir com a ausência.

Hope estacionou o carro na garagem subterrânea do Bunker. Com um toque delicado no braço de Dean, despertou-o, evitando qualquer movimento brusco que pudesse ser mal interpretado. Ele abriu os olhos devagar, confuso, mas sorriu quando a viu.

— Chegamos. — ela disse, com suavidade.

Ele saiu do carro. Antes que ela pudesse abrir o porta-malas, Dean já carregava suas malas. Ela o observou em silêncio, sorrindo, e o seguiu pelos corredores frios até seu quarto.

O banho foi demorado. A água quente escorria sobre seu corpo como se tentasse limpar, em vão, as memórias que insistiam em permanecer. Pensava em tudo que perdera. Em tudo que ganhara. E, apesar das cicatrizes, sentia-se grata.

Se não tivesse se transformado, jamais teria conhecido Dean. Nem Sam. Nem Bobby. Nem Castiel. Nem teria reencontrado Nikolas.

E mesmo odiando o que era, sentia que, talvez, tudo tivesse acontecido por um motivo.

Vestiu uma calça jeans preta, coturnos e uma regata vinho. Ao descer para a sala de reuniões, encontrou Sam, Castiel e Bobby em silêncio tenso. O anjo estava visivelmente inquieto, as asas invisíveis parecendo pesar sobre seus ombros.

— Como vamos contar a ela? — Castiel murmurou, nervoso.

— Me contar o quê? — a voz de Hope cortou o ar, firme, mas curiosa.

Antes que alguém respondesse, Dean apareceu no topo da escada, coçando os cabelos e franzindo o cenho.

— Eles não sabem como te contar, seja lá o que for. — disse ele, descendo os degraus, sem tirar os olhos de Castiel.

— Vai, desembucha. — ordenou, enquanto servia uísque e entregava um copo à Hope, que o aceitou sem questionar.

Castiel hesitou, aproximando-se com cautela.

— Hope... sente-se, por favor.

Ela o encarou com desconfiança. Mas obedeceu.

— Anda logo, Castiel. — disse ela, com o tom impaciente. — Fala de uma vez.

— Jack... seu irmão... quer te conhecer. — a frase saiu apressada, como se doesse dizê-la.

O impacto daquelas palavras bateu nela como uma parede. Hope perdeu o ar. Tudo à sua volta girava. Calor subiu por seu corpo. A garganta apertou. Os dedos tremiam. Sentia que o mundo estava desabando novamente, exatamente como tantas vezes antes.

Dean aproximou-se rápido, ajoelhando-se ao lado dela, chamando-a de volta, mas sua voz parecia vir de muito longe. Ele segurou sua mão com força, a âncora que a trouxe de volta.

Ela o encarou, os olhos marejados. Mordeu o lábio inferior com tanta força que o gosto metálico do sangue preencheu sua boca.

— E tem mais... — disse Sam, hesitante. — Ele está aqui...

— ...junto com sua mãe biológica. — completou Bobby, sem rodeios.

Sam e Castiel o fuzilaram com os olhos.

— Ah, por favor. É melhor dizer logo do que deixar a menina quebrar em pedaços aos poucos. — resmungou Bobby, erguendo as mãos em rendição.

Hope olhou para Dean. O coração batia como um tambor descontrolado. Ele compreendeu. Sempre compreendia.

Levantou-se e estendeu a mão para ela.

— Vamos dar um tempo pra ela. — disse ele, com firmeza.

Ela segurou sua mão como se fosse a última coisa que a mantinha viva. E saíram.

O caminho até a cidade era silencioso. Hope mantinha o rosto virado para a janela, observando as paisagens passarem como sombras. Mas o nó em seu peito permanecia.

— Vai me dizer como está se sentindo ou prefere silêncio? — perguntou Dean, sem tirar os olhos da estrada.

— Nem eu sei como estou me sentindo. — respondeu ela, em tom abafado. — Acho que estou com medo. Raiva. Ansiedade. Tudo junto.

— Medo do quê?

Ela hesitou.

— De me decepcionar... de novo. — confessou. — De conhecer meu irmão e... ele não ser o que espero. Ou pior: ser tudo o que espero, e me fazer amar alguém que eu posso perder de novo.

Dean assentiu, respeitando o silêncio que veio em seguida.

Ela respirou fundo. E mesmo que não tivesse certeza de nada, havia algo dentro dela que dizia: agora é diferente.

Porque dessa vez, ela não estava sozinha.

O Pesadelo dos VoltursHistórias para pegar e não largar. Descubra agora