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Há vinte anos, Lúcifer, o anjo caído, envolveu-se com uma mortal. Dessa união nasceram os gêmeos Hope e Jake: ela, a primeira Tribida da história, fruto de três espécies; ele, o herdeiro do Céu, dotado de luz e força an...
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Capítulo — Vozes que o Tempo Não Apaga
Dizem que os verdadeiros amigos não precisam estar presentes todos os dias. Que mesmo separados por tempo ou distância, ao se reencontrarem, o afeto permanece inalterado, como se o último abraço tivesse acontecido ontem. A amizade entre Hope Cullen e Nikolas Carson era exatamente assim — imune às estações e aos silêncios.
Os Cullen haviam notado. Bastava observá-los por alguns segundos juntos para perceber a linguagem muda que compartilhavam. O modo como ele a olhava nos momentos em que ela sorria sem perceber, ou a maneira como ela se acalmava ao simples toque da mão dele em sua nuca. Era uma conexão que desafiava explicações — intensa, inata e ancestral.
Horas depois, os dois seguiam em direção à reserva, cruzando a estrada coberta por névoa. Nikolas cantarolava músicas antigas do rádio, alternando entre os versos e olhares furtivos para a ruiva ao volante. Hope sorria discretamente, fingindo não notar.
Ao estacionarem diante da cabana onde ela estava hospedada, Hope sentiu um arrepio percorrer sua espinha. Desceu do carro com a respiração presa no peito, enquanto Nikolas caminhava ao seu lado.
A porta já estava entreaberta. No interior, sentados em um semicírculo, estavam Billy Black, Cristal, Jacob, e, diante deles, Castiel acompanhado por dois homens desconhecidos.
Hope os avaliou com cautela. O primeiro, alto e de feições serenas, tinha cabelos longos castanhos e olhos igualmente escuros, mas intensos. O outro era loiro, mais baixo, com olhos verdes que exalavam arrogância e charme em igual medida. Havia algo em sua postura — uma confiança moldada pela dor e pela experiência. Quando o olhar dele encontrou o de Hope, foi como se o ar se tornasse pesado. A conexão foi instantânea, ainda que nenhum dos dois compreendesse, naquele momento, a profundidade daquele elo silencioso.
— Castiel, meu velho amigo. — disse Nikolas, quebrando a tensão.
— Nikolas. Hope. — respondeu o anjo, levantando-se e abraçando a ruiva, que lhe sorriu com carinho. — Quero apresentá-los: Dean e Sam Winchester.
— Prazer, rapazes. Sou Hope. — disse, estendendo a mão. Os dois irmãos retribuíram o cumprimento, mas foi ao tocar a mão de Dean que um leve choque percorreu o corpo da híbrida. Ele também notou.
Disfarçaram. Mas a sensação permaneceu.
— Eu sou Sam. — disse o mais alto, sorrindo. — Castiel nos falou que você vai se juntar a nós em algumas caçadas.
— Isso mesmo. — respondeu ela. — Vai ser uma honra.
— Tem certeza, pirralha? — provocou Dean, cruzando os braços. — Você não parece ter idade pra isso.
Hope ergueu o olhar para Castiel, que apenas assentiu com um leve movimento de cabeça. Era seguro contar.
— Eu sou uma bruxa. Parei de envelhecer aos quinze anos. Tenho... vinte e um, mais ou menos. Parei de contar já faz um tempo. — disse com simplicidade.
O silêncio que se seguiu foi interrompido apenas por Nikolas e Castiel, que já sabiam daquilo.
— Ok... então ainda é uma pirralha. — disse Dean, divertido. Hope apenas revirou os olhos, entediada.
— Quantos dias você precisa? — questionou Sam, direto. — Para resolver o que tem pra resolver antes de partirmos?
— Uma semana. Vai ser suficiente. — respondeu Hope, firme. — E vocês? Onde pretendem ficar?
— Motel, como sempre. — respondeu Dean, dando de ombros.
— Podem ficar aqui. Né, tio Billy? — perguntou Hope, já virando o rosto para o homem, que sorriu.
— Claro, querida. A casa é grande. Vocês podem dormir aqui na sala, se não se incomodarem. — disse, com gentileza.
— Obrigado, senhor Black. — respondeu Sam.
— Só Billy, por favor. — corrigiu ele. — Hope, já está na hora de dormir. Amanhã você tem treino cedo... e depois, escola.
— Viu só? — provocou Dean. — A pirralha ainda estuda.
— Desculpa pelo meu irmão. — riu Sam.
— Sem problemas. Eu lido com o Nikolas há anos, nada me abala. — disse Hope, piscando para o melhor amigo.
— Verdade. — confirmou Nikolas, gargalhando.
— Boa noite pra vocês. — disse Hope, caminhando em direção ao quarto.
— Boa noite, Hope. — disse Sam.
— Boa noite, pirralha. — Dean sorriu.
— Vá se ferrar, Dean Winchester. — gritou ela, antes de desaparecer pelo corredor.
A manhã seguinte nasceu gelada, cortando a pele como agulhas. No campo aberto da reserva, Sam observava Hope tentar controlar sua transformação. A ruiva estava exausta. Os olhos carregados de frustração.
— Sam, não dá. Estou tentando há dias. Não consigo! — disse, caindo sentada sobre o gramado gelado.
— Você consegue, Hope. Precisa confiar em si mesma. — disse o lobo
— Fácil pra você dizer. Você já faz isso a anos. — ela bufou, erguendo-se.
— Vai com calma com ela, Sam. — disse Emily, surgindo na varanda com uma xícara quente. — Ela está processando muita coisa.
Hope agradeceu a mulher com um beijo na bochecha e caminhou de volta à casa. Sam ficou para trás, coçando a nuca, pensativo.
Dentro da casa, encontrou o próprio Sam no sofá, desta vez com um notebook sobre o colo.
— Procurando casos? — perguntou, tirando a jaqueta.
— Sempre. — respondeu ele, sem desviar o olhar da tela. — Essa cidade é um ímã de problemas.
— Bem-vindo a Forks. — murmurou ela, inclinando-se para observar a tela. — Qualquer coisa, me chama. Posso dar uma ajudinha mágica.
Ela selou um beijo suave na bochecha dele e seguiu para o quarto. Jacob ainda dormia, o rosto relaxado. Hope acariciou-lhe os cabelos e entrou no banheiro.
Mais tarde, já na escola, ela estava na aula de história com Jasper.
— Não consigo me transformar, Jas. Não sei o que tem de errado comigo. — disse, em voz baixa.
— Ei, olha pra mim. — pediu ele. — Você é Hope Cullen. A garota que enfrentou os Volturi de frente. Isso é só mais um obstáculo. E você vai vencer.
Hope esboçou um sorriso, mas foi interrompida pela voz do professor.
— Senhores Cullen, estão nos presenteando com uma conversa interessante?
— Desculpe, professor. — respondeu Jasper, educadamente.
— Tecnicamente estamos. — retrucou Hope, com um sorriso debochado.
— Detenção. De novo. — anunciou ele, já habituado com a provocação.
— Pelo menos estou livre da aula. — disse ela, pegando sua mochila e saindo da sala, com os saltos das botas ecoando pelo corredor.
E lá se ia Hope Cullen — híbrida, feiticeira, loba e, ainda assim, uma garota tentando não deixar o peso do mundo quebrar sua essência.