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Há vinte anos, Lúcifer, o anjo caído, envolveu-se com uma mortal. Dessa união nasceram os gêmeos Hope e Jake: ela, a primeira Tribida da história, fruto de três espécies; ele, o herdeiro do Céu, dotado de luz e força an...
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CAPÍTULO 43 — A MESA E O PECADO
"Algumas verdades não curam — elas dilaceram. Mas há quem insista em tocá-las, mesmo com as mãos em carne viva."
Hope não sabia dizer quanto tempo havia passado desde que se sentara naquele banco de praça. O céu já escurecia em tons púrpura, e as luzes dos postes começavam a acender uma a uma, banhando o chão em sombras tímidas. Crianças corriam despreocupadas, riam alto, alheias ao fato de que o mundo em que viviam era corroído por monstros que vestiam pele humana... ou não.
A ruiva mantinha o olhar fixo na cena, os lábios entreabertos, mas o rosto impassível. Ainda assim, havia algo ali que incomodava. Um eco... Um sussurro abafado em seu interior.
Ela não deveria sentir nada. Desde que desligara a humanidade, desde que mataram Nikolas — ou o deixara morrer, não sabia mais distinguir — o peso da culpa desaparecera. Ela se permitira o vazio. E, ainda assim, pensar em Dean... era como ouvir uma canção que não queria lembrar, mas que voltava, insistente, sempre que o silêncio se prolongava demais.
Hope fechou o grimório com um estalo seco, como se quisesse sufocar o rugido das revelações que ainda ecoavam em sua mente. As mãos tremiam levemente. Pela primeira vez, desde que desligara sua humanidade, seu corpo reagia sem que ela permitisse. Não era medo. Era um colapso silencioso, uma rachadura naquela couraça fria que ela lutava para manter intacta.
Ela se levantou do banco da praça, os olhos ainda fixos nas crianças que corriam entre risos e inocência. Uma delas tropeçou, caiu, e começou a chorar. Uma mulher — a mãe — veio correndo, ajoelhou-se e a acolheu num abraço forte e carinhoso. Hope desviou o olhar.
Família.
Essa palavra estava começando a ter peso demais para alguém que fingia não sentir nada.
A noite havia caído de forma lenta e solene sobre a cidade. Os postes acesos lançavam feixes amarelados sobre o asfalto úmido, refletindo brilhos distorcidos, como memórias embaralhadas de um passado que Hope não conseguia mais acessar. Ela caminhava em silêncio pelas ruas calmas, os passos leves, quase etéreos, como se não pertencesse inteiramente àquele plano — e talvez não pertencesse mesmo. Não mais.
O grimório pesado pesava sob o braço como um lembrete palpável de tudo o que descobrira. A linhagem Carson não era apenas antiga. Era sagrada, maldita e transcendental. Uma convergência de luz, sombra, carne e Graça. E agora, tudo aquilo corria em suas veias. O sangue de Katrina. A centelha de humanidade que Deus tentou esconder. O pecado do amor entre arcanjos e mortais. O toque de Lúcifer. A alma de uma linhagem que não devia existir.
E, ainda assim, ali estava ela.
Hope deteve-se por um instante na porta do velho motel onde ela e Dean haviam se hospedado nos últimos dias. Seu olhar subiu vagarosamente pela madeira lascada, reconhecendo a pintura desbotada e as trincas nas janelas. Algo a puxava de volta. Um instinto primitivo, quase humano... quase.
Ela girou a maçaneta.
Ao abrir a porta, foi surpreendida por uma cena que seu lado racional julgaria banal, mas que, mesmo com a humanidade desligada, fez algo se contrair no peito.
O quarto estava levemente iluminado por velas. A luz morna dançava sobre a madeira envelhecida, projetando sombras suaves nas paredes. Sobre a mesa ao centro, havia um jantar improvisado — massas, vinho, duas taças... e um Dean Winchester visivelmente nervoso, debruçado sobre o balcão, esperando.
Ele ergueu os olhos e sorriu ao vê-la.
— Você voltou. — A voz saiu baixa, contida. Um misto de alívio e receio.
Hope apenas assentiu, entrando em silêncio. Seus olhos correram o ambiente, captando cada detalhe com atenção meticulosa.
— Porque você é o único que não tenta me matar. — ela rebateu. — Pelo menos, não ainda.
Dean havia preparado tudo. A comida, a música suave no rádio antigo, o ambiente. Mas o que mais chamou sua atenção foi a expressão dele — não a expressão de um caçador endurecido, mas de um homem apaixonado, tentando, desesperadamente, trazer alguém de volta da escuridão.
— Achei que... talvez isso te lembrasse do que éramos — disse ele, gesticulando para a mesa. — Ou... do que poderíamos ter sido.
Hope permaneceu imóvel por um momento. Depois, caminhou até a cadeira, sentando-se lentamente. Não disse nada. Apenas observou.
— Você leu, não é? — Dean perguntou, puxando sua própria cadeira. — Sobre sua linhagem... sobre o que eles são. O que você é.
Ela ergueu os olhos, fixando-o.
— Eu sou a união do que não deveria existir — respondeu, com frieza cirúrgica. — Filha de uma bruxa tocada pelo Fogo, neta de uma arcanja esquecida, irmã de um sifão de dor... e filha de Lúcifer.
Dean engoliu em seco. Mesmo para alguém que já enfrentara o próprio Inferno, aquelas palavras tinham peso.
— Mas ainda é você — ele insistiu. — A garota que salvou uma criança em um incêndio quando tinha treze anos. A que chorava escondido por não conseguir controlar os próprios dons. A que me fez querer acreditar de novo.
Hope encarou a taça de vinho diante de si, os dedos deslizando pelo vidro com lentidão. Não bebia. Não precisava. Mas havia algo simbólico ali. Algo que evocava o tempo em que ela ainda sentia.
— Eu vi crianças hoje, Dean — disse ela, num sussurro. — Correndo numa praça. Rindo. Eu não senti nada. Mas pensei... pensei que talvez... um dia... eu quisesse isso. Família. Filhos. Você.
Dean não respondeu de imediato. Apenas observava cada nuance dela — os olhos frios, mas carregados de dor inconsciente. O modo como ela desviava o olhar sempre que mencionava qualquer traço de esperança. Ela estava presa naquele limiar. Entre o que foi... e o que poderia voltar a ser.
— Você ainda pode ter tudo isso, Hope — disse ele, com firmeza. — Mas precisa se permitir. Precisa lutar. Ou vai acabar como os outros... vazia. Perdida. Sozinha.
Ela sorriu de forma tênue, cínica.
— Não se luta contra o que se é, Dean. E eu sou Morningstar. Carson. Maldição e Graça condensadas num corpo que nunca deveria ter nascido.
Um silêncio cortante pairou no ar. As velas tremularam. A música parou.
Dean se aproximou, sentando-se ao lado dela. Colocou a mão sobre a dela — e embora o toque não despertasse lágrimas ou emoção, despertava memória. Ela lembrava. Lembrava da sensação de segurança, do calor de um amor humano. E lembrar... já era o primeiro passo para sentir.
— Eu não vou desistir de você — disse ele, com firmeza. — Mesmo que tenha desistido de si mesma.
Hope nada respondeu. Apenas se deixou ficar ali, ao lado dele. Pela primeira vez em semanas, não fugiu do toque. Não se afastou da lembrança.
Ela havia conhecido sua linhagem. Sua origem. Seu inferno pessoal. Mas talvez... talvez ainda houvesse algo a ser salvo.
E, naquela noite, enquanto as velas ardiam baixinho... ela permitiu-se lembrar.