— Fiquei sabendo que você tinha saído, mas não te vi... você tá lindo, forte. — Minha avó desceu as mãos pelos ombros dele.
Ele vestiu uma camisa pra entrar aqui — sinal de respeito. Usava uma baita aliança dourada. Seu pescoço tinha uma tatto, e uma corrente fininha, o dourado destacando. Também achei estilosa a argolinha em sua orelha.
Tinha cara de tralha, daqueles que não se importam com ninguém.
Acho que eu estava reparando muito.
De repente, ele sorri pra minha avó.
Me obrigo a sair de perto, já que ele não se importou em me cumprimentar. Quero distância dele, de sua marra e de seus rolos.
— Tô ai de novo, dona Betina — ele diz.
Meu pai continua na porta, braços cruzados. Tem dois homens feiosos com armas feiosas na nossa entrada.
Estou meio... sei la.
Odeio armas!
— Meus sentimentos pelo seu Natanael, eu me amarrava nele... Dei o papo no teu filho, mas vou dar na senhora também: se precisar de qualquer fortalecimento, nós tá ai pra isso. Morador em primeiro lugar. Tô há pouco na pista, me inteirando ainda dos problemas, mas o ritmo continua o mesmo. Espero que tenha sido assim na minha ausência também.
Fico de costas, ouvindo ele dizer num tom firme.
— Foi sim, foi. Sou muito agradecida. Aqueles dois rapazes, o japonês e o outro... — vovó tenta lembrar.
— O Fernando? — ele a ajuda .
— É, eles estiveram aqui, se prontificaram. Mas tô levando, tô levando... esse é meu filho, nasceu e foi criado aqui, mas quando vocês chegaram ele já não morava mais com a gente. Depois da morte do pai veio me ajudar com o mercadinho. Trouxe minha neta junto. Cumprimenta o moço, Talia.
Girei, morta de vergonha por ela falar assim comigo na frente dele.
Ele fez a gentileza de me olhar.
Estremeci por dentro, suando frio.
Abaixei a cabeça novamente, tímida, mexendo em qualquer coisa no caixa enquanto minha avó falava:
— É minha primeira e única neta. Meu xodó. Você já deve ter visto ela por aí.
Ergo as vistas, dando um sorriso sem dentes em cumprimento.
Ele mantém o enfoque em mim, então, vem em minha direção e meu corpo trava.
— Acho que não. — estende a mão, mentindo descaradamente. — Ou vi? — estreita o olhar pra mim.
Aperto sua mão, mantendo contato visual até o quanto eu aguentar, mesmo querendo sumir. Não sou uma jeca tatu que não sabe se portar.
— Prazer. — Digo, carismática.
Sei ser educada.
— Acho que você me viu uma vez quando passou aqui na rua. — não consigo deixar de dizer.
— Visão, lembrei agora. — ainda segurando minha mão, desceu o olhar pelo meu corpo lentamente.
Senti tudo pipocando por dentro.
— Não sabia que a senhora tinha uma neta desse tamanho, dona Betina. — voltou a olhar para ela, sem soltar minha mão. — Uma moçona já.
Eu sorri de ralance, sem querer. Quando olhei pra baixo, meus cabelos caíram no rosto. Ele falou como um idoso, foi engraçado.
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Pique
RomanceEle é uma bomba, um perigo. Ela sabe que não deve se arriscar tão perto, que pode se ferir com uma iminente explosão. Lia tem 19 anos, e uma perda a levou para o morro do Sol. Ajudar a família vem em primeiro lugar, até mesmo antes de seus desejos...
