54 - O show tem que continuar

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- Rá rá! Faça-me o favor! - debochei, derramando mais coca no copo sem nenhuma necessidade. Só estava indignada porque nem ciúmes de mim ele sentia.

- Não vou entrar numa com uma criança como ele, minha parada é contigo. Quero explicar pra você o que rolou ontem...

- E pra isso tinha que me parar no meio da rua mais movimentada do morro? Não tem celular? Meus amigos vão desconfiar, cara.

- Se tua avó, que é quem mais importa, já sabe, por que tu liga pros teus amigos?

Ele sabia que Jc não tinha cacife pra disputar com ele como homem, o tratava como alguém depois de ninguém. Não tinha medo da concorrência. Que raiva!

- Coisa minha. - balbuciei sem paciência, degustando mais um gole de coca gelada. Hoje o calor estava insuportável. Assim como ele.

- Você não precisa me explicar nada. Eu não ligo. - evitava contato visual, olhando sempre pra pequena janela ao nosso lado, onde só tinha mato e uma caçamba de lixo.

- Então não tá nem aí por eu não ter ido te buscar, nem ter avisado? Tá mais preocupada que ninguém saiba da gente. - se inclinou na mesa, falando mais manso. - Sente vergonha de se envolver comigo? Porque pra maioria das minas como você, gente como eu é pé de chinelo, desonra. É maneiro na encolha, pra bancar a rebelde, mas pra...

- Você não comece a se vitimizar, cara! - cuspi aquilo. - Sabe muito bem que ainda é um homem comprometido. E foda-se se foi ontem ou não me buscar! Eu estava mesmo cansada, foi melhor assim. - minto para não sair por baixo.

Essa era eu.

Ele ficou um tempo estreitando o olhar e espremendo o maxilar, possesso. Virou o copo de água.

- Maneiro. - disse somente, bolado, batendo o copo de volta.

-É, maneiro. - repeti, me levantando. Ele também se levantou, perguntando, mesmo com o cigarro no canto da boca e as sobrancelhas praticamente grudadas: - quer mais alguma coisa?

Fiz que não e fui saindo.

Ele deve ter jogado outra daquelas notas na mesa, porque logo passou por mim e disse:

- 2D, leva a mina na casa dela. Lá na alta, em frente ao bar do seu Alcides. - pulou em cima da moto sem me olhar, verificando a rua antes de dar a partida e acelerar sem sair ainda.

- Eu sei onde é, chefe. Pra já. - o carinha magrinho me olhou, depois olhou pra outro carinha. - Marca aqui, Vitinho. Já broto.

Aron disse, com uma expressão assassina:

- Deixa a longa. Leva só o berro no cós. - e acelerou de novo, agora subindo a ladeira. Os outros fizeram o mesmo.

2D deixou a arma com o amigo, me mandou subir na garupa e me levou, sem falar um "a" pelo caminho. Até tentei puxar assunto, mas ele só respondia com sim ou não.

Bem, agora eu sabia que Aron era informado de cada rastro meu. Qual o terror? Ele era o frente do morro, devia saber até quantos fios de cabelo cada morador tinha na cabeça. Outra coisa, havia um motivo para ele não ter ido me ver ontem. Eu imaginava já qual era.

Um motivo bem loiro, chamado Yara.

Ela certamente deve ter voltado e eu sobrei, como acontece com todas as amantes. Ele não ia e nem vai terminar. Eu fui tão tola!

Ele queria que eu ficasse rendendo pra ele como fiz ontem? Pra ele se sentir o maioral após me largar a ver navios?

Eu não!

Quando saltei na frente de casa, Fabi e Jc estavam sentados no degrau da mercearia fechada. Hoje não abrimos, por ser feriado de santo. Minha avó respeita super. Convidei eles pra entrarmos e contei a mentira que o outro lá sugeriu, sobre o b.o ser com o mototáxi e não comigo. Se eles não acreditaram, fizeram parecer que sim.

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