Quando amanheceu, todos estavam amontoados no colchão de casal de Jaemin, que haviam trazido do quarto para a sala na noite anterior. Apenas Jisung dormira no sofá; por causa da altura, ocuparia espaço demais e ainda corria o risco de chutar tudo que estivesse no rack do moreno enquanto dormia.
Renjun acordou antes dos outros. Levantou em silêncio, foi direto para o banheiro e cuidou da higiene matinal com cuidado para não acordar ninguém. Pouco depois, Jaemin despertou ao perceber uma movimentação ao redor. Seu corpo reagiu automaticamente, ficando tenso. Anos vivendo em alerta, escondendo-se da mãe para escapar dos abusos, haviam deixado marcas profundas.
— Ah… é você — murmurou, seguindo o som da escova de dentes até o banheiro.
— Sou eu, sim — respondeu Renjun, depois de terminar. — Quem você achou que fosse?
— Ninguém… — desviou o olhar. — Ainda não me acostumei com a casa cheia.
Havia vergonha em sua voz ao admitir parte da verdade, mas esconder aquilo estava se tornando impossível agora que morariam juntos.
— Me desculpa se te assustei — Renjun disse com suavidade.
— Está tudo bem… — Jaemin tentou sorrir, mas falhou. — São coisas que ainda me assustam, mesmo sabendo que ela não pode mais me machucar.
A confissão veio junto com o corpo cedendo. Jaemin caiu de joelhos no chão, o peito apertado, o coração batendo rápido demais.
— Jaemin! — Jeno gritou ao vê-lo naquele estado, correndo até ele. — O que aconteceu?
— Meus medos… — forçou a voz a sair. — Medos sem sentido.
— Não são sem sentido — Renjun disse, a voz embargando ao vê-lo assim. — Nunca foram.
— Podemos ir pro quarto? — sugeriu Jeno, tentando manter a calma. — Só até você se acalmar. Acho que você não gostaria que te vissem assim.
Ele conhecia Jaemin o suficiente para saber o quanto odiava mostrar esse lado frágil, mesmo quando fingir força já não era possível.
— É uma boa ideia — Renjun concordou.
— Tá bom… — Jaemin assentiu, com dificuldade.
Jeno não esperou mais um segundo. Pegou Jaemin no colo, ignorando o peso e qualquer dor que sentisse. Tudo o que queria era proteger, devolver ao menos um pouco da segurança que havia sido roubada daquele garoto. Deitou-o na cama com cuidado. Jaemin se encolheu, tremendo, como se estivesse com frio. Eles sabiam que não era isso; era uma crise de pânico. E tudo o que podiam fazer era ficar ali, presentes, até que passasse.
Ao longo da manhã, Jeno e Renjun se revezaram entre cuidar de Jaemin e distrair os convidados até que todos fossem embora. Sempre que perguntavam pelo anfitrião, ouviam a mesma resposta:
— Ele não dormiu bem na sala, então voltou pro quarto pra descansar um pouco mais.
Quando finalmente ficaram só os três no apartamento, Jeno correu para o quarto assim que fechou a porta. Encontrou Jaemin dormindo profundamente, deitado no colo de Renjun.
— Como ele está? — perguntou em voz baixa.
— Chorou bastante… e acabou dormindo — respondeu Renjun, com pesar. — Eu queria poder tirar dele toda essa dor.
— Eu também — Jeno disse, sentando-se ao lado deles. — Pais deveriam proteger os filhos. No caso do Jaemin, foram responsáveis por horrores que provavelmente nem conseguimos imaginar.
Ele observou o rosto tranquilo do moreno, contrastando com os olhos inchados.
— Será que ele está sonhando algo bom?
— Espero que sim — Jeno murmurou, fazendo carinho em seus cabelos. — Os olhos dele estão muito inchados.
Renjun observou em silêncio aquela troca de cuidado. Mesmo em momentos assim, os dois não conseguiam esconder o carinho que sentiam, ainda que tentassem manter as mãos discretamente afastadas, como se não quisessem admitir algo em voz alta. Que tipo de relação era aquela, afinal? Os três haviam se declarado, mesmo que não diretamente. Isso ainda contava? A linha entre amizade e algo mais parecia longa demais, confusa demais.
— Jeno… nós estamos namorando? — a pergunta escapou antes que pudesse ser contida.
— O quê? — Jeno foi pego completamente de surpresa.
— Às vezes eu fico pensando nisso — Renjun confessou. O coração batia rápido, temendo a resposta.
— Eu… não sei o que responder — disse, sincero.
— Foi o que eu imaginei — Renjun suspirou. Estava cansado, e fazia apenas dois dias que morava ali.
— Eu sei que não é fácil — Jeno começou, com cuidado. — Ninguém gostaria de estar nessa situação. Eu entendo querer algo mais íntimo, saber que os sentimentos são recíprocos e ainda assim precisar se controlar…
Ele olhou para Jaemin, que dormia entre eles.
— Mas olha pra ele. Você acha que ele conseguiria lidar com um relacionamento a três agora?
— Não… — Renjun respondeu, quase num sussurro.
— Exato. Ele ainda sofre muito com tudo o que passou. Não está pronto, e não aguentaria uma relação amorosa nesse momento.
— Você protege muito ele, né? — Renjun perguntou, sentindo-se pequeno sem querer.
— E faria o mesmo por você — Jeno respondeu, olhando-o com seriedade. — Mesmo nos conhecendo há pouco tempo, eu vejo sua insegurança. Vamos ter paciência. As coisas vão se ajeitar.
— O que a gente faz com ele? — Renjun perguntou. — Não podemos deixá-lo sem ajuda profissional.
— Concordo — Jeno suspirou. — Mas isso é algo que ele precisa aceitar. A gente só pode aconselhar. Às vezes consigo tocar no assunto, mas ele sempre foge.
— Agora que estou aqui, vou tentar ajudar também. Ele precisa de ajuda o quanto antes. Não sei como tantos traumas ainda não se transformaram em uma depressão profunda.
— Precisamos pensar em como fazê-lo enxergar isso.
— Eu não sei… — Renjun pensou por um momento. — Acho que podemos começar pesquisando.
Eles saíram do quarto em silêncio para não acordá-lo. Além disso, precisavam comer algo; ainda não haviam colocado nada no estômago desde que acordaram. Jeno não era um cozinheiro tão habilidoso quanto Jaemin, mas tentava de vez em quando, mesmo sob protestos constantes.
— Você não costuma cozinhar, né? — Renjun sorriu ao ver a expressão perdida dele.
— Eu sempre disse que ele não deixa ninguém mexer na cozinha — Jeno protestou, envergonhado.
— Deixa comigo. Vai se sentar — Renjun riu, aproximando-se.
— Nossos paladares agradecem.
Renjun também não tinha muita experiência, mas se saiu melhor do que o platinado. Em pouco tempo, descobriu onde estavam os utensílios e improvisou algo simples. Comeram em silêncio, cada um imerso em seus próprios pensamentos, antes de retomarem o assunto difícil.
— Já pensei muitas vezes no que fazer pra ajudá-lo — Jeno disse, por fim. — Mas a verdade é que ele precisa aceitar tratamento. A impotência de não poder fazer mais nada é horrível.
— Agora ele não está sozinho — Renjun respondeu com firmeza. — Vou fazer tudo o que puder pra ajudar.
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change | norenmin
FanfictionOnde Renjun adorava praticar arte pensando no rapaz do clube de natação e Jeno não sabia que as pinturas que admirava eram sobre ele mesmo. O mundo dos dois seria balançado com a chegada de um belo jovem dirigindo uma moto Naked preta e branca no mo...
