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Como havia sido planejado, ao final da semana de provas, uma festa aconteceria. Todos os universitários estavam convidados. A entrada de pessoas de fora não foi permitida — provavelmente o organizador acreditava que isso garantiria segurança. Talvez tenha se esquecido de um detalhe importante: uma das poucas informações confirmadas e divulgadas sobre o assassino era que ele também era estudante daquela faculdade.

Ainda assim, ninguém queria pensar nisso naquela noite.

O local estava cheio. As luzes, a música, o cheiro de bebida no ar. Apesar do tema ser “baile”, não era um evento formal. As roupas eram chiques, sensuais, pensadas para impressionar. Havia gente bonita demais reunida em um único lugar, corpos confiantes, risadas altas, olhares demorados.

Mark percebeu, naquele instante, que tinha um ponto fraco muito específico: Donghyuck com o cabelo penteado para trás. Como algo tão simples quanto mostrar a testa conseguia deixá-lo ainda mais atraente? Era um mistério que o canadense não fazia questão alguma de resolver.

— Você está me encarando há um tempo — Donghyuck comentou, divertido. — Não sabe que deve elogiar quando busca seu convidado?

— Claro que sei — Mark respondeu rapidamente. — Você está lindo.

— Não tem graça quando eu preciso ensinar o básico — fingiu desdém, mas o sorriso o traiu.

— Me dá um desconto. Fui atingido em cheio por um homem tão bonito quanto o pôr do sol. Meus olhos ainda estão se recuperando.

— Idiota — Donghyuck riu, achando a comparação estranhamente fofa.

Mark havia conseguido um carro para levá-los e buscá-los quando fosse preciso. Um motorista particular. Donghyuck reparou nisso, assim como reparou no carro preto — sua cor favorita. Não fazia ideia de como Mark sabia desse detalhe. Depois perguntaria a Jeno.

O canadense estava impecável. Jaqueta de couro preta, calça larga da mesma cor, coturnos pesados e um novo corte de cabelo. O undercut destacava ainda mais seu rosto. Tudo parecia cuidadosamente pensado.

— Você também está bonito — Donghyuck comentou, observando-o com atenção. — Sabe se vestir.

Não era coincidência. Mark estava vestido exatamente como o ruivo havia comentado, uma vez, ser seu tipo ideal.

— Vamos entrar ou você pretende passar a noite inteira me olhando? — provocou.

Donghyuck usava um terno, all star preto e o cabelo perfeitamente penteado para trás. Estava do tipo que fazia qualquer um se apaixonar sem esforço.

Depois de alguns minutos em silêncio, Mark falou:

— Não sei se tenho direito a isso.

— A quê? — Donghyuck perguntou, desconfiado.

— A ir a festas. Beber. Me divertir sem o Lucas. Pode parecer exagero, ele era só um amigo… mas parece errado sentir felicidade quando não percebi a dor de alguém tão próximo.

Donghyuck respirou fundo.

Por que eu estou consolando o Mark?

— Ele estava vivendo o luto do jeito dele — disse com cuidado. — Isso fez parecer que estava bem. Que seguia em frente.

Mark manteve o olhar baixo.

— E ele não se suicidou — Donghyuck continuou. — Foi assassinado. Não morreu por causa da dor, mesmo sofrendo. Cada um aguenta até onde pode, e o Lucas aguentou firme. Você também precisa continuar. Por ele.

Parou por um instante.

— Não estou dizendo para esquecer. Nem fingir que nada aconteceu. Só… tenta se permitir uma noite diferente. As provas acabaram. E você não está sendo irritantemente alegre como antes.

— Uau — Mark sorriu, sincero. — Você é péssimo consolando pessoas.

— Está reclamando? — Donghyuck arqueou a sobrancelha.

— Não. Só comentando… sem pensar muito.

Mark respirou fundo, afastando pensamentos sombrios. Pelo menos naquela noite.

— Tudo bem. Vamos.

Todos torciam por uma noite tranquila. Silenciosamente, pediam para que nada acontecesse. Que o pesadelo tivesse acabado.

[...]

Jaemin conseguiu convencer seu colega de quarto — estudioso demais para seu próprio bem — de que ir à festa era uma boa ideia. A última havia acontecido meses atrás. Precisavam sair, dançar, agir como pessoas normais.

Só não imaginava o que aconteceria ao chegar.

— O que você está fazendo aqui?! — um garoto gritou, com raiva evidente. — Veio matar mais alguém?

— Como é? — Jaemin ficou confuso. Já sabia das coisas que cochichavam sobre ele nos corredores, dos olhares tortos, das palavras sussurradas sem cuidado.

— Você é o psicopata que está matando nossos colegas! — outro acusou, reconhecendo-o do curso de administração.

— O quê? — Jaemin sentiu o estômago afundar. — Como podem me acusar assim? O que eu fiz para ser odiado desse jeito?

— Tudo começou quando você chegou — alguém retrucou. — Ninguém sabe nada sobre você. Vive de moto pra lá e pra cá. Seria fácil fugir das cenas do crime com um veículo desses.

— Só isso? Suposições? — antes que Jaemin pudesse continuar, Jeno se colocou à sua frente.

— Isso é calúnia — uma voz firme interrompeu.

Renjun havia acabado de chegar à festa e observava a cena com indignação.

— De acordo com o artigo 138 do Código Penal, imputar falsamente um crime a alguém pode resultar em detenção e multa. Se não podem provar o que dizem, o mínimo que podem fazer é se desculpar — olhou para Jaemin. — E torcer para que ele não decida processá-los.

Os alunos se entreolharam, constrangidos. Não havia o que fazer. Pediram desculpas, apressados, e se afastaram.

Jaemin sabia que aquilo não seria a última vez.

— Obrigado… — murmurou. — Eu nem soube como reagir.

— Amigos são para isso — Renjun disse, sem pensar muito. A frase soou quase como algo tirado de um filme adolescente, e ele percebeu tarde demais.

— Amigos… — Jaemin sorriu. Aquela palavra o aqueceu mais do que esperava.

— Se você não estiver bravo pelo outro dia…

— Você não teve culpa — Jaemin respondeu. — Está tudo bem.

Sem perceber, passou a mão pelos cabelos loiros de Renjun. Um gesto simples, espontâneo.

— Que bom — Renjun sorriu, observando-o com atenção. Havia algo diferente em Jaemin. Mais verdadeiro. Mais bonito quando não tentava ser alguém que não era. — Se precisar, sou um amigo que entende um pouco de leis.

— Vou lembrar disso.

Enquanto isso, Jeno observava de longe. Via os dois conversando, sorrindo, se aproximando com naturalidade. Aquilo parecia… certo. Completo.

E, por algum motivo, seu peito apertou.

Ele deveria sentir ciúmes de Jaemin, não deveria? Era o garoto por quem acreditava estar interessado.

Então por que aquela sensação estranha insistia em crescer?

change | norenminOnde histórias criam vida. Descubra agora