Na manhã seguinte, o senhor Na acordou com a mente inquieta e o corpo cansado. Ainda assim, havia uma estranha ansiedade em seu peito. Nada melhor do que prender um assassino logo cedo para melhorar o humor de um investigador. Se demorasse mais alguns dias, perderia esse privilégio para alguém do FBI e, depois de tantas noites dormindo pouco — ou nem dormindo —, aquilo seria profundamente injusto.
— Tudo pronto? — perguntou, ajustando o paletó.
— Sim, senhor! — responderam os colegas, tão animados quanto ele.
Três viaturas partiram rapidamente em direção à universidade que já haviam visitado inúmeras vezes. Conheciam os corredores, os prédios e até os professores, depois de tantas entrevistas e buscas. Os alunos haviam retornado aos dormitórios ao amanhecer, acompanhados de responsáveis. Tudo parecia organizado demais, silencioso demais. Era justamente isso que os mantinha em alerta.
[...]
Jaemin chegou cedo à universidade. Não havia dormido quase nada na noite anterior, mas fingira estar profundamente adormecido para que Jeno e Renjun pudessem descansar sem preocupações. Não queria ser mais um peso. Deixou uma mensagem avisando onde estaria e se deitou em um banco, permitindo que o sol da manhã aquecesse seu rosto.
Pouco depois, ouviu o som das viaturas entrando rapidamente no campus.
Ergueu-se devagar e observou à distância. Viu o pai sair de um dos carros e permanecer parado enquanto os policiais corriam em direção aos dormitórios. Seu coração apertou. Aquilo só podia significar uma coisa.
Eles haviam encontrado o assassino.
Jaemin ficou ali, imóvel, esperando. Precisava ver. Precisava saber. Quando Yangyang surgiu algemado, sendo escoltado para fora do prédio, o choque o deixou sem ar.
Yangyang…
Ele não o conhecia bem, mas jamais acreditaria que alguém com uma aparência tão comum, tão inofensiva, fosse capaz de tamanha crueldade.
As aulas daquele dia foram imediatamente canceladas. Professores, inspetores e até a diretora foram convocados para prestar depoimento. O campus parecia suspenso no tempo.
Jaemin avisou aos amigos que não precisariam ir. Depois, subiu em sua moto e saiu para dar uma volta, tentando organizar os próprios pensamentos antes de voltar para casa.
— Você está bem? — Jeno perguntou assim que o viu chegar.
— Melhor do que ontem — respondeu, evitando dizer que ainda doía quase do mesmo jeito.
— Então… foi o Yangyang… — Renjun comentou, ainda incrédulo. — Será que o Johnny sabia de alguma coisa?
— Pensei em ligar para ele — disse Jeno. — Deve ser mais difícil para ele do que para nós.
Tentaram ligar várias vezes. Nenhuma resposta.
A preocupação cresceu rápido demais. Jeno pegou o cartão que todos os alunos haviam recebido, com um número direto da polícia para emergências relacionadas ao caso.
A ligação foi curta.
E devastadora.
Johnny havia sido a última vítima de Yangyang.
Seu corpo fora encontrado escondido no dormitório, enrolado em um cobertor. Pela cena, a polícia concluiu que o crime ocorrera naquela mesma manhã, logo após o retorno ao campus. A forma como tudo fora organizado indicava uma tentativa fria de disfarçar o que havia sido feito.
— O que foi? — Renjun perguntou ao ver a expressão de Jeno mudar completamente.
— Ele matou o Johnny…
Jaemin sentiu a garganta se fechar. Os olhos arderam, e ele precisou se sentar.
— Não acredito… — murmurou, a voz fraca. — Quantas pessoas ainda vão morrer por causa disso?
[...]
— Esses depoimentos são só formalidade, não são? — comentou um policial, tentando aliviar o clima. — As provas são irrefutáveis.
— São — respondeu outro. — Mas o senhor Na não gosta de deixar nenhuma ponta solta.
Uma longa fila de profissionais da universidade aguardava para depor. O dia seria longo, e os próximos também, com os depoimentos dos alunos.
Enquanto observava tudo, Na Yejun se perdeu em pensamentos, fechou a pasta lentamente, como se o peso do papel fosse maior do que realmente era. O nome de Ed Kemper ainda ecoava em sua mente, não como um estudo distante de criminologia, mas como um espelho desconfortável do que acabara de acontecer diante de seus olhos.
Kemper e Yangyang não eram iguais — ele sabia disso —, mas havia linhas perigosamente semelhantes ligando os dois. Ambos jovens demais para carregar tantas mortes, ambos inteligentes, silenciosos, capazes de passar despercebidos em meio a pessoas comuns. Nenhum deles parecia um monstro à primeira vista. Pelo contrário, era justamente essa aparência de normalidade que mais assustava.
Ed Kemper crescera em um lar quebrado, moldado por humilhações constantes, aprendendo desde cedo a engolir ódio e frustração até que tudo transbordasse da pior forma possível. Yangyang, por sua vez, não tinha um histórico conhecido de violência explícita, mas também carregava silêncios demais, ausências demais, emoções nunca ditas. O tipo de vazio que não aparece em relatórios, mas grita nos detalhes que só se percebem tarde demais.
Ambos escolheram vítimas que estavam ao alcance, dentro de um espaço que deveria ser seguro. Ambos usaram a rotina como disfarce. Dormitórios, casas, confiança. E, talvez o mais perturbador, nenhum dos dois parecia agir por impulso puro — havia método, espera, repetição. Isso não nascia de um único dia ruim. Era algo cultivado por anos.
A diferença cruel era que Kemper se tornara um aviso histórico, um nome em livros e palestras, enquanto Yangyang ainda era uma ferida aberta. Jovens mortos demais, perguntas sem resposta demais, e um campus inteiro marcado para sempre.
Na Yejun pensou em Jaemin. Pensou em quantas coisas um pai deixa de ver enquanto acredita estar protegendo. Pensou em quantos Yangyangs e quantos Kempers poderiam existir, caminhando entre pessoas comuns, não porque nasceram monstros, mas porque ninguém percebeu quando começaram a se perder.
No fim, ele sabia: prender Yangyang não significava encerrar a história. Assim como Ed Kemper continuava sendo estudado décadas depois, aquele caso também não terminaria ali. Alguns crimes acabam com a prisão do culpado. Outros continuam vivendo na memória de quem sobreviveu.
E esse era o tipo de caso que nunca realmente dormia.
Yejun respirou fundo.
Apesar de tudo, agradecia silenciosamente. Jaemin crescera ferido, sim. Marcado, sim. Mas humano. Capaz de amar, de sentir, de se importar.
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change | norenmin
FanfictionOnde Renjun adorava praticar arte pensando no rapaz do clube de natação e Jeno não sabia que as pinturas que admirava eram sobre ele mesmo. O mundo dos dois seria balançado com a chegada de um belo jovem dirigindo uma moto Naked preta e branca no mo...
