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A festa havia sido organizada pelos alunos que estavam prestes a se formar na cerimônia da semana seguinte. Eles juntaram dinheiro, tempo e esforço para que tudo fosse perfeito. Não permitiriam que um assassino psicopata destruísse aquele momento tão esperado, o símbolo de que haviam chegado até o fim de suas faculdades.

O salão de festas de um hotel luxuoso foi alugado para a ocasião. Era impressionante o que centenas de pessoas conseguiam fazer quando se uniam por um único propósito. O espaço era enorme, do tamanho de uma quadra de futebol profissional, com piso de madeira e uma decoração de estilo rústico que combinava perfeitamente com o tema de baile.

Balões de hélio flutuavam pelo salão, com fitas coloridas penduradas em um comprimento calculado para criar uma visão quase mágica sem atrapalhar ninguém. Luzes coloridas mudavam suavemente o tom do ambiente a cada minuto, sem piscar demais para não causar desconforto. Tudo havia sido pensado com cuidado, como se o controle daquele espaço fosse uma tentativa coletiva de afastar o caos que rondava a faculdade.

Jaemin já estava em sua segunda bebida enquanto conversava com suas duas pessoas favoritas no mundo. Eles ainda não sabiam que haviam se tornado algo tão importante uns para os outros.

— Então vocês estão dividindo um apartamento aqui perto? — Renjun perguntou, com um tom casual. Para sua própria surpresa, não sentia mais ciúmes, mesmo sabendo que seu antigo crush morava com outra pessoa. — Não é perigoso ficar indo e vindo?

— Ultimamente é perigoso até morar no dormitório — Jaemin respondeu, dando de ombros.

— Isso é verdade… — Renjun pensou por alguns segundos. — Tem espaço para mais um?

Eles ainda não sabiam, mas aquela pergunta ecoaria muito além daquela noite.

— Você quer morar com a gente? — Jeno perguntou, só para ter certeza de que havia entendido corretamente.

— Depois do que aconteceu, eu já estava pensando em sair do dormitório — Renjun explicou. — Mas não tive tempo de procurar outro lugar. Dividir as contas com outras pessoas parece… mais seguro.

Jaemin e Jeno se olharam, como se conversassem em silêncio. O moreno pensou em seu apartamento pequeno, em como tudo ali já estava apertado — e, ainda assim, aconchegante.

— O apartamento é pequeno, só tem dois quartos — Jaemin comentou. — Teríamos que pensar em onde você ficaria.

— Posso procurar outro lugar se for um problema.

— Não é isso — Jaemin respondeu. — Eu gostei da ideia. Só preciso pensar um pouco.

— Eu não me importo de dividir quarto… ou cama — Renjun disse, com naturalidade. — Não é como se vocês fossem me machucar.

— Você confia rápido demais nas pessoas — Jaemin provocou. — E se eu ou o Jeno fôssemos o assassino?

— Jeno não pode ser — Renjun respondeu sem hesitar. Não disse em voz alta o quanto já o havia observado, nem o quanto tinha certeza disso. — E você não moraria com alguém ruim. Acho que posso confiar em vocês dois.

Jaemin sorriu, rendido.

— Então está decidido. Pode trazer suas coisas quando quiser.

— Obrigado. A partir do próximo aluguel, ajudo nas contas.

— Fechado.

Nenhum deles imaginava que aquela conversa surgiria ali, no meio de uma festa, mas estranhamente parecia certa. Depois disso, os diálogos ficaram mais profundos. Entre goles e risadas, falaram sobre medos, inseguranças e desejos — não todos, mas o suficiente.

Talvez fosse a bebida. Talvez fosse o ambiente. Ou talvez fosse apenas a sensação rara de se sentirem seguros.

Com o apoio silencioso de Jeno, Jaemin contou a Renjun sobre seus traumas e explicou o que realmente havia acontecido no outro dia. O chinês sentiu o peito apertar ao perceber que havia machucado alguém tão frágil sem querer. Jaemin garantiu que estava tudo bem, mas Renjun sabia que ainda precisava se redimir — e morar com eles parecia a chance perfeita de conhecê-lo de verdade.

Com o assunto do apartamento deixado de lado, os três se aproximaram ainda mais. Dançaram, riram de piadas bobas, compartilhando uma leveza que parecia impossível poucos dias antes. Jeno observava em silêncio, com um sorriso tranquilo no rosto, mesmo sem entender completamente o que sentia ao vê-los assim.

— Por que está olhando pra gente desse jeito? — Jaemin perguntou, percebendo primeiro.

Renjun, pela primeira vez naquela noite, desviou sua atenção do platinado e realmente olhou para Jaemin. Saber sobre seus traumas o fez enxergá-lo de outra forma. Não como o motoqueiro provocador que fingia ser invencível, mas como alguém humano, quebrado em partes, tentando se conectar do jeito que sabia.

Talvez os flertes fossem apenas isso: uma tentativa de manter por perto quem ele queria em sua vida.

— Finalmente está percebendo minha beleza? — Jaemin provocou, sorrindo.

— Quanta autoestima — Jeno respondeu, rindo. Não negaria que ele era bonito, mas não diria isso naquele momento. — Só estava pensando em como vocês se dão bem juntos.

— O quê?! — Renjun arregalou os olhos. — Não é nada disso!

Ele se apressou em negar, o coração acelerado. Jeno ainda era seu crush. Como conseguia criar esperança tão rápido?

— Vocês são fofos — Jeno comentou, sorrindo, confuso com seus próprios pensamentos.

— Acho que você já bebeu demais — Jaemin brincou, escondendo a pontada de tristeza que sentiu com o desespero do chinês em negar qualquer possibilidade entre eles. — Falando nisso, vou parar de beber. Preciso levar minha moto depois.

— Só a moto? — Jeno provocou.

— Você pode vir junto, se quiser.

Renjun observava aquela troca, aquele tipo de intimidade que fazia qualquer um imaginar um casal perfeito.

— Se você não vai beber, nós também não — Renjun decidiu. — Diversão sem álcool.

— Gostei da ideia — Jaemin sorriu, sentindo o coração acelerar. Era impossível não se encantar.

Três pessoas se apaixonando lentamente, sem coragem de admitir nada.

— Vou ao banheiro, já volto — Jaemin disse, afastando-se.

Eles estavam sentados em sofás próximos à pista de dança. Mark e Donghyuck dançavam animados, parecendo esquecer o mundo ao redor. Jaemin precisou se esgueirar pela multidão até chegar ao banheiro, surpreendentemente limpo para a quantidade de gente.

Enquanto isso, Jeno ficou sozinho com Renjun. O silêncio entre eles era denso. O chinês já havia se declarado, e nada havia sido realmente resolvido. Ainda assim, Jeno sentia que aquele momento era importante demais para ser ignorado.

— Então… — ele começou, nervoso. — Você já pensou em quem poderia ser o assassino?

Se amaldiçoou por escolher logo aquele assunto.

— Não — Renjun respondeu, estremecendo. — Só de pensar que ele pode estar entre nós, agindo normalmente… me dá nojo.

— Também acho assustador — Jeno concordou. — Fico imaginando como essa pessoa dorme. Se tem pesadelos.

— É incrível não ter sido pego ainda, com tanta tecnologia.

— Sim… — Jeno respirou fundo. — Acho que eu enlouqueceria se algo acontecesse às pessoas que amo.

Ele não tentou disfarçar o olhar ao encarar Renjun.

— Ama…? — o chinês murmurou, sentindo o coração acelerar.

Ele está falando de mim ou estou me iludindo de novo?

O silêncio se estendeu. Os olhares se prenderam um ao outro. Parecia errado estarem ali sozinhos, sem Jaemin — mas por quê? Nenhum deles estava em um relacionamento. Não havia nada de errado em um beijo.

Os rostos se aproximaram lentamente. O desejo falava mais alto.

Ia acontecer.

change | norenminOnde histórias criam vida. Descubra agora