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Donghyuck não sabia o que fazer. Tudo o que conseguia era observar Mark consolando o amigo enquanto aguardavam a vez de depor. A noite começou perfeita. Dançou até os pés doerem, riu sem pensar nas consequências, manteve-se por perto como um guarda-costas silencioso. Quase não bebeu — Mark, de algum jeito estranho, havia tornado tudo divertido mesmo sem álcool.

Estava tudo incrível… até alguém gritar que havia um corpo no banheiro masculino.

A imagem não saiu de sua mente. A pele azulada pela falta de oxigênio, o pescoço em um ângulo impossível. Como alguém conseguia fazer aquilo e, minutos depois, agir como se nada tivesse acontecido?

Horas se passaram. Quando os alunos finalmente foram liberados, o céu já clareava. Estavam exaustos demais para conversar. Alguns tinham voltado à sobriedade à base de café distribuído pelos policiais. Tudo o que queriam era chegar aos dormitórios, se jogar na cama e esquecer. As provas haviam terminado. As férias estavam próximas. Mas aquela noite ficaria marcada.

Nada havia saído como Mark planejou.

Primeiro, sua crise existencial logo no começo da noite. Donghyuck teve que consolá-lo. Como alguém conquista outra pessoa desse jeito? Mark se xingava mentalmente por mostrar um lado frágil e irritante. Não fazia ideia de que, justamente naquele momento, o coração dele havia falhado uma batida.

O ruivo ainda não entendia por quê. Talvez carência. Talvez empatia demais. Talvez algo que ele ainda não estava pronto para aceitar.

Então ficou. Não eram um casal. Não tinham rótulo algum. Mesmo assim, Donghyuck não conseguiu deixá-lo sozinho em meio ao caos. Esperou. Mesmo que isso significasse passar horas ali, até Mark decidir ir embora.

— Ainda está aqui? — Mark perguntou ao encontrá-lo sentado, esperando.

— Estou. Deveria ter ido embora?

— Todo mundo já foi… — suspirou, claramente exausto. — Não achei que ainda estivesse aqui.

— Imaginei que você gostaria de me ver depois de tudo isso — respondeu com um sorriso confiante que escondia preocupação.

— Obrigado.

Mark apoiou a cabeça em seu ombro. De novo. Vulnerável. E Donghyuck odiou o quanto aquilo não o incomodou.

— Não precisa agradecer — disse, passando a mão pelos cabelos dele com cuidado. — Como o Yangyang está?

— Se acalmou um pouco… mas ainda parece distante. Preciso levá-lo pra casa.

Os olhos de Mark estavam fechados. O perfume de Donghyuck misturado ao leve cheiro de suor o deixava estranhamente confortável.

— Vamos levá-lo juntos.

— Por que você é assim? — murmurou, a voz arrastada de quem estava prestes a dormir. — Só vai me fazer gostar ainda mais de você.

— Anda logo — riu. — Antes que você durma em cima de mim.

— Mas eu gosto da ideia de dormir em cima de você — sorriu, mesmo sabendo que o outro não podia ver.

— Não tão rápido, Marquinhos — riu. — Vamos sair dessa cena de crime antes que a polícia nos expulse.

— Eles não fariam isso.

— Tem certeza? Nossa presença só atrapalha.

— Tá bom, tá bom — Mark cedeu, erguendo a cabeça do ombro dele.

Foram até Yangyang, que ainda estava sentado no chão, perto do local onde o corpo do namorado havia sido encontrado.

— Hora de ir pra casa, Yang — Mark chamou com cuidado.

Recebeu apenas um olhar vazio em resposta.

— Vem… você vai ter que ser forte agora.

Com a ajuda de Donghyuck, conseguiram levantá-lo. Pegaram um táxi — ninguém estava em condições de dirigir. O dormitório era perto, felizmente. Descobriram que Yangyang dividia o quarto com Johnny, que já havia voltado há horas e dormia profundamente, o cheiro de álcool impregnando o ambiente.

— Alguém bebeu demais — Donghyuck comentou ao ver o rapaz deitado de qualquer jeito na cama.

— Nem sabia que ele tinha vindo — Mark disse, cobrindo Yangyang com o cobertor.

O garoto apenas se virou para o outro lado.

— Obrigado — murmurou, quase inaudível.

— Se precisar de ajuda, lembra que você não está sozinho — Donghyuck garantiu.

Sem resposta, decidiram deixá-lo descansar.

— Será que ele vai ficar bem? — Mark perguntou enquanto caminhavam de volta. — Ele quase nunca falava do namorado, mas nunca o vi tão destruído.

— Talvez ele só não seja de falar — Donghyuck respondeu. — Como o Jaemin. Estamos no mesmo clube e trocamos, sei lá, umas dez palavras nesses oito meses.

— Uau… isso é muito tempo em silêncio.

— Depende da pessoa — deu de ombros. — O Jaemin e o Jeno vivem no próprio mundo.

Pararam em frente ao dormitório de Mark.

— Chegamos.

— Já? — Mark riu. — Odeio dormitórios dentro da faculdade.

— Pois é.

— Obrigado por tudo hoje.

— Mas eu não fiz nada.

— Ficou comigo sem obrigação nenhuma. Isso já é muito.

Mark o encarava com um sorriso bobo, sincero demais. Aquilo fez algo apertar dentro de Donghyuck.

Ele não queria um relacionamento. Não agora. Ainda estava se recuperando do anterior. Queria liberdade. Tranquilidade. Distância de sentimentos complicados.

— É… de nada, eu acho — respondeu, travando por dentro.

Sua mente gritava para fugir.

— Você está bem? — Mark percebeu a mudança. — Parece estranho de repente.

— Só cansado — desconversou. — Ainda bem que amanhã só tenho aula à tarde. Daquelas só pra marcar presença.

— Que bom. Então vou te deixar dormir — disse, passando a mão em seus cabelos antes de ir embora.

Donghyuck respirou fundo quando ficou sozinho.

Sua mente estava um caos.

Não podia negar a conexão. Nem a atração. Menos de um mês desde que se conheceram e ele já sentia algo que nunca havia sentido antes.

Balançou a cabeça, tentando afastar os pensamentos, e entrou no quarto. Renjun e outro colega dormiam juntos, provavelmente bêbados demais para chegar às próprias camas. A de Renjun estava coberta de roupas — escolha difícil de look, como sempre.

Ver que algumas coisas permaneciam iguais, apesar de tudo, trouxe um conforto silencioso.

Mesmo em meio ao caos, havia pequenas âncoras que o mantinham ali.

change | norenminOnde histórias criam vida. Descubra agora