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Johnny passou o dia inteiro observando o colega de quarto. Suspeitava dele desde a madrugada em que o viu chegar e ir direto para o banho, evitando qualquer contato. Procurou por horas, revirando cada canto do quarto, tentando encontrar alguma roupa ensanguentada que comprovasse sua teoria, mas não achou nada. A frustração se acumulava junto à dor de cabeça latejante, forte demais para permitir qualquer coisa além de vigiar em silêncio.

Yangyang se movia pelo quarto com naturalidade, como se nada tivesse acontecido. Ninguém imaginaria que seu namorado havia sido assassinado na noite anterior. Ele não sentia necessidade de fingir diante do gigante com quem dividia o espaço, e esse seria seu maior erro. Johnny apenas aguardava, paciente, por um deslize — qualquer pequeno erro que denunciasse a verdade.

[...]

Renjun não tinha aulas à tarde. Diferente de Donghyuck e de outros alunos que ainda precisavam recuperar notas, ele pôde tirar o dia para descansar. Acabou cochilando ao lado de Jaemin. Os dois demoraram a pegar no sono, estranhos demais com a ideia de dividir a mesma cama. O moreno acabou dormindo primeiro; sua noite havia sido difícil, e o cansaço venceu.

Renjun ficou acordado por mais algum tempo, observando aquele rosto bonito e sereno. Pensava em tudo o que haviam conversado. Era estranho perceber como não se importava tanto com a descoberta de que Jeno e Jaemin haviam dormido juntos. O que realmente o preocupava era imaginar tudo o que aquele garoto havia suportado ao longo dos anos e, ainda assim, conseguido ser tão gentil e carinhoso.

Quando finalmente adormeceu, sentiu-se grato. Grato por ter nascido em uma família boa, que nunca lhe deixou faltar amor.

[...]

Enquanto isso, Donghyuck lutava para não dormir durante a prova de recuperação. Estava sentado ao lado de outros alunos que, assim como ele, não haviam conseguido passar direto e tinham passado a noite acordados na festa. Se não tirasse nota suficiente, Jeno e Taeyong certamente lhe dariam alguns bons murros — além de treino extra de natação como castigo. Só de pensar, já sentia o corpo reclamar. Forçou o cérebro cansado a funcionar.

— Que sono… — murmurou, irritado.

Foram quatro horas de questões absurdamente difíceis sobre direito civil. Era uma matéria interessante; aprender sobre os próprios direitos em sociedade era algo útil, mas naquele momento parecia impossível absorver qualquer conteúdo. Ainda assim, conseguiu terminar dentro do tempo. Agora, só restava esperar o fim de semana para saber a nota.

— Olha só ele, um sobrevivente — Mark brincou assim que Donghyuck se aproximou.

— Está aqui desde quando? — perguntou Hyuck, sorrindo.

— Uns vinte minutos — mentiu. Na verdade, esperava havia mais de duas horas.

— Pra quê? — Donghyuck o encarou com desconfiança.

— Pensei em perguntar se você vem sempre aqui — disse com um sorriso travesso, quase rindo da própria piada. A expressão de Donghyuck deixava claro o pensamento: “é sério isso?”. — Tô brincando. Queria saber se você ainda tem alguma aula.

— E o que você diria se eu te contasse que estou livre? — provocou, exibindo aquele sorriso bonito que sempre desarmava Mark.

— Então eu te levaria para um passeio na praia.

— O quê? — Donghyuck piscou, tentando ter certeza de que tinha ouvido direito.

— Eu reservei uma casa pra nós dois.

— Meu Deus… — achou o gesto incrivelmente bonito. Ninguém nunca tinha feito algo assim por ele, e isso o deixou assustado. — Mark… isso é…

— O que foi? — Mark percebeu o incômodo imediatamente. — Pode me dizer. Eu vou te ouvir. Não se preocupe em me deixar triste, não se importe com nada agora. O mais importante é o que você sente.

Donghyuck respirou fundo antes de falar.

— Quando você me trata assim, eu me sinto… importante. E isso é tão estranho.

— Estranho como? — Mark franziu a testa, confuso.

— Eu tive um relacionamento difícil por dois anos, no fim do ensino médio. Só consegui sair dele recentemente. Então, quando você é carinhoso desse jeito, não consigo evitar pensar que isso é só no começo… e que depois eu vou sofrer tudo de novo — confessou. — Por isso tenho fugido de relacionamentos.

De repente, tudo fez sentido para Mark.

— Agora eu entendo melhor seus medos. E sei que, mesmo que eu prometa que não vou te machucar, isso não vai ser suficiente pra acalmar seu coração — disse com sinceridade.

Donghyuck concordou em silêncio.

— Se você me der uma chance, eu vou te mostrar. Ou posso esperar até que esteja pronto.

— E se demorar?

— Tudo bem. Vale a pena esperar por você — respondeu com um sorriso suave, fazendo carinho em seus cabelos ruivos.

— E a reserva?

— Só vamos se você quiser e se estiver confortável. Eu prometo que não vou aprontar nada. Posso cancelar sem problema.

— Eu ainda tenho mais uma prova… vou usar esse tempo pra pensar e depois te digo.

— Não devia usar esse tempo pra se concentrar na prova? — Mark brincou. — Não precisa ter pressa.

— Está tudo bem, eu consigo pensar em duas coisas ao mesmo tempo — disse, orgulhoso.

— Donghyuck, você está de recuperação.

— Quieto! — respondeu, rindo. Mark riu junto.

— Sua prova é agora?

— Hum… — conferiu o horário no celular. — Daqui a vinte minutos.

— Quer comer alguma coisa antes?

— Quero, tô morrendo de fome.

Foram juntos ao refeitório. A faculdade estava fornecendo tudo o que os alunos precisavam para que não precisassem sair do campus. Havia praticamente de tudo, sem custo adicional nas mensalidades, graças ao apoio do governo — uma medida emergencial para evitar que mais alunos se tornassem vítimas do assassino em série. Era tudo improvisado, mas surpreendentemente organizado.

Mark até pensou em levá-lo a um lugar melhor, mas o processo de saída era complicado demais. Além disso, talvez já tivessem que passar por isso mais tarde, caso fossem mesmo à praia. Donghyuck não se importava com luxo; preferia mil vezes a companhia de alguém de quem gostasse do que qualquer passeio caro.

Ele ainda tinha uma prova difícil de direito constitucional, sua matéria favorita. Não entendia como tinha ficado de recuperação justamente nela. Talvez tivesse se distraído, ou simplesmente não tivesse se importado tanto com as notas — um erro grave para qualquer estudante de direito, já que cada detalhe poderia ser usado contra ou a favor no futuro.

Comeram hambúrgueres e, de sobremesa, sorvete. Uma combinação perfeita. Bem alimentado, Donghyuck teve que correr para não se atrasar para a prova. O esforço logo após comer lhe causou uma dor incômoda na cintura, daquelas que tiram o ar por alguns segundos. Uma péssima hora para qualquer distração, ainda mais com a dor insistente dificultando até mesmo respirar direito.

change | norenminOnde histórias criam vida. Descubra agora