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Jaemin se trancou no quarto assim que voltaram. Jeno entendia que devia estar sendo muito difícil para ele ir contra tudo o que lhe fora ensinado desde pequeno, então decidiu respeitar seu espaço e deixá-lo sozinho por um tempo. Ainda assim, conforme as horas passavam, a inquietação crescia. Já era noite, e Jaemin não havia saído em nenhum momento.

— Jaemin — chamou, batendo levemente na porta do quarto. — Já está muito tarde, venha jantar.

Nenhuma resposta.

Com cuidado, girou a maçaneta. A porta não estava trancada. Ao entrar, encontrou o moreno dormindo profundamente, o rosto sereno demais para alguém que carregava tanto conflito por dentro. Jeno se ajoelhou ao lado da cama para observá-lo de perto. O peito apertou, pesado pela preocupação e por um sentimento que já não conseguia definir com clareza — gostar não parecia mais uma palavra suficiente.

— Jaemin… acorde. Vamos comer alguma coisa — disse em voz baixa.

Levantou-se e puxou o lençol devagar, com cuidado.

— Eu não quero acordar… estou com sono — resmungou, tentando segurar o tecido que já não o cobria.

— Eu sei, mas você não comeu nada desde o café da manhã. Não pode ficar pulando refeições — respondeu Jeno, com um tom calmo e atento, tão diferente do que usava com os colegas da natação.

Jaemin percebeu.

— Tudo bem… eu vou. Só me deixa tomar um banho primeiro — disse, sentando-se e alongando os braços.

— Estarei te esperando na cozinha.

Jeno já se virava para sair quando sentiu Jaemin segurar seu braço. Parou e encontrou seus olhos.

— Obrigado… por tudo — disse ele, num tom tímido e sincero.

— Não precisa agradecer — respondeu Jeno, sorrindo daquele jeito que fazia Jaemin questionar cada decisão que havia tomado até ali, inclusive a de ajudar Renjun.

Na cozinha, Jeno voltou a mexer nas panelas, mas seus pensamentos estavam longe.

Recebi uma declaração e pedi tempo. Isso é normal. Mas eu estou gostando do Jaemin. Eu deveria rejeitar o outro… como se faz isso? Nunca precisei fazer antes.

Suspira. Nada parecia simples.

— Nossa, que cara é essa? — Jaemin apareceu na porta, vestindo sua camisa. — Parece que está fazendo conta de cabeça.

— Mais ou menos isso — respondeu, rindo sem graça.

— Devia usar uma calculadora — brincou, sentando-se à mesa.

— Não é algo que um computador consiga resolver — disse, soltando outro suspiro.

— Então são problemas amorosos — comentou Jaemin, com um sorriso de canto. — Recebeu uma declaração?

Jeno se surpreendeu.

— Pela sua cara… acertei.

Então Renjun realmente se declarou. Por que isso incomoda tanto? Por que dói?

— Por que não me conta? Talvez eu possa ajudar.

— Não sei se deveria. Se ele souber, pode ficar envergonhado — disse, enquanto servia a comida. — Mas, sem nomes… um amigo disse que gosta de mim, e eu pedi um tempo pra pensar.

— E o que você sente por ele? — perguntou Jaemin, receoso.

— Eu não sei. Conversamos poucas vezes, há muito tempo. Nem estamos no mesmo curso. Eu nem me lembrava disso até ele me contar — confessou. — Me senti péssimo por não lembrar de algo importante pra ele, então menti.

— Mesmo assim, você se preocupou com os sentimentos dele — disse Jaemin, com calma. — Pediu tempo, mentiu para não machucar… Isso já diz muito.

O silêncio caiu entre eles.

— Talvez você só precise admitir que se importa — continuou. — E se se importa, então existe algum sentimento, sim.

Por que estou empurrando ele para outra pessoa se meu peito aperta assim?

— Acho que você tem razão… obrigado — disse Jeno. — Me desculpa por falar disso quando você está passando por algo tão difícil.

— Não se preocupe — respondeu Jaemin. — Estou acostumado a lidar com isso sozinho.

— Mas eu me importo com você — disse Jeno, segurando sua mão. — Já falei que estou do seu lado. Não vou embora.

Jaemin sentiu o coração vacilar.

— Sabe… minha moto era do meu avô — começou. — Ele me ensinou tudo. Foi minha liberdade, meu escape. Graças a ele, consegui trabalhar, sair de casa, chegar até aqui. Às vezes… você me lembra ele.

— Eu? — Jeno se surpreendeu.

— Você é gentil. Pensou em mim hoje, ficou aqui. Pouca gente faria isso.

— Não sou tão incrível assim — respondeu Jeno. — Só tento compensar quem eu fui no passado.

Sentados à mesa, a comida esquecida, eles se encaravam em silêncio. Havia ali uma compreensão silenciosa, um desejo de não estarem mais sozinhos. O olhar sustentado foi intenso demais.

O beijo aconteceu sem aviso, carregado de tudo o que não havia sido dito. Quando se afastaram, as respirações estavam descompassadas, os rostos quentes, os pensamentos confusos demais para recuar.

Jaemin se levantou e puxou Jeno pela mão, num gesto decidido e vulnerável. Seguiram para o quarto, conscientes de que aquela noite mudaria algo entre eles — e, ainda assim, incapazes de negar o que sentiam.

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