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O dia seguinte chegou rápido demais. Nenhum dos dois estava preparado para encarar o que havia acontecido na noite anterior. Quando acordaram, trocaram apenas alguns olhares breves antes de se levantarem, envolvidos por um silêncio pesado e constrangedor.

— Vai me explicar o que aconteceu ontem? — Jeno quebrou o silêncio, a voz baixa.

— Por que eu deveria? — Jaemin respondeu com outra pergunta, imediatamente na defensiva. — Eu vou tomar banho.

Jeno não protestou. Depois de tudo o que ouvira, imaginou que o banho fosse uma tentativa desesperada de se sentir um pouco mais limpo, um pouco mais inteiro. Esperaria o tempo que fosse necessário.

— Eu disse algo desnecessário ontem — Jaemin falou ao passar por ele. — Esquece.

— O quê? Aquilo sobre o abuso? — Jeno sentiu o peito apertar. — Como você pode me pedir para esquecer isso?

— Não é assunto seu.

— Pode até não ser, mas você precisa de ajuda!

O clima começou a ficar tenso, como se qualquer palavra errada pudesse se transformar em uma briga.

— Jaemin… — Jeno respirou fundo, a voz quase implorando. — Me escuta. Quer dizer, me explica o que está acontecendo para que eu possa te ajudar.

— E como você vai me ajudar? — Jaemin retrucou, exausto.

— Pelo que você me contou ontem, a primeira coisa a fazer é ir a uma delegacia e denunciá-la.

— Denunciar a minha própria mãe? — Jaemin riu sem humor. — Eu não estaria sendo um bom filho.

— Jaemin, me escute! — Jeno deu um passo à frente. — Ela não te trata como um filho. Isso… isso é doentio. É crime. Você precisa fazer alguma coisa.

— Como? — a voz de Jaemin falhou. — Ela é minha mãe… — havia tanta dor naquela frase que nenhum dos dois conseguiu conter as lágrimas. — Eu só quero minha mãe de volta. Ela não era assim.

Jeno respirou fundo, tentando se recompor. Quando começou a se importar tanto? Não sabia. Mas sabia que precisava ser forte agora.

— Sabe… — Jaemin começou, com um sorriso quebrado, carregado de sofrimento. — Quando eu era criança, eu era muito amado. Sou filho único, meus pais quase desistiram de ter filhos. Eles me ensinaram que família era tudo, que eu devia obedecer e respeitar acima de qualquer coisa.

Jeno ouviu em silêncio. Cada palavra parecia um pedido de socorro.

— Depois do meu aniversário de quinze anos, tudo mudou — continuou. — Eu me sentia tão seguro que resolvi contar que sou gay… Minha mãe surtou. Começou a me dizer coisas horríveis, a fazer coisas horríveis, dizendo que era para me curar. — Ele não conseguiu mais se manter em pé e caiu de joelhos, chorando. — Eu só quero minha mãe de volta. Tem algo errado comigo? Por que ela me odeia tanto?

A dor de Jaemin era tão profunda que Jeno sentiu o próprio peito doer. Aqueles anos de abuso haviam quebrado algo dentro dele, deixando-o confuso, culpado, como uma criança perdida mesmo aos dezenove anos.

Jeno o puxou para um abraço apertado, acariciando seus cabelos com cuidado, como se tivesse medo de machucá-lo até com o toque.

— Jaemin, você precisa de ajuda urgente — disse em um sussurro. — O que ela fez com você é um dos crimes mais graves que existem. Eu não consigo imaginar o que você suportou nesses quatro anos… mas ela precisa ser responsabilizada.

— Se eu fizer isso, vou estar indo contra tudo o que me ensinaram — Jaemin soluçou. — Eu não tenho mais nada além disso.

— Tem sim — Jeno respondeu com firmeza. — Tem a mim. Eu estou aqui. Vou com você, se quiser.

Com cuidado, segurou o rosto de Jaemin, obrigando-o a encará-lo.

— Eu vou te proteger. Ninguém mais vai te machucar. Eu prometo.

Jaemin o encarou longamente, como se tentasse encontrar qualquer sinal de mentira. Ele tinha tanto medo de confiar de novo… mas havia algo nos olhos castanhos de Jeno que o fazia se sentir seguro, mesmo que só um pouco.

— Vamos comer alguma coisa — Jeno disse, enxugando as lágrimas dele. — Depois, vamos à delegacia. Tudo bem?

— Por que você está fazendo tanto por mim? — Jaemin perguntou, genuinamente confuso. — Ninguém nunca fez.

— Porque eu me importo com você — respondeu, após uma breve hesitação. — E porque sou seu… colega de apartamento.

As palavras doeram em Jeno, mas não era o momento para sentimentos.

— Você também vai me machucar algum dia? — Jaemin perguntou, a voz frágil, quase infantil.

— Não — Jeno respondeu sem hesitar. — Eu prometo. Vai ficar tudo bem. Ninguém vai te machucar nunca mais.

Jaemin não disse nada. Apenas o abraçou forte e chorou, dessa vez com um peso um pouco menor no peito.

Como Jeno havia dito, eles comeram algo e chamaram um táxi para ir à delegacia mais próxima. Jaemin não estava em condições de dirigir, e Jeno não pretendia aprender a andar de moto tão cedo.

Apesar de a vítima ser um homem, os policiais levaram a denúncia a sério. Explicaram os procedimentos, iniciaram a investigação e solicitaram exames para confirmar os abusos. Durante todo o processo, Jaemin não deixou Jeno se afastar mais de dois metros, agarrando-se a ele como sua âncora. A polícia compreendeu — vítimas de trauma frequentemente precisavam desse apoio para se sentirem seguras.

Depoimentos, coleta de provas, análises e investigações começaram imediatamente. A delegacia já estava sobrecarregada com outros casos graves, e o cansaço era visível no rosto dos policiais, mas ninguém deixou de tratar Jaemin com respeito e seriedade.

Pela primeira vez em anos, ele sentiu que talvez — só talvez — não estivesse mais sozinho.

change | norenminOnde histórias criam vida. Descubra agora