𝟭𝟲. Pretexto

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Noah Urrea

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Noah Urrea


A escuridão quase completa me agracia assim que abro os olhos. Mal conseguiria distinguir se era manhã do dia seguinte ou ainda a noite do dia anterior, não fosse pela mínima fresta de luz que esgueira para o quarto através de uma abertura da cortina.

Um quarto diferente do meu.

Minha primeira reação é verificar se inadvertidamente não estou de conchinha com Sina. Não. Eu acordei de um lado da cama enquanto ela ainda descansa do outro, de costas para mim.

Passo as mãos pelo rosto incapaz de conter o sorriso imenso que deve surgir em mim. A noite com Sina fora melhor do que poderia imaginar, muito além dos cenários fantasiosos a envolvendo ao bater uma no chuveiro quando chegava em casa depois de um dia em que nossas provocações intensificavam e eu recuava no final. Erro meu.

Mas depois de nos embolarmos nessa cama por um bom tempo, acho que será complicado resistir as próximas investidas da loira.

Os sons deliciosos que escapavam dela, a pele avermelhada marcando os caminhos por onde explorei, as unhas me arranhando de leve e a sensação dos nossos corpos juntos comigo enterrado fundo nela agarraram-se na minha memória.

Caramba, o fato de estar pelado debaixo dos lençóis da loira e reparar em suas costas também nuas lembra que em algum momento após mais uma rodada, simplesmente apagamos de exaustão.

Os lençóis farfalham com o espreguiçar de Sina, e ela vira-se para o meu lado falando com a voz sonolenta.

– Pode abrir um pouquinho as cortinas?- pede. – Bom dia.

– Bom dia, bem-te-vi.

Estico o braço até alcançar o tecido e o puxo para o lado da forma que consigo, apenas um pouco, como pediu. Um feixe de luz maior ilumina o espaço, o que me permite reparar melhor nos detalhes ao redor.

As paredes são num tom comum de branco, mas as estantes em cerâmica de madeira dão um diferencial. De onde estou, consigo enxergar a escrivaninha no mesmo estilo das estantes com um notebook fechado em cima. Inúmeros livros relacionados a veterinária dividindo espaço com outros recreativos. Tem até mesmo um protótipo que caberia na palma da mão de um gato preto e branco e um cão com suas contra metades mostrando a anatomia interna de um jeito bem lúdico.

Apesar de não haver tanta coisa que denuncie as camadas mais profundas da personalidade de Sina, aquelas pequenas dispostas ali e a própria cortina estampada com estrelas brancas num fundo azul escuro falam por si só.

– Terminou de sondar meu quarto?- a voz presunçosa da loira me traz de volta para a realidade, olhando para o lençol enrolado em seu peito e os olhos estreitos.

– Um quarto muitas vezes expressa a personalidade da pessoa- explico dando de ombros. – Só estava observando.

Sua expressão denota chacota.

𝗗𝗲𝘀𝗽𝗿𝗲𝘁𝗲𝗻𝘀𝗶𝗼𝘀𝗼, 𝗻𝗼𝗮𝗿𝘁Histórias para pegar e não largar. Descubra agora