25. Um coração derretido

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Hyunjin empurrou as portas de seu quarto com um movimento fluido, como se o peso do dia não fosse suficiente para perturbá-lo. A suíte, como sempre, exalava imponência. O espaço era vasto, dominado por paredes altas e janelas enormes que iam do chão ao teto, permitindo a entrada de uma luz tênue que mal atravessava a névoa constante do reino congelado. A lareira estava acesa, lançando sombras dançantes pelo quarto e aquecendo o ambiente com uma magia quase imperceptível, mas sempre presente.

A cama redonda, coberta por lençóis e almofadas de cetim negro e dourado, ocupava o centro do espaço, enquanto poltronas de veludo rubi formavam um semicírculo próximo à lareira. No canto oposto, o ofurô de madeira escura soltava vapor, convidando-o para um momento de descanso. Hyunjin sempre mantinha o quarto aquecido — era o único lugar em que se sentia vivo de verdade. O calor aqui era natural para ele, uma extensão de quem era, uma resistência ao frio que dominava o resto do castelo e do reino.

Fechando a porta atrás de si, ele deslizou a capa dos ombros com um movimento gracioso, pendurando-a no cabide próximo. Em seguida, desabotoou o colete bordado, cada movimento lento, como se o peso da magia e do dia o obrigassem a preservar energia. As roupas deslizaram de seu corpo, revelando a pele pálida.

Hyunjin caminhou até o ofurô, seus passos firmes ecoando pelo piso de madeira polida. Ele deslizou para dentro da água quente, soltando um suspiro longo enquanto o vapor envolvia seu corpo, cobrindo sua pele de um brilho úmido. A água era quase escaldante, mas para ele era perfeita. Sempre foi assim — o calor o alimentava, como se fosse um combustível para o fogo que corria em suas veias.

Hyunjin ergueu uma mão, deixando os dedos fora da água. Ele concentrou-se por um momento e, como uma dança, as chamas tremeluziram na ponta de seus dedos, pequenas e efêmeras, mas ainda poderosas. Ele observou as chamas vacilarem e, finalmente, se apagarem. Uma pontada de frustração passou por seu rosto antes de ser substituída pela calma habitual.

Ele sabia o que aquilo significava.

Estava ficando mais fraco.

O calor do quarto, que antes parecia ser uma extensão de sua força, agora era uma máscara, um disfarce para esconder o que realmente estava acontecendo. A maldição que pesava sobre o reino congelado não apenas drenava o calor das terras ao redor, mas também o seu próprio. O fogo em suas veias, a essência de quem ele era, estava se apagando lentamente.

Hyunjin reclinou a cabeça na borda do ofurô, fechando os olhos por um instante. A água quente ainda oferecia algum consolo, mas não o suficiente para silenciar os pensamentos que se agitavam em sua mente. Ele não podia se dar ao luxo de fraquejar agora. Não quando tudo estava em jogo. Ele precisava de algo — ou alguém — que pudesse ajudá-lo a reacender o fogo que lentamente estava se extinguindo.

E, no fundo, ele sabia. Felix era a chave. Sempre foi ele.

Hyunjin abriu os olhos, o brilho dourado de suas íris dançando à luz da lareira. Por enquanto, ele aproveitaria a calmaria do calor, a última chama viva em um reino dominado pelo gelo.

...

Naquela noite, Hyunjin estava inquieto. O calor do quarto, que normalmente o acalmava, parecia insuficiente para silenciar a tempestade de pensamentos em sua mente. Ele recostou-se na cama redonda, as mãos entrelaçadas atrás da cabeça enquanto encarava o teto decorado com arabescos dourados que refletiam a luz bruxuleante da lareira. Mas, por mais que tentasse desviar o foco, tudo o que conseguia pensar era em Felix.

Desde o momento em que soube da existência de Felix, ele nunca conseguiu tirá-lo da cabeça. O príncipe exilado de Adarlan não era uma figura desconhecida. Histórias sobre ele circulavam pelos reinos, sussurradas entre mercenários e nobres, sobre como ele havia matado o próprio pai — um tirano cruel — e, em seguida, se tornado um assassino nas sombras, eliminando homens igualmente desprezíveis. A reputação de Felix o precedia, pintando-o como alguém poderoso, perigoso, impossível de ignorar.

Hyunjin esperava encontrar alguém intimidante, envolto em escuridão e mistério. Mas quando viu Felix pela primeira vez, ele percebeu que a realidade era muito mais fascinante do que qualquer história. Felix era... único. Ele tinha uma presença que desarmava Hyunjin de maneiras que ele não sabia explicar.

Havia algo no jeito como Felix corava quando ficava constrangido. Era sutil, uma coloração rosada que subia por seu rosto, contrastando com as sardas delicadas espalhadas pela pele. Hyunjin tinha a sensação de que Felix odiava corar — provavelmente achava que isso o fazia parecer vulnerável. Mas para Hyunjin, era irresistível. Ele também gostava da forma como Felix era, ao mesmo tempo, tímido e afrontoso. Havia algo encantador no equilíbrio entre sua hesitação e sua coragem, como se ele estivesse constantemente desafiando o mundo, mesmo sem ter certeza de que venceria.

A voz de Felix era outra coisa que não saía da cabeça de Hyunjin. Aquela profundidade rouca, carregada de emoções, parecia sempre esconder algo mais. Era o tipo de voz que podia comandar uma sala inteira, mesmo sem intenção. Hyunjin lembrava-se da noite anterior, de como Felix havia ficado sem fôlego durante o beijo, e de como sua voz rouca tinha sussurrado algo que ele não conseguiu decifrar, mas que ainda fazia seu coração acelerar só de lembrar.

E o cabelo de Felix... Hyunjin se pegou sorrindo sozinho. Aqueles fios loiros, caindo levemente sobre os ombros, combinavam perfeitamente com o rosto delicado e os olhos castanhos que pareciam carregar o peso do mundo. Os olhos de Felix eram outro mistério, um poço de sentimentos que Hyunjin queria decifrar.

Mas, acima de tudo, Hyunjin estava obcecado com os lábios de Felix. Céus, aqueles lábios... carnudos, perfeitos, desenhados em um formato de coração que parecia ter sido esculpido para deixá-lo louco. Ele não conseguia esquecer como foi beijá-los na noite anterior. O gosto doce e viciante, a maciez contra a sua própria boca, o calor que explodiu entre eles no momento em que suas línguas se encontraram.

Hyunjin fechou os olhos e soltou um suspiro pesado, como se tentasse afastar a memória. Não adiantava. Estava tudo ali, vivo, pulsante, deixando-o ainda mais inquieto. Ele conseguia se lembrar da maneira como Felix o havia olhado antes do beijo, do jeito que seu peito subia e descia enquanto prendia a respiração, como se aquele momento fosse o último sopro de ar antes de um mergulho profundo.

Por mais que tentasse, Hyunjin não conseguia ignorar o fato de que estava se envolvendo. Ele sabia que não deveria. Felix era parte de algo muito maior, algo que ele não podia controlar. O casamento que os uniria seria mais do que uma aliança; seria um vínculo de poder, de magia, de destino. Hyunjin sempre se orgulhou de ser calculista, de não se deixar levar por emoções. Mas com Felix... tudo parecia diferente.

Ele passou os dedos pelos cabelos escuros, bagunçando-os levemente, e se sentou na cama, os olhos fixos no brilho da lareira. Ele precisava de uma distração, algo que o tirasse daquele estado, mas sabia que não conseguiria. Felix estava gravado em sua mente, como uma chama que ele não podia apagar.

E o pior de tudo era que Hyunjin nem queria apagar.

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