Dia e noite

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Você é dia.
Chega com luz nos olhos e voz que desperta.
Traz cor, movimento, energia.
Tem presença que aquece,
e uma alma que chama tudo pra vida.

Você ilumina até o que estava esquecido.
Mostra o caminho, revela as verdades.
É clara, intensa, generosa.
Ama com o peito aberto, sem disfarces.

Ele é noite.
Chega devagar, quase em silêncio.
Prefere o sussurro à explosão,
o gesto ao discurso,
o sentir ao dizer.

É mistério, profundidade, pausa.
Acolhe o que o dia não viu,
ouve o que ficou calado.
Ama em silêncio, mas ama.

O dia quer permanecer —
mas precisa ir.
A noite quer ficar —
mas tem que ceder.

E ainda assim, se tocam.
Por breves minutos no crepúsculo,
ou quando a aurora começa a nascer.
Ali, entre o sol que se despede
e a lua que começa a crescer,
há um instante que não pertence a nenhum —
mas é feito dos dois.

Nesse instante,
eles não são opostos.
São dança.
São promessa.
São um lembrete:
mesmo em tempos diferentes,
há beleza no esperar.
Há amor que acontece no intervalo.
E há laços que sobrevivem ao tempo —
porque nasceram do céu.

Sou o dia,
porque chego inteira.
Com o peito aberto,
as palavras nas mãos,
e a alma querendo dizer.

Sou feita de luz —
mas também de pressa,
de vontade de ver tudo crescer,
de não deixar nada passar despercebido.

Eu nomeio sentimentos,
falo sobre amor,
escrevo poemas.
Quero tocar o que é invisível,
e tornar visível o que o outro sente.

Ele...
Ele é a noite.
Chega devagar,
com passos que não fazem barulho,
com olhos que observam mais do que falam.

Ele não precisa dizer tudo.
Às vezes basta o jeito como segura a caneca,
como manda um snap com a gata nos pés,
como se lembra do vestido que escolhi,
como pergunta sobre meu dia, como repara em mim.


Ele se comunica nas entrelinhas.
Ele sente — mas nem sempre mostra.
Ele oferece presença,
mas nem sempre promessas.

E mesmo assim...
mesmo assim, eu o vejo.

Porque mesmo o sol, com toda sua força,
respeita a chegada da noite.

E quando o dia encontra a noite,
num céu pintado de laranja e azul escuro,
não há conflito —
há beleza.
Há transição.
Há a certeza de que mesmo em mundos diferentes,
eles ainda dividem o mesmo céu.

E talvez seja isso o que somos:
duas formas de amar,
duas formas de existir,
duas formas de tocar o outro —
mas feitas da mesma essência.

Porque, no fim,
dia e noite são apenas jeitos diferentes
de cuidar da mesma Terra.


Palavras ditas!Onde histórias criam vida. Descubra agora