Eu te escrevo com o peito calmo e inteiro,
não mais em desespero de quem não entende o que pulsa,
mas com o olhar de quem vê — e escolhe continuar vendo.
Te escrevo porque percebi:
desde os primeiros gestos, tu tem falado comigo
num idioma que eu não conhecia...
mas que, estranhamente, entendi desde o começo.
Era no modo como tu reagia às minhas marés:
sem tentar me conter, sem se assustar com a intensidade.
Tu ficava.
E isso, para mim, virou abrigo.
Porque quando te mostrei a Orca dormindo enroladinha,
não era só sobre ela.
Era sobre mim.
Sobre como, às vezes, eu também me enrolo no mundo
procurando um canto seguro.
E tu, ao dizer que gostava disso...
estava, talvez sem saber, dizendo que gostava também de mim.
Do que sou.
Desse tipo de afeto manso,
que se constrói mais no silêncio do que na pressa.
Quando te falei dos passarinhos do meu avô,
e tu sorriu e disse "emanando sua princesa interior?",
e eu ri e disse sim...
me senti acolhida.
Como quem pode ser leve, sem parecer boba.
Como quem pode brincar, sem parecer frágil.
Como quem pode amar, mesmo antes de chamar isso de amor.
Hoje eu entendo:
nós criamos um idioma próprio.
Feito de animais, de ternura, de snaps trocados,
de emojis que dizem "tô aqui",
e de silêncios que dizem "eu entendo".
Isso tudo, para mim,
é mais do que conversa.
É construção.
E por isso, se um dia tu me dissesse:
"pinta comigo?"
eu responderia sem hesitar:
"escreve comigo."
Porque meu coração não quer apenas sonhar contigo —
ele quer te alcançar com consciência,
com os dois pés na areia firme daquilo que é real,
e ainda assim cheio de magia.
Se tu souber um dia o que sinto,
espero que tu reconheça:
isso aqui não é ilusão.
É escolha.
É afeto lúcido.
É carinho sem exigência,
mas cheio de presença.
Se tu souber um dia o que sente...
espero que tenhas coragem de me contar também.
Mas se não souber — tudo bem.
Eu já sou grata por tudo que compartilhamos até aqui.
E por tudo que ainda pode nascer.
Com ternura real,
de quem tem oceano dentro,
e aprendeu a navegar em águas profundas.
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Palavras ditas!
PuisiAaah, as palavras... com ela expressamos o que há no mais profundo do nosso ser...
