Alicie
Acordei com o Dobby me encarando da beirada da cama. Literalmente. O pato estava de pé sobre o travesseiro do lado, com aquele olhar de julgamento passivo-agressivo que só ele sabe fazer. Suspirei, puxando o cobertor até o queixo. Meu corpo ainda doía de tanto rir, correr, dançar e quase chorar naquele fim de semana.
O pedido de namoro do Miguel ainda martelava na minha mente. A forma como ele organizou tudo... cada detalhe... cada memória dos nossos encontros. Tudo feito com carinho, mesmo quando ele foi um idiota me ignorando. E agora? Agora ele era meu. Oficialmente meu. Meu caos. Meu maluco. Meu amor.
Reviro os olhos com o pensamento meloso, mas sorrio. E dói sorrir, porque parece que estou inflando por dentro com tudo que senti nesses últimos dias.
Ouvi meu celular vibrar na mesa de cabeceira. Era uma mensagem da Sarah.
Sarah
Acorda, senhora cafona e apaixonada. Quero o relato completo das coisas que não estavam nos bilhetes do Miguel.
Ri, jogando o celular de lado. Eu precisava mesmo contar tudo pra ela. Especialmente sobre a entrada dramática do tio Joseph, que abraçou Miguel como se fosse o novo genro real e já começou a interrogar a gente como um policial aposentado da CIA. Meu tio é um caos. Um caos carinhoso, pelo menos.
Suspirei de novo. Eu queria voltar pra lá. Pra floresta. Pro deck. Pro moletom dele. Pro cheiro de mato e de perfume amadeirado que ficou na minha blusa.
Mas aí, como um chute no estômago, o mundo real bateu na porta, ouvi o elevador anunciar a chegada de alguém. Estranho. As nove da manhã todos estão fora, trabalhando, treinando. Fico sozinha por algumas horas.
— Titio? Dylan?
— Que bom que você está aqui.
Emma.
Minha mãe.
— O que está fazendo aqui? — minha garganta seca, meus lábios se fecham e tudo parece quente demais. Apertado demais.
— Você vai comigo, para o meu casamento.
— Nem fudendo — o palavrão a incomoda, mas ela fica calada. — Não tenho que ir a lugar nenhum com você.
— Eu sou sua mãe.
— Ah — meu riso era de escárnio. — Agora você é minha mãe?
— Alicie! Você está sendo mimada!
— Vai embora, Emma. Eu não vou no seu casamento com um pedófilo!
O tapa foi certeiro. A mão da minha genitora acertou minha boca, a ardência começou e logo após o gosto de ferro se alastrou pelo meu paladar.
— Você vai, nem que eu tenha que obrigar você.
Olho para ela, sentindo os olhos ardendo. Mas não era só de dor. Era raiva. Era nojo. Era a sensação sufocante de anos engolidos em silêncio, anos sendo desacreditada, anos sendo obrigada a dividir o mesmo teto com um monstro — e sendo chamada de "mentirosa" por quem deveria ter me protegido.
— Olha pra mim — minha voz sai baixa, fria, como gelo quebrando. — Olha bem pra mim, Emma.
Ela hesita, mas olha. E talvez pela primeira vez, ela não vê a menina frágil que ela empurrou pra debaixo do tapete junto com a culpa. Ela vê a mulher que sobreviveu a tudo que ela fingiu não ver.
— A última vez que você bateu em mim eu tinha doze anos. E sabe o que eu fiz? Me escondi no armário e chorei até dormir. — Engoli em seco, sentindo o gosto metálico do sangue ainda na boca. — Hoje, eu não vou chorar. E você não vai me encostar de novo.
— Você não tem escolha — ela rebateu, mas agora com a voz trêmula. — Você é minha filha.
— E isso deveria significar algo. Mas pra você nunca significou — meus olhos queimavam agora, mas eu me recusei a piscar, a ceder. — Você me entregaria de novo, não entregaria? Se pudesse voltar no tempo, ainda escolheria ele. Ainda mentiria pra polícia. Ainda me deixaria naquele quarto.
Emma ficou em silêncio. E isso doeu mais do que qualquer palavra. Porque era a confirmação que eu sempre temi. Ela não me amava o suficiente. Nunca amou.
— Eu sinto muito que você tenha sido minha mãe.
Ela empalideceu. Mas eu continuei.
— Agora sai da minha casa. Porque se você der mais um passo, eu mesma vou chamar a polícia e dizer que você me agrediu. E dessa vez, não vai ter quem te proteja.
Ela me encarou por mais alguns segundos, mas logo virou o rosto, apertou a bolsa com força e saiu. A porta se fechou com força atrás dela, como um ponto final tardio de uma história que já devia ter acabado há muito tempo.
Meus joelhos fraquejaram. Mas antes que eu caísse, braços fortes me seguraram. Era Dylan. Ele tinha chegado no final da discussão, mas o suficiente pra entender tudo.
— Eu tô aqui, tá? — ele murmurou, me abraçando com força. — Você não tá sozinha, nunca mais.
Fechei os olhos e deixei a respiração pesada sair devagar.
Peguei o celular. Abri a conversa com o Miguel. Digitei. Apaguei. Digitei de novo. Nada parecia certo. Eu não queria jogar esse peso nele. Não agora. A gente mal começou. Ele merecia um pouco mais de tempo antes de encarar esse tipo de dor.
Mas eu não conseguia esconder.
Alicie:
Miguel, minha mãe veio aqui. Queria me obrigar a ir no seu casamento.
Com Adam.
Vi as bolinhas de digitação surgirem quase instantaneamente.
Miguel:
Quer que eu vá com você? Não que eu ache que você deva ir. Mas se for, eu tô com você.
Meus olhos arderam. Dobby rosnou do lado, como se estivesse me mandando sentar e respirar.
Alicie:
Eu não quero ir. Mas preciso. Não por eles. Por mim. Acho que preciso ver com os meus olhos que... acabou.
Miguel:
Então a gente vai. Juntos. E se você quiser, a gente sai antes do "aceita". Eu invento uma desculpa. Faço uma cena. Levo o Dobby de smoking, sei lá.
Ri. Mesmo com a dor latejando, eu ri.
Alicie:
Você é um idiota.
Miguel:
Sempre.
Fechei o celular e me joguei no sofá. Eu não queria aquele casamento. Não queria ver aquele homem. Não queria ouvir minha mãe fingindo que tudo sempre foi perfeito.
Mas eu também não era mais a mesma garotinha assustada de antes.
VOCÊ ESTÁ LENDO
𝑅𝐸𝑊𝑅𝐼𝑇𝐸 𝑇𝐻𝐸 𝑆𝑇𝐴𝑅𝑆 - 𝑀𝑖𝑔𝑢𝑒𝑙 𝐶𝑎𝑧𝑎𝑟𝑒𝑧 𝑀𝑜𝑟𝑎
Fanfiction"-Você atrapalhou meu treino, pisou no meu pé, quebrou meu celular, e está brava comigo? - - Porque você é um completo idiota! -" 𝐴𝑙𝑖𝑐𝑖𝑒 𝑀𝑐𝐵𝑟𝑖𝑑𝑒, uma garota com inúmeros problemas, se apaixona por 𝑀𝑖𝑔𝑢𝑒𝑙 𝐶𝑎𝑧𝑎𝑟𝑒𝑧, um garoto...
