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Alicie

Eu mal sentia meus pés. Talvez fosse o salto, talvez fosse o peso da memória. Ou talvez fosse a presença dele. O homem que destruiu minha vida. Que foi acobertado por aquela que devia me proteger.

E agora estava prestes a dizer "sim" na frente de Deus e de uma igreja cheia de idiotas que batiam palmas.

Miguel estava ao meu lado. Mas não era só ele. Joseph, meu tio, e Dylan, meu irmão, vinham logo atrás. Todos de preto. Como se estivessem indo pra um velório. E talvez estivessem. O enterro da minha antiga versão, a menina que tinha medo de falar.

— Se ele encostar em você, Alicie, eu juro que vou preso hoje — sussurrou Dylan, entre dentes.

— Fila da cadeia vai ter briga — Joseph completou, ajustando a gravata com olhos de predador. — Eu espero que tenha vinho no coquetel, pelo menos. Vai combinar com a cena que vou fazer.

— Vocês prometem que vão ficar calmos? — perguntei, sem nem acreditar que estava tentando ser a voz da razão.

— Não — Miguel respondeu de imediato. — Eu vim porque você quis vir. Mas se esse desgraçado abrir a boca pra dizer seu nome, eu quebro os dentes dele.

Foi aí que Mason apareceu pelo meu outro lado, empurrando suavemente um velhinho que ocupava o banco da frente.

— Vocês sabem que se a briga começar, eu sou o primeiro a tirar o paletó, né? Mas só se a Sarah filmar em 4K — ele disse, com um sorrisinho de lado.

Sarah, elegante como uma modelo e caótica como um furacão, revirou os olhos e segurou minha mão com firmeza.

— Se quiser fugir agora, eu dirijo. E ainda passo com o carro em cima do buquê da Emma.

Engoli seco. Aquela era a única coisa que me dava forças: eu não estava mais sozinha.

Quando entrei na igreja, tudo pareceu mais frio. As flores, o vitral, o altar. E lá estava ele. Adam. Com o mesmo sorriso de sempre. Aquele falso, cínico, de lobo em pele de cordeiro.

O olhar dele cruzou o meu. E por um segundo, eu juro, vi um lampejo de medo. Porque ele sabia. Sabia que eu não era mais a garotinha calada.

— Isso — Joseph murmurou atrás de mim. — Olha só como ele empalideceu. Se eu assobiar aqui, ele mija nas calças.

Miguel, ao meu lado, enrijeceu. Seu maxilar travado, a mão quente apertando a minha.

— Você não precisa ficar até o fim — ele disse, baixinho. — Você não tem que provar nada pra ninguém.

Emma apareceu no corredor, vestida de noiva, ridícula com aquele véu exagerado e sorriso de propaganda de creme anti-idade. Caminhava até o altar como se estivesse recebendo um prêmio. Do lado dela, o monstro.

Meus olhos ardiam. Mas não de tristeza. De nojo.

Quando o padre começou a falar, minha respiração ficou curta. Tudo girava. A voz dele me dava náusea.

— Você quer sair? — Miguel perguntou.

— Ainda não — sussurrei. — Só mais um segundo...

— Isso, amiga, segura o teatrinho só até o momento certo — Sarah murmurou, afiada. — Depois a gente dá o fora e vai comemorar a sua liberdade com vinho e pizza.

Eu precisava ver com meus próprios olhos que era real. Que ela tinha escolhido ele. Que nada daquilo foi um mal-entendido ou exagero da minha cabeça. Que ela estava ali, dizendo "sim" ao meu abusador, como se ele fosse um herói.

E então, como se o universo me desse a última prova, ela olhou para mim e... sorriu. Como se estivesse dizendo "você perdeu".

Foi o bastante.

Levantei. Os bancos rangeram. Pessoas olharam. Mas eu não me importei.

— Alicie? — Dylan levantou também, rápido.

— Já vi tudo que precisava ver.

Miguel levantou junto. Sem perguntar, sem hesitar.

Joseph estalou os dedos como se dissesse "partiu" e já foi abrindo passagem no corredor da vergonha.

Mason se inclinou e pegou a bolsa de Sarah.

— Bora, princesa. Se ficar aqui mais cinco minutos, vou começar a gritar "anulação!" no altar.

Saímos da igreja em silêncio, mas cada passo meu era um grito. Eu não precisava de vingança naquele momento. Eu precisava de paz. E eu estava levando comigo as únicas pessoas que realmente ficaram do meu lado.

E o melhor: eu saí andando. Com os ombros erguidos. Sem olhar pra trás.

O ar lá fora era outro. Mais fresco. Menos podre. Como se, ao cruzar a porta daquela igreja, eu tivesse deixado pra trás um peso de anos. Um fantasma. Um monstro.

— Nunca mais — murmurei, como se fosse uma promessa. Pra mim mesma.

Miguel entrelaçou os dedos nos meus. Sua mão era firme. Quente. Segura. Como se dissesse: "aqui é o agora. Comigo."

— Tô tão orgulhoso de você — ele disse, e seus olhos brilhavam com um tipo de admiração que fez meu estômago virar.

Eu sorri. Pequeno, mas verdadeiro.

— Eu quase vomitei no banco. Ia ser dramático, mas eficaz.

— E eu quase arranquei o microfone da mão do padre e gritei "fujam pras colinas, ele é um criminoso!" — Joseph completou.

— Eu ia jogar o buquê no lixo. E depois cuspir nele — Sarah falou, tirando o salto como quem tira algemas.

— Eu tava pronto pra pegar o microfone e cantar "Você pagou com traição, a quem sempre lhe deu a mão!" — Mason cantou desafinado, o que fez todos rirem.

Miguel me puxou devagar, até me virar de frente pra ele.

— Você é a pessoa mais forte que eu conheço — ele falou, sério agora, seus olhos presos nos meus. — E eu te amo, tá?

Meu coração quase parou. Ele já tinha dito antes. Mas agora, naquele momento, com tudo o que significava, bateu diferente.

— Eu também te amo — sussurrei, me inclinando pra ele.

O beijo foi suave. Como um alívio. Como o primeiro gole de água depois de uma longa seca.

— Beija, beija! — Mason gritou, batendo palmas igual programa de auditório. Sarah o acompanhou, rindo alto.

— Cala a boca, Mason — Dylan falou, mas tava rindo também.

E ali, naquele pequeno grupo de loucos leais, eu encontrei mais que apoio. Encontrei a mim mesma.

Eu queria dizer mais. Que eles me salvaram. Que, sem eles, eu teria fugido. Que Miguel era minha âncora, Joseph meu alívio cômico favorito, Dylan meu irmão e herói e Mason e Sarah são os melhores amigos que alguém pode ter.

Eles eram minha bagunça favorita. Minha coragem. Meu riso em dias de dor.

Mas naquele momento, palavras não eram necessárias.

O silêncio era confortável. Porque, dessa vez, ele não vinha do medo.

Era paz. E era meu.

𝑅𝐸𝑊𝑅𝐼𝑇𝐸 𝑇𝐻𝐸 𝑆𝑇𝐴𝑅𝑆 - 𝑀𝑖𝑔𝑢𝑒𝑙 𝐶𝑎𝑧𝑎𝑟𝑒𝑧 𝑀𝑜𝑟𝑎Onde histórias criam vida. Descubra agora