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Miguel

Ignorar a Alicie foi, sem sombra de dúvidas, a coisa mais difícil que eu já fiz na vida. E olha que eu já pulei de paraquedas, já vendi uma moto sem saber onde ela estava e já enfrentei a fúria da Sarah com fome. Mas ignorar a criatura mais irritantemente perfeita do universo? Inferno. Puro.

E por quê? Porque sou romântico. Um idiota romântico que achou uma boa ideia planejar um fim de semana surpresa com direito a caça ao tesouro, velas artificiais, pato viajante e anel escondido. E pra isso, eu precisava fingir que não estava desesperado de saudade dela.

Spoiler: fui péssimo nisso.

Tudo começou quando o Dylan me ligou no meio da madrugada:

— Cara, ou você faz alguma coisa ou a Alicie vai te largar e fugir com o entregador do iFood.

— Que exagero. Ela só tá um pouco brava...

— Você ignorou ela por três dias.

— Era necessário! Planejamento exige foco! Mistério! Sigilo!

— Você é um tapado. Quer ajuda ou não?

Suspirei. Eu precisava mesmo de ajuda, e de uma equipe. Então juntei o esquadrão: Dylan, Emy (que quase entregou tudo no primeiro minuto), Sarah (recrutada com chantagem emocional) e Mason (que só topou porque prometi pagar as besteiras de mercado que ele ia comprar pro fim de semana).

Durante os dias de preparação, eu quase enlouqueci.

Tive que:
1. Mandar mensagens frias pra Alicie, fingindo que tava ocupado (o que quase me fez vomitar de culpa).
2. Convencer o Dylan a buscar ela sem dizer pra onde iam.
3. Cuidar do Dobby (o pato mais temperamental que já conheci).
4. Recriar nossos encontros como pistas de caça ao tesouro, com bilhetes, flores e até a pelúcia do Sullivan que tive que roubar do quarto dela com ajuda da Emy (que me ameaçou de morte se perdesse o bicho).

Na noite do encontro, minhas mãos estavam suando. O coração parecia que ia sair pela boca. E quando vi a Alicie entrando na clareira iluminada pelas velas artificiais, com aquele moletom e as tranças... Meu Deus.

Ela parecia saída de um sonho. E ali, naquele momento, eu soube que valia a pena cada panqueca queimei, cada mensagem não respondida, cada surto do Dobby, cada comentário idiota do Dylan.

E quando ela disse sim?

Eu quase chorei. Sério. Mas fiquei firme porque Sarah tava espiando atrás da árvore e eu me recuso a dar esse gostinho pra ela.

No outro dia, acordei antes de todo mundo, tentando fazer um café da manhã decente. Não consegui. Óbvio. Alicie quase me esganou, mas logo depois me beijou, então acho que ficou meio a meio.

E quando voltamos pra cabana depois da trilha, adivinha quem apareceu?

— Foram sem mim? Traidores! — gritou Joseph, saindo do mato como se fosse parte da floresta.

— Tio?! Que porra...?

— Oi! Vim ver com meus próprios olhos se panaca tomou atitude! — ele apontou mim.

Alicie olhou pra mim, depois pra ele, depois pra mim de novo.

— Se você magoar minha menina, eu te enterro no fundo da minha chácara.

Alicie parece emocionada, eu fico morrendo de medo. Não que eu planeje machuca-la, mas ameaças de morte não são algo do meu cotidiano.

Finalmente tenho uma namorada linda, um pato filho, uma aliança no dedo... e o tio maluco dela me ameaçando de morte caso eu vacile.

Assim que o povo voltou pra dentro da cabana e Dobby encontrou um lugar confortável pra se esparramar em cima do tapete (como se fosse dono do local), Joseph puxou duas cadeiras pra varanda, apontou com autoridade:

— Alicie, Miguel. Sentem-se. Agora.

Alicie me lançou um olhar de "salva a gente ou eu fujo", mas obedecemos. Porque quando Joseph fala com essa voz de "vai dar merda", até o papagaio dele fica quieto.

Ele se posicionou na frente da gente como se fosse um juiz de tribunal popular.

— Vamos lá. Primeira pergunta: Alicie já ronca perto de você?

Miguel arregalou os olhos.

— Que? — Ele engasgou com a risada que tentou conter.

— É importante. Amor verdadeiro sobrevive a um ronco de trator.

— Eu... ainda não dormi com ela assim... tipo, dormi-dormi, sabe? — eu respondo, envergonhado e apertando meus dedos.

— Bom saber. Prepare-se. Ela ronca igual uma Kombi velha subindo morro.

— Titio!— Ela estava igual um pimentão.

— Segunda pergunta. — Ele ignorou completamente. — Miguel é romântico ou só vive de gracinhas?

— Eu...

— Pensa bem, menina. Ele já te escreveu poesia? Cantou pra você? Mandou flor com bilhete?

— Ele me fez uma caça ao tesouro com nossos encontros — Alicie respondeu, agora cruzando os braços e empinando o nariz com orgulho. — Planejou tudo em segredo e ainda me pediu em namoro no meio da floresta.

Joseph arregalou os olhos. Fez silêncio.

— Olha... isso sim é plot de novela. Gostei. Muito bem, moleque.

Suspirei, aliviado. Talvez ele fosse parar por ali.

Mas é claro que não parou.

— Terceira pergunta: você ama ele?

Alicie congelou. Eu também.

Ela virou lentamente pra mim, depois olhou de volta pra Joseph.

— Isso é uma pergunta meio intensa, não?

— A vida é intensa, Lice! — ele respondeu, levantando o dedo no ar como se fosse um filósofo bêbado. — Amor não espera. Ele é bruto, é forte! — Responda, Alicie! — ele insistiu, agora parecendo um apresentador de reality show.

Ela me olhou nos olhos. O mundo parou por dois segundos. Juro.

E então:

— Acho que tô quase lá. — Alicie disse, sorrindo com um brilho tímido, mas certeiro. — Cada dia mais perto.

Meu coração deu um mortal triplo.

Joseph bateu palmas.

— Isso sim é resposta de mulher sensata criado por um tio maravilhoso! Não se joga logo! Vai construindo! Parabéns. Tá aprovado.

Joseph se virou de costas, satisfeito, e foi até a cozinha. Antes de sumir no corredor, ele virou e gritou:

— E se vocês brigarem, me chamem. Eu adoro um barraco bem feito!

Alicie e eu ficamos sentados, em silêncio, processando.

— Seu tio é... um personagem. — Eu digo, finalmente.

— Ele é um surto coletivo que ganhou forma humana.

— Acho que gosto dele.

— Eu também. Mais ou menos.

Ela encostou a cabeça no meu ombro. O sol tava se pondo devagar, pintando o céu com tons de laranja e rosa. Dentro da cabana, dava pra ouvir Dobby "quacando" porque Mason provavelmente mexeu na comida dele, e Sarah reclamando que alguém tinha comido o último brownie.

A vida tava meio caótica, mas por algum milagre do universo, tava perfeita.

A Alicie tava ali. Do meu lado.

E agora oficialmente aprovado até pelo Joseph, o Caótico Supremo.

Eu acho que tô ganhando na vida. Mesmo com ronco de Kombi e tudo.







Notas
Tava juntando pra postar junto, está acabando🩷

𝑅𝐸𝑊𝑅𝐼𝑇𝐸 𝑇𝐻𝐸 𝑆𝑇𝐴𝑅𝑆 - 𝑀𝑖𝑔𝑢𝑒𝑙 𝐶𝑎𝑧𝑎𝑟𝑒𝑧 𝑀𝑜𝑟𝑎Onde histórias criam vida. Descubra agora