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TRÊS ANOS DEPOIS

Alicie

O delineado torto era só mais um reflexo da bagunça que estava na minha cabeça.

Suspirei pela sexta vez enquanto tentava, em vão, acertar o traço do olho. O espelho não ajudava, o calor não ajudava, meu vestido colado não ajudava. E, pra completar, minha ansiedade tava sambando na minha costela.

— Tá parecendo que vai casar, não colar grau — a voz debochada da Sarah veio da cama, onde ela já estava deitada com o vestido impecável e o cabelo feito.

— Se eu fosse casar, pelo menos só precisava lidar com uma crise existencial. Agora preciso lidar com o medo de ser largada e ainda fingir que estou feliz por me formar.

— Como assim "ser largada"? — ela se ajeitou, como se tivesse sentido a gravidade do que eu disse.

— Você acha que o Miguel vai... — travei no meio da frase. Só o pensamento já me embrulhava o estômago. — Que ele pode terminar comigo?

Sarah arqueou uma sobrancelha, cética.

— O Miguel? Te largar? Você tá chapando.

— A gente nem sabe se passou pra mesma faculdade, Sarah. E se ele for pra outro estado? E se eu for? E se ele resolver que é melhor cada um seguir o próprio caminho, amadurecer separado, blá blá blá? — larguei o delineador e encostei a testa na pia. — Eu sei que é idiota, mas eu tô com medo.

Sarah ficou em silêncio por um segundo, o que era raro. Então, se levantou e veio até mim.

— Ei. Eu entendo. De verdade. Mas você tem noção do tanto que esse garoto te ama?

— Amor não segura alguém, Sarah.

— Não. Mas escolhas seguram. E ele já escolheu você um milhão de vezes, mesmo quando era mais fácil desistir. Mesmo quando você não conseguia acreditar em nada.

Fechei os olhos, sentindo a garganta fechar um pouco.

— Eu só queria que tudo ficasse como está agora.

— Só que crescer não é ficar igual, Lice. É se transformar. Mas tem coisa que cresce junto, tipo vocês dois. Ele tá nervoso igual a você, pode apostar.

Ri fraco. Do tipo de riso meio chorado.

— Não acredito que tô chorando com maquiagem pronta.

— Ainda não tá pronta, porque seu delineado tá uma tragédia — ela sorriu. — Vem cá. Senta. Eu faço. E depois você vai lá, arrasa com o vestido, finge que não tá tremendo por dentro, e segura na mão dele como quem diz "não solta, não".

— Você devia escrever livros de autoajuda — brinquei, limpando os olhos com cuidado.

— E você devia confiar mais no cara que te levou até o meio da floresta pra te pedir em namoro com bilhetes e luzes de fada.

Suspirei, dessa vez com um sorriso. Ela tinha razão. Mas ainda assim... o medo não sumia. Só ficava mais quieto.

Quando o delineado finalmente estava simétrico e o cabelo caía em ondas suaves sobre meus ombros, olhei meu reflexo no espelho. Vinte segundos em silêncio.

— Pronta? — Sarah perguntou, pegando a bolsinha dela.

— Mais ou menos.

Peguei o envelope com o nome da faculdade. Ainda lacrado. Ainda pesado.

— Vai abrir hoje?

— Talvez. Depende se eu aguentar não vomitar antes.

Sarah deu um tapinha no meu ombro.

— Você vai abrir. E vai ser incrível. E mesmo que não seja o que você imaginou, você vai dar um jeito. Como sempre.

Saímos do quarto. A vida inteira parecia empacotada dentro daquele envelope.

E o amor da minha vida estava lá fora, esperando por mim, sem saber se a gente ia andar de mãos dadas até o campus... ou até o fim da nossa estrada juntos.

Mas hoje, só por hoje, eu escolhi acreditar.

Perfeito! Aqui está a continuação: a colação de grau, o momento em que Alicie e Miguel se reencontram cheios de tensão e expectativa... até a revelação final.

O ginásio da escola estava decorado com balões dourados, flores nas extremidades da arquibancada e uma faixa enorme pendurada com letras brilhantes: Parabéns, Formandos 2024. Parecia cafona e lindo ao mesmo tempo. Como tudo que a gente viveu até aqui.

Eu apertava a mão da Sarah como se minha vida dependesse disso, o envelope ainda intocado dentro da minha bolsa. Não queria abrir sozinha. Mas também não sabia se queria abrir com ele.

E então, como se minha ansiedade tivesse ganhado forma humana, ele apareceu.

Miguel.

De terno preto, cabelo bagunçado como sempre, e aquele sorriso torto que me derretia por dentro. Ele andava com uma calma que eu não sentia nem um pouco, mas os olhos... os olhos estavam exatamente como os meus: em pânico.

Ele me viu e veio direto. Sem pressa, sem desviar.

— Oi — ele falou baixinho, parando na minha frente.

— Oi — respondi, mesmo sem ar.

— Você abriu?

Neguei com a cabeça. Ele também balançou a dele.

— Tô com medo — ele confessou, enfiando as mãos nos bolsos. — Medo de comemorar e depois ter que dizer tchau.

— Eu também. Muito — engoli em seco. — Mas, Miguel se a gente tiver que se separar...

— Alicie, eu vou te amar mesmo que a gente more em planetas diferentes. Mesmo que você decida virar nômade espiritual na Índia. Mesmo que eu fique careca aos vinte e quatro — ele sorriu fraco. — Eu vou te amar em qualquer versão da nossa história.

Eu não respondi. Só tirei o envelope da bolsa, trêmula. Ele fez o mesmo.

— A gente abre juntos? — ele perguntou, e a voz dele saiu um pouco rouca.

Assenti.

Três... dois... um...

Rasgamos.

O silêncio ao redor pareceu sumir. Eu li e reli as palavras no papel, porque não acreditei de primeira.

Faculdade de Artes e Comunicação — Aprovada

Meu coração disparou. Mas não pela aprovação. E sim porque, quando olhei pra ele...
Ele estava chorando.

— Miguel?

Ele levantou o olhar, os olhos marejados e o papel amassado na mão.

— A gente vai pra mesma faculdade — disse, num riso trêmulo. — Eu passei. Pra exato curso. Mesmo campus.

Meus olhos se encheram de lágrimas antes que eu pudesse fingir qualquer controle.

— Você tá brincando?

— Eu nunca brincaria com isso. A gente conseguiu, Alicie.

Nos abraçamos no meio da confusão de alunos, pais e gritos de comemoração. Um abraço apertado, suado, chorado. E ali, naquele instante, tudo parecia fazer sentido. Cada medo, cada trauma, cada passo até aqui.

Quando ele se afastou só o suficiente pra olhar nos meus olhos, sussurrou:

— Você é meu começo. Onde quer que a gente vá. Nós juntos vamos reescrever as estrelas.

E eu sabia. Com certeza.

Nós iríamos juntos.

𝑅𝐸𝑊𝑅𝐼𝑇𝐸 𝑇𝐻𝐸 𝑆𝑇𝐴𝑅𝑆 - 𝑀𝑖𝑔𝑢𝑒𝑙 𝐶𝑎𝑧𝑎𝑟𝑒𝑧 𝑀𝑜𝑟𝑎Onde histórias criam vida. Descubra agora