Any Gabrielly
O quarto era silencioso.
Demais.
Não como os salões do palácio em dias de festa.
Era o silêncio de quem espera uma sentença.
De quem já foi julgada, mesmo sem ouvir o veredito.
As cortinas estavam fechadas.
A luz entrava em feixes tímidos, como se o próprio sol tivesse receio de me tocar.
O chão era de mármore polido, mas parecia frio como pedra.
As paredes, antes acolhedoras, agora me cercavam como grades invisíveis.
Eu estava nos aposentos reais.
Mas não como princesa.
Como prisioneira.
Do lado de fora, dois guardas permaneciam a postos.
Não falavam.
Não se moviam.
Só vigiavam.
Como se eu fosse uma ameaça.
Como se eu já tivesse deixado de ser parte da coroa.
Fui trazida até aqui com firmeza.
Sem violência, mas sem respeito.
Como alguém que perdeu o direito de ser tratada com delicadeza.
Sentei no chão.
As pernas dobradas.
As mãos ainda manchadas.
O vestido colado ao corpo, úmido de sangue seco.
O sangue.
O dela.
Josh não veio.
Não ainda.
E talvez não venha.
Talvez ele esteja lutando por mim.
Ou talvez esteja tentando entender quem eu me tornei.
Eu matei.
E fui traída.
E agora... estou aqui.
Sozinha.
Meus pensamentos eram um labirinto.
Cada lembrança me empurrava para um canto escuro.
O rosto de Taylor.
O grito.
O sangue.
O olhar de Josh.
O sorriso de Sina.
Tudo se misturava.
Tudo me afogava.
Fechei os olhos.
Tentei respirar fundo.
Mas o enjoo voltou.
Uma onda quente subiu pela garganta.
Meu estômago se revirou com violência.
Tentei me levantar, cambaleei, e caí de joelhos.
Vomitei.
Ali mesmo.
Sem dignidade.
Sem força.
O gosto amargo na boca era só um reflexo do que eu sentia por dentro.
Tontura.
Calafrios.
Sensação de peso e vazio ao mesmo tempo.
Talvez fosse o choque.
Ou o cansaço.
Ou... outra coisa.
Levei a mão ao ventre.
Sem pensar.
Foi instintivo.
Como se meu corpo estivesse tentando me dizer algo que minha mente ainda não conseguia entender.
Mas seria impossível.
Fechei os olhos com força.
Tentei afastar o pensamento.
Ignorei.
Como uma brisa.
Como uma dúvida.
A porta se abriu com um rangido discreto.
Dois guardas entraram.
Não disseram nada.
Deixaram uma bandeja com comida e água.
E saíram.
Não se importaram com meu estado.
Com o vomito ao chão.
A comida era fria.
Sem gosto.
Sem cor.
Como tudo ao meu redor.
Não toquei em nada.
Não queria comer.
Não queria viver.
Não queria pensar.
Só queria Josh.
Queria que ele entrasse por aquela porta.
Me abraçasse.
Me dissesse que tudo ia ficar bem.
Mesmo que fosse mentira.
Mas ele não veio.
Não ainda.
E o tempo passou.
Lento.
Cruel.
A luz da janela desapareceu.
A noite caiu como um véu pesado.
E eu fiquei ali.
Deitada no chão.
Com o corpo cansado.
Com a alma em pedaços.
Adormeci à espera de Josh.
Com o resultado da minha sentença.
Josh Beauchamp
A noite já caia sobre nós.
Eu estava exausto.
Não fisicamente.
Mas por dentro.
Como se cada célula do meu corpo estivesse lutando contra o que não podia mudar.
Depois que Sina foi retirada da sala.
Para fazermos uma reunião privada.
Provei que Taylor era uma assassina.
Mostrei documentos.
Testemunhos.
Fatos.
Mas nada foi suficiente.
Any continuava sob custódia.
E agora... estava prestes a ser levada para as masmorras.
Os pais de Taylor deixaram a sala com os olhos inchados e os corações em chamas.
A dor deles era real.
Mas a justiça que exigiam...
Era cega.
Fiquei sozinho com meu pai.
O rei.
Ron.
Ele estava sentado, os olhos fixos em um ponto qualquer da parede.
Como se quisesse fugir da própria coroa.
—Josh: Eu pensei que você gostasse da Any, disparei.
Ele não se virou.
Mas respondeu.
— Ron:Eu gosto dela. Muito. Como filha.
—Josh: Você me deixaria ser punido dessa forma ?
Meu pai se calou.
Mesmo sendo impossível que eu esteja em uma situação dessas, em minha posição eu sou da linhagem mais alta e com a maior porcentagem de reino.
Nada aconteceria se fosse eu.
Mas eu queria pesar sua consciência.
Precisava que ele me ajudasse.
Com o coração.
— Josh:Então como pode deixá-la ir para a prisão? Para as masmorras? Ela é a maior vítima de toda essa história!
Minha voz falhou.
Mas minha raiva não.
— Josh:Taylor já iria morrer. Já seria condenada. Any só antecipou o inevitável.
Ron suspirou.
Pesado.
—Ron: A diferença, Joshua, é que uma coisa seria feita perante a lei. A outra... foi feita a sangue frio. Na frente de todos. Na frente dos pais dela. Na frente de Sina.
— Josh:Então se fosse em segredo, você teria protegido Any?
Ele me olhou.
Direto.
Sem escudo.
— Ron:Sim. Se fosse diferente. Se não tivesse sido exposto... eu não deixaria Any colocar os pés naquela prisão. Ficaria tudo no oculto. Ninguém precisaria saber.
Eu deveria ter matado ela.
Eu tive a chance.
Ela estava em minhas mãos.
Mas eu fui fraco.
E agora.
Estou perdendo minha amada. De novo por minha culpa.
— Josh: Mas agora...?
— Ron:Agora teremos que lutar perante a lei. Pela vida dela. Porque há grandes chances de ela ser condenada. E enforcada.
A palavra me cortou.
Como uma lâmina.
— Ron:Ela tirou a vida de uma princesa de sangue real, E isso... tem peso.
— Josh:Mas Any também é uma princesa de sangue real!,
Retruquei.
—Josh: E nosso filho... principalmente. Ele era o herdeiro do trono. Meu herdeiro.
Ron abaixou os olhos.
Como se carregasse o peso do mundo.
—Ron: Infelizmente, essa questão não está em minhas mãos. Mesmo que eu apoie Any perante toda a corte... eles decidiram o destino dela.
Silêncio.
— Ron:Está na hora de levá-la para as masmorras. Antes que os pais de Taylor façam tumulto.
—Josh: Pai... por favor. Me dê algumas horas. Só um momento a sós com ela. Antes que a levem.
Ron hesitou.
Mas assentiu.
— Ron:Vá. Mas não demore.
Saí da sala com o coração em pedaços.
Cada passo me doía.
Cada lembrança me queimava.
Eu falhei.
Pelo menos por enquanto.
Mas eu não vou desistir.
E agora...
Eu só queria vê-la.
Tocar sua mão.
Dizer que ainda estou aqui.
Que ela não está sozinha.
*****
(Até o próximo capítulo não esqueçam de comentar e votar 😌)
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A segunda esposa
FanfictionConta a história do legado da família Beauchamp, uma família de linhagem real , onde a costumes e tradições, como casamento arranjado, e entre outros sendo possível ter um segundo casamento quando a primeira esposa não gerar herdeiros. " como será...
