Na segunda, após o fatídico final de semana, o assunto continuou sendo o ENEM. O gabarito não-oficial tinha saído e todos estavam comentando sobre quantas questões tinham acertado e quantas tinham errado. Não que isso fizesse alguma diferença, pois o sistema de contagem de pontos do exame era muito diferente e bizarro, pontuando cada questão com um peso diferente, que não sabíamos previamente. Não havia razão para ficar se preocupando com essa quantidade de acertos, então eu resolvi nem mesmo checar minhas respostas. Tentar manter a calma era difícil, mas estava me trazendo bons frutos (pelo menos minha dor de cabeça tinha sumido). Os resultados ainda demorariam meses para sair. Tudo indicava que eles só fossem ser liberados no final de Janeiro e, sinceramente, eu é que não ia ficar sem dormir por todos esses meses.
Como era de se esperar, o efeito-ENEM se dissipou com o final da semana e a paz voltou a reinar entre meus colegas. Bem como as fofocas escolares...
— Kate? - uma menina do primeiro ano me chamou, olhando pelo espelho, enquanto eu lavava minhas mãos no banheiro. - O que aconteceu com você e com a Mariana? Ouvi que ela está saindo com o Roberto? Que eles estão tipo namorando agora? Ele não é seu ex-namorado e ela não é sua melhor amiga? Amigas como essa, hein, que horror?
Juro. Dessa exata maneira. Como se todas as frases proferidas fossem perguntas. Fechei a torneira, encarando-a pelo espelho. Para falar a verdade eu nem lembrava o nome daquela menina, então não entendia porque pra ela minha vida parecia tão interessante.
— Olha, eu não estou sabendo de namoro? Ela ainda é minha melhor amiga e eu estou cagando pra ele? Se quiserem namorar sejam felizes? Não tenho nada contra e nem vou impedir? Pode sair da frente agora? Obrigada?
Se ela percebeu que eu estava zoando a forma dela falar, não disse nada. Apenas deu um passo para o lado enquanto eu terminava de secar as mãos e saía em retirada. As perguntas-afirmações da menina apertavam meu coração e eu tinha medo, muito medo mesmo, de que os rumores fossem verdade. Ainda assim, não conseguia confrontar Mariana. Se ela estivesse namorando Roberto teria me contado, certo? Se ela tivesse sequer beijado Roberto teria me contado, certo? Por que ela não me fala nada? Somos melhores amigas! CERTO?
Passei a semana inteira tentando me convencer que eu deveria falar com ela. Talvez tenha sido dura demais quando a perguntei sobre a história dela ser tutora dele. Talvez ela tenha achado que eu ainda nutria algum tipo de sentimento por ele e tenha resolvido se afastar, para entender melhor o que sente. Talvez ela ache que eu tenho tanto ódio dele que, no final das contas, vou ficar com ódio dela também...
Tudo isso passava pela minha cabeça enquanto encarava sua nuca todos os dias na semana seguinte ao ENEM enquanto voltávamos da escola com Caio. Todos os dias eu abria e fechava minha boca, como se estivesse louca para perguntar, mas algo me impedia. Não era Caio, ainda que ele fosse um grande impeditivo (não conseguia nem imaginar o que ele faria com Mariana se os rumores fossem verdadeiros. Jogá-la para fora do carro em movimento era uma opção bem plausível). O que me impedia era meu medo de saber a verdade.
Na sexta-feira decidi tentar, mas quando nossa última aula acabou, ela girou-se na minha direção e disse:
— Hoje não vou voltar para casa com vocês.
Simples assim. Sem justificativas.
— Ah! Pego um ônibus para o trabalho, então?
— Não, não. - ela sorriu. - Meu irmão vem te buscar, mas eu já avisei a ele que vou ficar.
Assenti, jogando a mochila nos ombros.
— Mariana, posso te perguntar uma coisa?
— Precisa ser agora? - ela disse, olhando para o relógio. - Estou com um pouco de pressa.
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Tiete!
Roman pour Adolescents"Mariana é minha melhor amiga desde sempre. Provavelmente quando nós duas estávamos na barriga de nossas mães já tínhamos um dialeto próprio e passávamos horas conversando. - Então a fofoca é que Alex está cotado para fazer um filme novo que vai ser...
