Capítulo 10

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Ver Rubens me deixa aflita, com certeza o que vem dele não é bom. Eu tento sair como se não o conhecesse, antes que ele me perceba. Mas foi em vão, porque ele me vê!

- Você pensa que vai aonde mocinha? Eu pensei que você tinha entendido mas agora percebo que não. Você foi falar o que para a MINHA mãe? Não te avisei pra ficar quietinha pirralha? Já ouviu falar que para toda ação existe uma reação? Então agora você tem que pagar por sua ação! Ninguém te contou que boca em fechada não entra formiga?

Ele sai da moto e me pressiona contra a parede do murro. Passa suas mãos nojentas sobre minhas coxas e quando eu grito levo um tapa na cara com tanta força que sinto melar o sangue, me remexo tentando o afastar mas é inútil, ele é tão forte que não sou capaz de lutar contra ele. Mas também não facilito para ele, me debato na esperança de conseguir fugir. Então numa tentativa de me parar ele tenta me beijar e de repente sinto algo o tirar de mim, vejo João ali aos socos com Rubens que nem se defende, João me pede para sair, na verdade não consigo nem raciocinar direito diante do que está acontecendo mas saio em disparada, em poucos minutos chego em frente ao portão da casa, fico aqui, não posso entrar nesse estado. Logo em seguida João vem e ainda bem que não está machucado mas com sempre pode piorar, Rubens vem em nossa direção em cima da moto, se aproximando de nós, com a arma ele dispara contra João o acertando no braço. Eu nunca vi nada parecido, isso quase me deixa quase louca e tudo que posso fazer é gritar. Mas João me pede silêncio e me leva para uma pequena sala que ainda não tinha visto, ele cuida com delicadeza do meu nariz e depois tira sua camisa cheia de sangue, acho que esse homem não tem defeito. Cuida do seu ferimento e me pede segredo sobre o que aconteceu, ele queria saber quem é e nada mais justo de que contar a verdade.

- Rubens!

- Se eu soubesse que era esse desgraçado, teria batido mais nele. Pelo menos ele não te machucou. Ele me abraça e sinto tantas coisas dentro dele.

Um abraço tão apertado que se tivesse algo quebrado em mim, teria se colado novamente apenas pelo seu abraço, e que abraço gostoso. Eu realmente precisava disso.
Disfarçadamente entramos e vamos em direção aos quartos, a princípio estamos sujos de sangue. Em questão de quinze minutos já estamos sentados a mesa jantando.

Foi muito complicado e acabei me atrapalhado com todos aqueles talheres mas de alguma forma me senti em minha própria casa, eles pareciam não se importar e nem se ofenderam se utilizei algum de forma errada. A família de João por mais bem de vida que fosse, são humildes, uma coisa bem rara de ver.
Assim que o jantar termina, vou para meu quarto, me olho no espelho vejo meu rosto, é visível a palma de Rubens marcada. Que mão pesada. Sento sobre a cama chorando, por tudo isso acontecer dessa maneira comigo. Por minha vida ser uma mar escuro de coisas ruins sem fim. Eu só quero ser normal como qualquer outra pessoa. Apesar de todas as coisas ruins que já aconteceram em minha vida, Deus sempre esteve me cuidando não deixando o pior acontecer comigo.
Acordo com João me cobrindo.

- Oi pequena, pode dormir. Acabei passando para te ver como estava mas te encontrei dormindo. Me desculpa por qualquer coisa.

- João dorme aqui comigo? João se encaixa em baixo das cobertas e me abraça.

Tento não me mexer para não machucar seu braço, acredito que isso possa doer muito. Quero apenas passar a noite dentro do seu abraço, isso me acalma. Não sei dizer o que estou sentindo por ele, pois eu nunca senti nada parecido, claro que gratidão acima de tudo, mas não é só gratidão, algo nele me cativa a querer estar perto, seu jeito é diferente ao me tratar, me faz sentir igual ela mesmo tendo uma tremenda diferença entre nós.

João fica fazendo carinho nos meus cabelos até que eu adormeça.

*

- Ai, ai, ai,Joãozinho! Sabia que tinha algo rolando entre vocês mas vim me despedir já está na hora de ir e como não te achei em lugar nenhum...Ouço Bella falar.

- O que é irmã? Não é nada disso que você está imaginando. Mas enfim, eu não vou ficar me explicando, você já tirou suas conclusões. Então boa viagem, quando chegar me avise. Tem certeza que não quer que a leve até o aeroporto?

- Tenho João, eu te ligo e se cuida. Vou morrer de saudades, beijos. Eu escuto tudo mas finjo dormir.

É tão bonito a forma que eles se tratam, o amor e respeito que tem um pelo o outro. Eu nunca vou saber como que é ter um carinho de irmão desse jeito. Nem conto o Rubens. Também nunca soube se meu pai ou minha mãe tiveram outros filhos, afinal eu nunca os conheci.

Um pouco mais tarde, Ana abre as cortinas da janela, liberando todos raios de sol.

- Vamos mocinha, ta mais no que na hora de levantar.

- Bom dia Ana, você pode trazer o café aqui no quarto? João responde. Eu nunca vou esquecer a cara de espanto que ela faz.

- Bom dia senhor João, desculpa se atrapalhei seu descanso, não vi que o senhor estava no quarto da novata, já trago o seu café senhor.

- O nosso café, Ana! Ana não pareceu gostar de mim, não sei porque.

Mas enfim, ela tem seu trabalho e eu estou aqui para o meu. Ao levantar minha cabeça de seu peito, o sangue do ferimento passa pelo curativo. Enquanto fui no banheiro que é ao lado, João sai mas volta logo com um novo curativo. Ana chega com uma bandeja enorme. Eu nunca tive um café da manhã tão farto, o bom que assim eu posso saber o que ele gosta de comer.

- Como não sei o que a mocinha prefere, trouxe o dobro de tudo o que o senhor consome pela manhã. Ela me olha com desdem.

- Perfeito Ana, obrigado.Quero que não esqueça que mocinha se chama Maryah!

Ela se retira e então podemos tomar nosso café. Vitamina de morango, torrada com queijo branco, geleia de damasco e salada de frutas. E agora entendi o porque ele falou da salada naquele dia que dormiu comigo no consultório.
Sei que João fez essa cena agora de manhã, para por Ana no seu lugar mas não quero causar problemas aqui, nem intrigas com ninguém. Nesta casa eu sou uma empregada como qualquer outro. Sempre serei grata por essa oportunidade que ele está me dando.
Terminando o café, Luíza entra no quarto, abraça e beija esse pai, é tão bonito o amor entre pai e filha. Eu queria muito ter conhecido o meu. Levo ela para o seu quarto, dou um banho, coloco uma roupa limpinha e cheirosa, escovo seus cabelos longos e faço uma trança. O dia foi tranquilo e João apesar do incidente da noite passada não parou em casa, passei o dia todo cuidando da pequena Luíza e sendo observada pelos olhares de Ana, que não fazia questão nenhuma de esconder sua implicância comigo.
João chega para o jantar e assim podemos conversar.

- Maryah devido ao que aconteceu, decidi levar você e Luíza comigo amanhã para a palestra. Acho melhor não arriscar. Então arrume uma mala pequena para vocês, com roupas para uns três dias, roupa leve pois vamos para Balneário, ficaremos no hotel de um amigo meu.

João não está com um humor muito bom, somente concordei sem fazer perguntas. Assim que a janta terminou coloco Luíza para dormir e volto para meu quarto. No fundo estou eufórica, é a primeira vez que vou sair de Curitiba e também a primeira vez que vou ver a praia. A verdade é que ultimamente minha vida está cheia de primeiras vezes.
Hoje foi mais uma noite daquelas em que o pesadelo se faz presente, mas dessa vez foi mais intenso me fazendo acordar gritando e chorando. Leva um tempo até que perceba que está tudo bem porém tarde suficiente para não acordar João.

- O que foi pequena? O que aconteceu? Acordei assustado com seus gritos. João aqui no meu quarto só de cueca, todo preocupado comigo com a cara de sono, é perfeito.

- Só um pesadelo mas fica aqui comigo?

- Não podemos confundir as coisas, não posso ficar sempre aqui com você mas hoje fico só até você dormir. Pra mim era mais do que suficiente.

Adormecemos um do lado do outro, e mesmo dizendo que ia ficar só até eu adormecer, acho que não deu muito certo pois foi ele quem dormiu primeiro. Dormir ao seu lado é maravilhoso, sentir seu corpo, o subir e descer do seu peito, ouvir as batidas do seu coração, seu cheiro embriagador, sua respiração...

Não sei se foi verdade ou se era só mais um sonho, mas vi um pessoa na porta do meu quarto e quando ligo o abajur no criado mudo, não vejo nada. Deveria ser mais um pesadelo, João também acorda.

- Se arrume e a Luíza também, vamos ir agora cedo porque é melhor! Será que vou gostar de Balneário?

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