Capítulo 21 - João

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Tive uma noite maravilhosa com ela, fui meio precipitado, talvez devesse esperar mais um pouco mas eu queria tanto tê-la em meus braços, tê-la por completo, senti-la minha e ter a certeza que tudo que ela fez por mim, não era apenas gratidão.
Não sei dizer se ter dado a ideia de tratamento por hipnose foi a escolha mais certas, porque além de mexer num passado delicado, acabei ouvindo coisas que talvez eu não gostaria de saber, pelo menos não vindo de Maryah. Isso me comove de uma forma que mau consigo terminar a sessão.

*

Ter Bella aqui é como se a alegria da casa estivesse de volta. Bella sempre foi minha única família, a casula, minha lembrança viva dos meus pais.
Assim também me ajudará nessa nova etapa da minha vida pois quando deu essa reviravolta ela estava do outro lado do país, eu não ia ter como esconder, nem precisou porque ela logo percebeu.
Conversamos muito sobre meu suposto casamento, com validade, e sobre a viagem dela de volta, sobre ficar e como as coisas devem ser daqui em diante.

*

Sei que me comportei de uma forma estranha com Maryah, pensei num jeito de pedir desculpas então a levei num jantar romântico mas depois da nossa primeira noite de amor, me descuidei e tenho que poupá-la de alguma forma, pois o adulto aqui sou eu e a responsabilidade é minha, nessas condições a pilula do dia seguinte é o melhor método.
Maryah, é quase uma jovem, teve dificuldades e eu só quero ser aquela coisa boa que vem do nada e fica pra mudar a vida pra sempre.
Em todos os momentos quis tratar ela da forma que merecia, eu reparava cada detalhe, cada movimento, cada sorriso e mesmo parecendo nervosa, ela é a mais linda nesse lugar.
A volta, não foi tão interessante assim.
Ela bebeu demais, e dormiu até chegar em casa. Nesse trajeto pude perceber o quanto Maryah é uma menina indefesa e que precisava de mim por perto, eu faria tudo que estivesse ao meu alcance para proteger e cuidar.
A levo no colo até o quarto, depois de passar mau. Eu a banho e a visto, passo a noite toda ao seu lado, admirando cada traço seu, seus lábios, seu nariz, sua pele macia, o cheiro gostoso que vem da sua pele, seguro em suas mãos até adormecer.
Me levanto cedo, vou para sala de acadêmica, passo mais ou menos uma hora, meus pensamentos a todo vapor, vou para cozinha preparo uma bandeja de café da manhã, talvez Maryah precise ser um pouco mimada, depois da noite que tivemos. Aliás hoje é ceia de natal e quero ver ela feliz.
Ela já está acordada mas consigo fazer a surpresa, fico com ela e dou um comprimido caso ela venha ter algum tipo de dor.
Comento sobre a ceia, percebo uma leve tristeza, e faço ela contar. Saudade dos pais, até mesmo eu sinto falta dos meus pais, mas infelizmente eu não posso fazer mais nada por eles, mas Maryah pode e eu vou fazer por ela.
Vamos até a casa deles, eu fico no carro esperando, afinal os pais de Maryah não estão cientes do nosso casamento, apenas sabem que ela é minha protegida, acho que umas três horas se passaram e eu já estava cansado de esperar e resolvi por ir até lá, chamar ela. Estava preocupado com a ceia, afinal acabei deixando tudo nas mãos de Bella, que ainda estava cuidado da minha princesinha.
Na porta uma leve surpresa, Maryah não me deixa ter nenhum tipo de intimidade com ela, sendo super formal mas sei que é pra proteger seus pais. Convido eles também para passar uns dias conosco, assim talvez seria mais fácil de explicar como tudo aconteceu.
Maryah passou a tarde com a mãe, eu passei com seu pai pescando no nosso lago.
São pessoas humildes, batalhadoras.
Pai de Maryah, me conta como foi encontra-la e as dificuldades que passaram, mas Maryah foi uma salvação para eles. Falou também de Rubens, do orgulho de ter um filho, como ele era bom...
Mas acredito que só eles viam essa parte boa em Rubens.

*

Bella com todo potencial faz uma decoração maravilhosa, flores, velas...
A mesa extraordinária, peru, arroz à grega, vinho...
Foi uma ceia gostosa, não só pela comida ou pela conversa agradável mas pelas companhia até porque a muito tempo não passávamos com a mesa completa, finalmente a família reunida, minha nova família.
Bella foi dormir com Luíza antes mesmo do jantar terminar, antes que os pais de Maryah fossem se deitar também, entreguei duas sacolas a cada um com presentes.
Maryah, contou para sua mãe sobre nós mas com o pai seria mais complicado e precisava de tempo, por isso fui as escondidas dormir com ela.
Com carinho e com muito cuidado, a tive em meus braços novamente mas agora foi diferente, parecia ter um pouco mais de entrega. Acabei cochilando em seu quarto mas acordei cedo para sair sem que ninguém perceba, depois de muitas declarações, o que mais temíamos aconteceu. Pai de Maryah, me derruba no chão e queria explicações ao nos ver abraçados, antes que qualquer um de nós pudesse falar algo, ele passa mal, eu o levo para meu quarto e o examino, um leve infarto. Eu poderia levá-lo ao consultório mas o melhor mesmo era levá-lo para o hospital. Enquanto Maryah e sua mãe vão até na casa buscar o que é necessário.
Eu consigo internar ele imediatamente mas como não foi nada mais grave, precisa tomar remédios e ficar em observação por dois dias. Maryah está demorando demais e isso começa a me preocupar. Quando do nada Ulisses entra com uma moça no colo, pra mim é indiferente até perceber que é Maryah.

- O que aconteceu com ela? O desespero me consome. Tem que haver uma explicação para o que aconteceu.

- Senhor eu não sei, ela entrou na casa para pegar alguma coisa e como estava demorando fui ver, quando achei, ela estava assim. Não tinha mais ninguém com ela na casa.

Maryah, é internada as pressas, estava desacordada pois perdeu muito sangue, seria preciso transfusão.
Não saio do lado dela nenhum minuto, esperando sair o exame dela para a transfusão, sangue AB negativo. Puta que pariu!
O sangue mais difícil de se encontrar! Eu até posso ajudar, sou B-, mas nesse caso é melhor o mesmo tipo sanguíneo. Não pode correr o risco de ter alguma reação. Como é adotada seus pais não devem ter o mesmo sangue, não custa nada perguntar, mas é O+.
Eu não conheço ninguém, a buscar por sangue começa, peço a todos meus amigos e conhecidos mas a maioria é O+. Maryah passou a noite toda inconsciente, o dia vem amanhecendo e eu continuo na luta. Descido ir para delegacia fazer a denúncia e depois ir até em casa e tomar banho, para voltar depois ao hospital. Em casa comento o que aconteceu, Ana me olha assustada.
Enquanto espero por alguém que possa doar, a mãe de Maryah fica do lado dela o acompanhando, vejo Rubens andando pelo hospital, provavelmente já sabe o que aconteceu com o pai, ou será que ele tem alguma coisa a ver com o que aconteceu com Maryah?

Mas se foi ele, eu mesmo vou fazer ele se arrepender.
Quando volto ao hospital Rubens sai do quarto de Maryah e vai ver o pai. Queria tanto que Maryah me respondesse, me sinto tão culpado pois fui eu que a mandei ir lá.

- R U B E . . .

Sabia lá no fundo que ele tava metido nisso, só preciso que ela se mantenha acordada.
Ligo para a polícia e vou até o quarto do pai dela, a raiva me cega e jogo toda a verdade na cara de Rubens e seu pai fica sem acreditar no que ouve, não aceita e Rubens não tem nem a capacidade de negar ou se defender. Parto pra cima com socos enquanto os aparelhos apitam, seguranças entram para separar, médicos e os polícias entram no quarto, algemam Rubens e vão o levando, nesse tumulto até esqueci que o pai de Maryah estava internado, e saber de todas essas coisas foi demais para seu coração.
Me senti culpado, pois eu não me contive, falei coisas pesadas e agredi seu único filho. Mas uma hora ele precisaria saber da verdade.
Mãe de Maryah me abraça descontrolada, pelo falecimento do marido e pela prisão do filho, sua filha em uma maca de hospital dependendo de uma transfusão.
Olho para o quarto onde Maryah está e vejo sua expressão de assustada, até que seus olhos se fecham. O médico que está cuidando de Maryah vem rápido ao nosso encontro.

- Bom dia João, sinto muito pelo o que aconteceu mas tenho três moças para transfusão, e um rapaz. Vamos fazer isso imediatamente.

Jamais eu imaginaria que eles viriam de outra cidade para ajudar. Gilmar e Angel, Angel será a doadora mas isso nem de longe me surpreendeu, mas sim Ana, a empregada. Helena uma antiga conhecida e Ulisses também.

- Obrigado Ana, sei que você nunca se simpatizou com ela mas será de uma ajuda muito bem vinda. Eu ainda não confio na boa vontade de Ana.

- O melhor casal, depois de mim e Maryah. Quanto tempo, só tenho que agradecer por vocês terem saído de outra cidade. Quero que fiquem na minha casa. Tenho um casal de amigos que valem pra vida inteira.

- Ulisses você é muito mais que um funcionário, é um amigo ... Ele está na família desde os meus doze anos. Faz bastante tempo.

- Helena, quantos anos que eu não te vejo. Pensei que você nem estava mais no país, senti tanto quando... Mas obrigado por fazer isso por mim, mesmo não merecendo. Ela me abraça tão forte que até acho estranho.

- Miguelzinho, você não teve culpa do que aconteceu naquela época. Sabe que tenho um carinho enorme por você...

Angel e Helena foram as primeiras, elas entraram numa conversa que as deram uma grande afinidade, pareciam que elas tinham algo em comum. Elas me lembram Maryah de alguma forma. Isso é muito estranho, porque uma é morena mas tem feições parecidas, a outra é loira bem parecida, mas eu vou desvendar ...
Agora podia descansar de alguma forma em saber que Maryah vai ficar bem. Pelo outro lado, tenho que ajudar a mãe dela com o velório e enterro do marido, vou dar todo apoio que for necessário.
E Rubens, não me importa se é filho, eu não vou mover uma dedo para ajudá-lo. Eu não pretendo facilitar a vida dele...

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