Capítulo 35 - João

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Desde o dia que fiz aquela maldita seção de hipnose, no fundo eu sabia que o terror de Maryah fui eu. Eu apenas não queria acreditar.
Realmente é algo que eu não me lembro e o pior é que com tantas pessoas aqui em Curitiba foi justamente Maryah?!

A pessoa que está ao meu lado hoje e por algum motivo maior, eu à amo, amo mais que a minha própria vida, eu sou o culpado e isso me arranca lágrimas. Choro de dor e arrependimento. Não é possível voltar atrás e consertar. É inútil saber que não podemos controlar nossos erros. É inútil saber que não dá pra voltar atrás e corrigir algumas coisas passadas. Esse peso dos erros do passado é imenso. Posso observar que não tenho como voltar atrás, e sim, conviver com esse fardo por toda vida.

Nem sei qual será sua reação, eu não quero perder ela. Não estou preparado para contar a verdade vê-la ir embora pelo meus dedos por coisas que mesmo fiz. Essa culpa é crucificante.

Posso tentar dar a ela todos os motivos para me amar, para ver como sou bom e quando quero que ela seja feliz. E o dia que ela finalmente descobrir, espero que o amor seja maior que o ressentimento, a magoa e a dor que um dia causei. Se eu causei tanta dor, posso causar amor na mesma proporção.
No começo foi um tanto que difícil de encarar ela, sabendo de toda a verdade mas foi preciso para que ela permanecesse ao meu lado.
Apesar de Maryah ser muito jovem, a inocência dela me cativava, a forma em que ela vê o mundo com esse seu jeitinho de menina me fez se apaixonar mais e mais. Me sinto atraído com seu jeito carinhoso e delicado, ela tem tudo que desejei, a moça perfeita que sempre sonhei.
Nossas almas se encaixam e queimam feito fogo, nossos beijos são o combustível , fazendo um incêndio de amor.
Passei a me acostumar com sua presença e estar ao seu lado era o suficiente para me fazer feliz.
Nosso natal deveria ter sido feliz mas eu fui precipitado, não soube esperar e aconteceu toda aquela tragédia, primeiro com o pai dela e depois aquele ataque de Rubens.
Já estava sendo difícil encarar a situação do pai dela e se algo pior acontecesse com ela, seria como perder o meu chão, o ar, a minha vida. Meu mundo dependia dela e foi naquele momento em que quase a perdi que pude ter certeza do quanto eu a amava. Não pude salvar o pai dela mas faria tudo o que estivesse ao meu alcance para salvar ela.
O que eu não poderia imaginar é que meu passado fosse bater na porta nesse momento tão delicado. Eu sabia que com ele traria toda a verdade que eu escondi por esse tempo.
Hellena, estava na cidade por algum motivo pessoal, como ela mesmo disse não ficaria por muito tempo, serei eternamente grato por ter doado sangue e ajudado a salvar a vida da minha mulher, não sei qual era suas verdadeiras intenções, mas com isso, ela fez por mim o que eu não pude fazer por ela no passado. Ela se mostrou tão bem dispostas a ajudar que não vi nenhuma sombra de maldade...
Mas como no passado, ela não abriu mão da ideia de que um dia eu pudesse ter algo a mais com ela, quando ela fez o que fez dentro da minha própria casa enquanto Maryah se recuperava, e mesmo assim Maryah ainda viu e sem me deixar explicar eu me senti mais culpado ainda. Eu estava disposto a contar toda a verdade de todo o meu passado e de todas as coisas que descobri, mas se recusou a me ouvir.

Talvez não fosse a hora ainda de contar a ela toda a verdade. Depois dessa cena sofri as conseqüências, Maryah passou a me ignorar completamente, passei a sentir falta de conversar com ela, de estar perto, muitas vezes durante a noite eu ia até seu quarto, ficava vendo a dormir e em todas elas desejei estar do seu lado. Quando não aguentei mais essa tortura de estar embaixo do mesmo teto e não poder fazer nada, passei a ficar no consultório.
De uma certa forma era muito triste pra mim, ver que Maryah já não queria minha companhia, que tudo o que fiz durante esses meses na intenção de aproxima-la mais de mim, não resultaria em nada mas por outro lado, só ali eu tinha um pouco de paz.
Ainda tinha que lidar com as ligações e mensagens de Hellena, em nenhum momento ela parou de me assediar, ainda fazia chantagens que se eu não a respondesse voltaria para Curitiba somente para fazer uma visita para mim, e o que Maryah iria pensar disso?
Tentei escapar e fugir dela de todos os jeitos sem a ofender e sem complicar ainda mais a minha situação com Maryah.
Um determinado dia com muita saudade voltei para casa, cheguei cedo e ela não estava então pensei que seria mais tranquilo, quando terminei de tomar meu café, Maryah chega, prepara uma bandeja e sem me cumprimentar ou me olhar ela sai da cozinha.

A bandeja cai e seus gritos se ouvem por toda a casa, meu coração ficou tão apertado, pensei que algo tivesse acontecido com ela. Corro ao seu encontro e ela estava vindo ao meu, a abracei e ela gaguejando disse que sua mãe estava mau. Foi difícil para mim ter que dar a notícia que sua mãe também partiu, foi muito mais difícil para ela aceitar, perdeu seus pais em um curto espaço de tempo, tão parecido com minha história mas ao contrario de mim que não tinha alguém em meu lado, eu vou estar ao seu.
Depois do velório, delegado me informou que Rubens tinha fugido, eu sabia que ele viria atrás de Maryah, e a única forma que consegui encontrar de impedir que algo acontecesse, foi sair fora do estado.
Quando eu era mais jovem antes de ir para Londres, fiquei 2 meses no México e conheci muitos lugares e posso dizer que de todos os lugares que eu já fui, México é um paraíso na terra.
Levei Maryah nos lugares que eu achei mais bonito, claro que teria muito mais, só que tínhamos pouco tempo.
Hellena voltou a perturbar, e agora que eu e Maryah estávamos nos entendendo, não ia permitir que ela voltasse a ser motivo de nossas brigas. O delegado também não parou nenhum dia, fiquei preocupado que Maryah descobrisse o motivo de tanta ligação, não sei se ela percebeu ou se simplesmente não quis tocar no assunto. Mas não queria que ela se preocupasse com ele.
Esse jeito dela é algo que eu admiro muito, ela sabia se preocupar mas ao mesmo tempo dando espaço que eu precisava.
Fiz aquela cena de ciúme porque Maryah estava dançando com outro, ou melhor porque o rapaz aproveitou o momento em que eu não estava para se aproximar dela, sei que foi precipitado e me senti culpado pela cena, também porque a deixei sozinha em um lugar onde não conhecia nada nem ninguém, nem o idioma. Fiquei preocupado sabendo que algo poderia ter acontecido, se ela não estive mais lá, eu não saberia onde procurar.
Quando a vi entre as águas, que já estavam em sua cintura, não me acreditei que ela teria coragem de se matar. Ela tinha acabado de passar por um momento muito difícil e eu deveria apoiar e cuidar dela. E só Deus sabe o que seria de mim se ela não estiver mais ao meu lado.
Conversamos sobre o que fazer quando voltássemos para Curitiba, informei sobre meu novo trabalho no hospital, não que eu quisesse ganhar mais dinheiro mas porque ganhar mais experiência e lá na frente realizar outros projetos.
Os dias que passei no México com Maryah, foram os melhores que já tive. Aproveitei para fazer uma surpresa que já estava querendo a muito tempo. Nos últimos momentos levei ela a catedral, minha família sempre foi muito religiosa, e antes de qualquer coisa queria me confessar porque depois do susto que ela me deu, vendo a cicatriz, eu precisava desabafar. Procurei o padre.

- Padre, algum tempo atrás, tive alguns problemas e me embriaguei, estava completamente fora de mim, fui levado e traído pelas emoções e fiz mau a uma moça. Os anos se passaram, muitas coisas aconteceram, de um jeito muito estranho conheci uma jovem, nos casamos e nos apaixonamos.
Depois de um tempo acabei descobrindo que minha mulher é a moça a quem fiz mau.
Sei que deveria contar a ela toda a verdade, mas tenho muito medo da reação dela, não quero correr o risco de ser abandonado, eu a amo mais que a mim mesmo, daria minha vida pela dela, me arrependo profundamente pelo o que aconteceu. Não consigo falar sem derramar algumas lágrimas.

- Meu filho quando o arrependimento vem do fundo do nosso coração, quando é um arrependimento verdadeiro, Deus nosso pai, ouve e perdoa.
Agora, você tem que obter o perdão dessa moça, você está enganando ela, conte a verdade e se ela te amar de verdade não vai te abandonar. Não esqueça que a mentira destrói mas a verdade sempre tem o poder de salvar.

De uma certa forma eu abri meu coração e a pedi em casamento ali mesmo na catedral.
Agora dizer a ela que o responsável pelos pesadelos dela sou eu, não está nos meus planos, eu não tinha essa coragem ainda, Maryah é tão imprevisível que não quis arriscar.
O delegado tinha acabado de informar que Rubens foi capturado, estava tudo em ordem e agora era hora de voltar para casa.

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