Capítulo 34

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Aos poucos vou arrumando o quarto, com decoração de cor branca e caramelo, escolhi a dedo cada peça, desde berço, roupeiro, cômoda e etc...

Deixei preparada também as bolsas. Quando o bebê resolver nascer, já estará tudo pronto.
Com 36 semanas minhas pernas começam a inchar, minhas costas a doer, não consigo mais me abaixar e pra tomar banho mão vejo mais meus pés. Todas as noites é uma batalha terrível para conseguir dormir, até aqui já engordei 14 quilos e minha barriga tá enorme mais algumas semanas pra mim conhecer esse rostinho.

Fico para na janela do quarto do bebê, apreciando o pôr do sol enquanto acaricio a minha barriga e os pensamentos fluem.

Quando descobri a verdade, eu não quis acreditar que a pessoa que mais amava poderia ter feito aquilo comigo, por isso que fugi. Foi a única forma mas acabei perdendo tudo que conquistei, apesar disso, me modifiquei e fiz minha vida aqui, hoje trabalho e estudo.

Eu aprendi a viver por mim, sem depender de ninguém do jeito que João disse que queria, que eu fosse independente, só que me tornei assim, longe dele.

Me arrependo de não ter ouvido os conselhos de Angel, por não ter voltado atrás naquele momento, de não ter ouvido a versão dele, a dor ou o desabafo dele. Simplesmente criei minhas conclusões e fugi sem dar a ele o direito de defesa.

Se eu tivesse o perdoado, talvez agora estaríamos felizes pela construção da nossa família.
Muitas vezes quando via os casais na rua me sentia meio que constrangida, eu tinha um marido perfeito e muito bom comigo, por orgulho deixei tudo pra trás, sempre pagando caro pelo meu jeito compulsivo de lidar com as coisas.

No começo sofri para dormir, tinha noites que passava em claro esperando por João, senti falta dos seus abraços, dos bom dia com café na cama, foi difícil me acostumar que ao acordar eu não veria mais seus olhos...
Eu sempre pensei que os filhos deveriam crescer perto dos pais mas quando eu fui embora não sabia da existência do meu filho, não posso sentir culpa por isso. Não por algo que eu não fiz.

João foi sempre um ótimo pai para Luíza, sei que não seria diferente com o nosso filho.
Se Deus ainda me ouve, quero pedir mais uma chance pra recomeçar com João. Eu não sei o que se passou com ele todos esses meses, nem sei qual será sua reação ao saber da gravidez, talvez ele não me perdoe por ter fugido, não ter lhe contado sobre o nosso filho mas ele é o amor da minha vida, só eu sei a tristeza que foi passar todo esse tempo longe, eu aprendi com o sofrimento, eu sinto tanta a falta dele...
E se eu o procurar? Mas se ele continuou a vida dele sem mim? Eu fiz uma escolha, tenho que aceitar as consequências.
Pego meu celular e procuro pelo número de João que dá direto na caixa posta então pego o da casa e ligo rapidamente, um homem atende quando estou a ponto de desistir.

- Boa noite, quem deseja?

- Boa noite, desculpe ligar tão tarde é que eu queria falar com o João Miguel ou com a esposa... Tenho que me fazer de louca para saber o que preciso.

- Desculpe senhora mas faz pouco tempo que eles se mudaram.

- Tudo bem, obrigado. Claro que João não ia ficar sozinho por muito tempo, ele é tão bonito, simpático, cavalheiro, carinhoso. Tem aquele jeito dele que sempre chamou a atenção e imagina depois que eu o abandonei...

É uma realidade cruel, tento me conformar, talvez não é pra ser mesmo. É engraçado pensar nisso mas ele sempre dizia me amar. Logo arrumou outra, que tipo de amor é esse?
E eu que mantive todos esses meses me afastando de qualquer tipo de aproximação mau intencionada dos homens.
Dormi muito mau, os pensamentos envolvendo João ficaram me atordoando a noite toda, o bebê também não parou nenhum momento de se mexer. Ainda tive que sair de casa cedo, tinha uma última consulta e como a gravidez está me cansando demais, vou de carro.
O doutor disse que está tudo na mais perfeita ordem, é só esperar, e que se eu sentisse alguma coisa é pra ligar urgente pra ele.

- Ainda não está em tempo de nascer, ele não está na posição, na verdade o bebê está mau posicionado e caso aconteça dele vir ao mundo antes do tempo você terá que fazer uma cesárea. Mas qualquer duvida me procure.

Conversamos bastante e ele me aconselhou a trancar a faculdade desde agora, pois se eu deixar pra última hora vai dar muito trabalho. Já é bom ir poupando os esforços, evitar ficar saindo sozinha.
Saio do hospital e vou para a faculdade, conversei com a direção e explico o meu caso, eles me deram todo o apoio, e falaram que quando eu quiser retornar, as portas estarão abertas.

- O senhor João Miguel deve ser notificado que o pagamento do seu curso não será obrigatório durante esse tempo?

- Pode explicar melhor? Digo confusa e sem entender, o que ele em a ver com isso?

- Sua escola não deve ter informado, ele anonimamente se ofereceu para pagar um curso para senhora.

- Só avisa que foi trancada, não quero que deem os detalhes, por favor. Mais essa agora, João me presentou com a bolsa, antes mesmo de me conhecer de verdade.

Ele me enganou certinho. Mas pelo menos foi por um motivo bom, como que eu fui deixar ele escapar, como fui tão infantil?

Como ele é um homem bom, naquela época ele nem me conhecia bem, mesmo assim se propôs a pagar quatro anos de curso pra mim, ele nunca ia me contar isso, no fundo eu tenho orgulho dele.
Voltei para o escritório, nesse horário é mais difícil de achar uma vaga pra estacionar, achei uma perto do hospital dava uns dez minutos andando. Três ruas depois já é o escritório. Durante todos esses meses eu ia caminhando afinal, ficava perto do meu apartamento mas hoje com toda essa correria de hospital, faculdade eu fui obrigada a usar o carro.

Sempre ia almoçar em casa mas como cheguei mais tarde comprei um sanduíche pra comer no escritório mesmo.
Não sei se foi porque dormi muito mau, ou porque acordei muito cedo mais esse dia parecia não ter fim, queria ir logo para casa, ligar o ar condicionado, deita na minha cama e comer um mousse de limão daqueles bem azedos, dizem que a maioria das mulheres sentem desejos, limão para mim era o meu desejo.

Toda vez que ia comer algo que tivesse limão eu lembrava instantaneamente de João, dizendo que a mãe dele também gostava de limão quando estava grávida dele. Isso me fez acreditar que o meu bebê também seria menino. Graças a Deus eu tinha resolvido a questão da aula na parte da manhã, por que hoje eu não ia ter nenhum pouco de vontade de ir pra aula.
Assim que dá o meu horário, arrumo minha mesa afinal hoje é sexta e gosto de deixar em ordem, pego minha bolsa e vou descendo as escadas bem devagar.
As ruas estão completamente cheias e movimentadas, esse final de semana, é o de carnaval, com cuidado vou passando entre as pessoas e cuidando para atravessar. Tem alguns folhetos no para brisa do carro e vou tirando, mais um me chama muita atenção. A letra que está nele eu conheço, meu coração começa a acelerar...

"Sabia que eu ia te encontrar.

Não adianta mais fugir de mim.

Por favor, vamos conversa, me deixe explicar.

Me liga Maryah."

J.M

J.M essa assinatura nos bilhetes deixado na porta do apartamento, não é José Marcus mas sim João Miguel. Ele me achou na festa, ele esteve aqui todo esse tempo?
Como ele me achou aqui?
Fui me virar, olhando tudo em volta mas não vi nada, nem ninguém que pudesse ser ele. De repente só escuto o freio, quando vi estava em cima não tinha o que fazer, fui sendo arrastada pelo carro, cai no chão, senti a bolsa estourar, minha cabeça bate, eu sinto a dor, vejo as pessoas rodeando, o ar começa a me faltar, meus olhos fechando, até apagar.

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