Capítulo 7

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Enquanto isso no balcão de atendimento...

 Claro senhor pode ficar a vontade para reconferir. Obrigado e boa tarde! – Cumprimentei o último cliente antes de ir para o almoço.
 Sabrina, o “not” está na minha bolsa. Se quiser levar ele e me entregar quando terminar.
 Não Carla, melhor não. – Deus me livre, ainda mais com o Sandro viciado. Não quero correr riscos. – prefiro deixá-lo aqui, e vou usando nos horários livres.
Estava sentada, comendo um nuggets e adiantando o máximo que podia o trabalho quando Clay se sentou.
 Vai acabar com uma anemia se continuar sem se alimentar.
 Fui no mais rápido! – Falei mordendo mais um pedaço lambuzado de molho. – Quer?
 Não, obrigado. Olha lá. O Renato está me saindo um belo garanhão. – Apontou com a cabeça ele rodeado por um grupo de quatro garotas, todas dando mole para ele.
 Ótimo! – Me levantei!
 Ei vai fazer o que- Ele quase que gritou sussurrando, se isso é possível.
 Dar o troco! – Ajeitei o decote, levantando meus seios e os deixando mais expostos e visíveis, umedeci os lábios e caminhei sexy em sua direção. Ele nem notou minha aproximação. – Olá garanhão! – Ele me olhou no susto, ma nada falou. – Achei que iria me ligar depois daquela festinha que fizemos no quarto.
 Poxa, me desculpa, é que as vezes é difícil e...
 O Carlão disse que você tem a bundinha mais gostosa que ele já comeu. E eu amei aquele troca troca que fizemos. Deixou ele muito, mais muito louco de tesão. Olha, quando puder liga para marcarmos tá bom? – Falei saindo vendo ele sem palavras. Isso não tem preço!
 Espera! – Ele veio em minha direção. – Isso foi golpe baixo, quer me desmoralizar?
 Apenas empatei o jogo, você estava a dois pontos na minha frente. Agora, vê se aprende a lição e me deixa em paz!
Voltei para minha mesa, e quando contei ao Clay, ele não se aguentou gargalhando. As meninas dispersaram na mesma hora.
A tarde foi tranqüila, Gustavo nem apareceu na loja e eu consegui adiantar pelo menos dez páginas do meu trabalho. Renato ficou na dele, e longe de mim, ainda bem. No término do trabalho fui a última a sair com Fabiana, que tinha que fazer todos os relatórios que o Gustavo não fez, então fiquei para fazer com ela. Ela trancava a porta enquanto eu observava. Quando ouvi uma voz chamar meu nome. Era Henrique.
 Já está de saída?
 Oi, estou sim! - Falei olhando ao redor. Não queria mesmo outra intromissão do Renato, de forma alguma.
 Também estou indo, podemos ir juntos para a estação, você pega o metrô, não pega?
 Sim, mas hoje eu ia de ônibus.  - Que merda, pra que fui prometer me encontrar com a Paty logo hoje?
 Posso te acompanhar ao ponto então. – Claro! Nossa, é um sonho? Não me belisca por que não quero acordar.
 Claro que sim! – Olhei para Fabiana que saia de mansinho. – Vamos?
Fomos andando calados até o ponto. Estava morrendo por não conseguir pensar em nada que preste para falar, e ele ao meu lado sem graça também nada dizia. Quando ameacei dizer algo ele começou.
 Então, está rolando alguma coisa entre você e aquele cara da sua loja?
 Não! – Quase gritei. – De forma alguma, ele é meio maluco sabe, faz umas coisas sem noção, qualquer hora dessas esqueço que estou no trabalho e acerto a mão nele. – Deus, o que eu estou falando?
 Ele parece realmente muito inconveniente.
 Eu acho que ele não apronta mais nada. – Pelo menos eu espero que não! Ele se calou novamente, eu tinha que pensar em alguma coisa para falar que não fossem as bolas dele, claro! – Então, você faz o que além de trabalhar aqui? – Alem de ser um gato, além de ser gostoso?
 Eu estou terminando a faculdade, você também não é? – Como ele sabe?
 Sim, termino esse ano.
 Eu ouvi você falando sobre o tcc, se quiser ajuda eu posso ir até sua casa e te dou uma força. – Ah Não... Não não não não! Minha casa não!
 Poxa eu agradeço, mas acho que consigo. Mas obrigada pela preocupação. – Rápido demais, rápido demais. Não quero relacionamentos Henrique, por favor, não estraga tudo!
 Tudo bem, é que eu achei que vendo alguém terminar o tcc seria mais fácil quando eu precisasse fazer o meu!
 Olha, eu faço ele no meu horário de almoço aqui no Shopping e se quiser, podemos almoçar juntos, daí você acompanha.
 Isso vai ser massa! – E mais uma vez o silêncio se fez. Paramos no ponto e ele ficou sem jeito. Porra, um cara pintoso desse não ter nenhuma iniciativa é até um pecado. Mas ele pareceu ler meu pensamento, deu um passo aminha frente. – Sabia que já fazia um tempo que eu andava te reparando e...
 Oiee! – Ah não! Há não mesmo! Essa voz. Olhei para trás e Renato estava parado encostado na grade do ponto nos observando.
 Tá bom, o que você quer Renato.
 Nada demais, achei que iria te encontrar aqui!
 Você trabalhou comigo o dia inteiro, o que você quer falar?
 Queria só testar uma coisa. – Quando notei ele já estava com as duas mãos apalpando meus seios com vontade. Gritei, primeiro de susto e depois de raiva. Quando me preparei para lhe dar um tapa ele segurou minha mão e sorriu. – Olha, não é que são de verdade mesmo?
 Você está maluco, louco! – Me debatia nas mãos dele enquanto ele achava graça. O pior, Henrique nada fez. Babaca do caralho.
 Bom, agora preciso ir! Amanhã nos vemos?
 Isso não vai ficar barato, pode apostar, você vai se arrepender!
Ele foi embora rindo ainda de mim, enquanto eu, puta da vida, tentava colocar a cabeça em ordem.
 Por que ele fez isso?
 Quem me dera soubesse? – Por que você não fez nada?
 Eu fiquei sem reação. Nunca vi alguém tão...
 Estúpido, babaca, imbecil? Que ódio que estou dele.
 Fica calma, ele está querendo só te irritar! – Ele falou colocando a mão sobre meu ombro.
 E esta conseguindo! Como queria ter conseguido acertar a cara dele! Uma pena não ter sido mais rápida! – Meu ônibus passou e já não havia mais clima para nada. Fiz sinal. – Amanhã nos vemos. Me desculpa.
 Tudo bem, até amanhã então! – Ele me deu um beijo tão próximo a boca que senti seu hálito.
Fui ao encontro de Patrícia transtornada, ela me entende como ninguém, mas naquele momento nem ela conseguia me entender. Estávamos nós duas próximo a praia do Leblon em um quiosque. Ela esperava uma encomenda de uma amiga que chegou de viagem, e eu prometi ir com ela.
 Pra começar, o melhor que tem que fazer é se acalmar cara!
 Ta difícil, muito difícil!- Só em lembrar já gritava por dentro.
 Eu sei que o cara é um bosta, mas o Henrique nem ficou bolado com isso.
 Nem ficou bolado e nem fez nada.
 Ah não, peraí! Não acha que isso também pegou ele de surpresa?
 Tá mais que homem deixa isso acontecer e fica calado?
 Aquele que não tem nenhum tipo de compromisso. Vocês nem se beijaram e pelo que você falou, não quer nenhum relacionamento sério também. Não pode cobrar dele.
 Ah mais o Renato ele vai me pagar!
 Isso já está virando obsessão!
 Isso já virou ódio!
 Cuidado amiga, o ódio é o gêmeo do amor. São dois sentimentos tão distintos que se fundem e viram um só.
 Que amor, tenho repulsa por ele. Não inventa romance onde não tem.
 Mas que explicação teria toda essa implicância.
 Amiga, na boa, você vai ver o que é implicância em breve. Não vou pegar ele agora, vou esperar o momento certo, onde mais vai doer... Ele que aguarde.
 Você vai se arrepender, me escuta, esse não é o caminho.
 Alguém vai se arrepender sim, e esse alguém não serei eu!

Mais uma manhã, mais um sonho erótico. Agora tem se tornado rotina e sempre, sempre mesmo acordo em estado de miséria. É sério, preciso encontrar esse homem que vem toda a noite me possuindo inteira. Bem que poderia ser o Henrique, seria satisfatório realizar essa fantasia com ele, mas ele é branquinho. Levantei, arrumei meu irmão,  ele reclamava toda vez, por que ele tinha que ir para a escola quando todos seus amigos estavam ainda de férias. Ficava feliz dele ter outras atividades do que ficar em casa vendo meus pais encherem a cara, ou na rua aprendendo tudo o que não presta.
 Isaque, talvez eu não volte pra casa hoje! Minhas amigas querem ir para a balada e não me arrisco entrar aqui de madrugada.  A dinda já disse que vem pegar vocês a tarde e assim eu fico mais tranquila. Ontem eu já deixei tudo arrumado, as roupas, as coisas de higiene, só pegar a mochila em cima da cama ok?
 Você se preocupa demais. Vai tranquilo.
 Estou levando umas roupas minhas, não sei quando volto, se domingo ou segunda depois do trabalho.
 Ninha, você já tem 25 anos,  é  adulta e não precisa me dar satisfação.
 Tá, mas eu quero dar. Você tem o número da Patrícia mas eu vou ficar com meu celular.
 Tá bom mãe!  - Ele sorriu.
 Sabe que me preocupo. Preciso sair com a certeza que tudo estará bem.
 Tenho pena dos seus filhos, se já é assim com os irmãos!
 Filhos? Sabe que essa palavra não existe no meu vocabulário.  Mas ok. Já vou se não vou me atrasar.
 Vai direto, ontem você já chegou tarde por causa dele, eu levo ele hoje!
 Tá bom, assim que ele entrar me avisa.
 Quer foto? - Ele falou levantando o celular sorrindo.

Sei que as vezes sou exagerada, mas tenho tanto medo de acontecer alguma coisa com eles. Tá bom, eu pareço a mãe, mas amo meus irmãos e não quero o pior. Já não basta o Sandro que agora nem vejo mais em casa e está se metendo com o que não deve.
Cheguei no meu trabalho no horário, ainda bem. Sentei em minha cadeira e comecei a trabalhar.
Renato chegou mais logo saiu, eu evitava olhar para ele dentro da loja, não queria correr o risco de levar uma justa causa por causa dele. Infelizmente não tive ainda a oportunidade de contar a todos, e para melhorar, não tivemos tempo de almoçarmos juntos.
Sentei na praça de alimentação com o notebook da Carla e continuei a escrever já que por causa do movimento na loja não deu para adiantar nada, fiquei tão focada que quando olhei para o relógio já haviam se passado cinco minutos do meu horário, desci as escadas correndo e acabei esbarrando no Henrique.
 Desculpa! Eu não vi você! – Falei sem graça.
 Tudo bem, eu também estava distraído olhando para a sua loja para ver se te via. – Uau! Ele estava me procurando mesmo depois do vexame de ontem!
 Eu, é, eu estava no almoço.
 Adiantando o tcc, acertei?
 Na mosca! – Olhei para Fabiana me olhando. – Bom eu preciso entrar.
 Nos vemos mais tarde?
 Ai, não vai dar. Vamos sair para comemorar o aniversário de uma amiga.
 Ah ta! – Ele disse parecendo decepcionado. Não queria que pensasse que eu estava dando desculpas.
 Se estiver afim de ir eu te passo o local depois do trabalho.
 Seria uma boa, não tenho nada pra fazer hoje!
 Então até depois! – Uau! Uau! Uau! Eu tenho um encontro... Depois de um ano! Entrei correndo na loja.
 Sabrina você está dando muito mole. Quer problemas?
 Acho que consegui um encontro! – Disse dando pulinhos enquanto Renato entrava.
 Então finalmente rolou alguma coisa? – Ela me perguntou e Renato voltou a atenção para a nossa conversa.
 Quase, não fosse pela idiotice de certas pessoas teria rolado. Mas de hoje não passa! – Olhei para ele que me olhou e sorriu! – Preciso saber onde será a balada, tenho que passar para ele para nos encontrarmos lá!
 Então, quanto isso...
 Ah não! O que foi?
 Sabe aquela boate nova que abriu na Barra?
 A beira da praia? – Creio que meus olhos saltaram do rosto. O lugar era absurdamente caro, badaladíssimo e difícil de entrar.
 Então, a Patrícia conhece o segurança que vai nos colocar lá dentro de graça. Só vamos pagar a consumação no cartão dela e depois dividimos a conta. Acho que se ele for terá que pagar.
 Ah não! Poxa, nada dá certo! – Olhei para o teto da loja como se visse o céu. – Poxa santo Antônio, dá um alívio por favor, não quero casar não, só quero dar uns beijos! Alivia essa, ta dificultando demais! – Fabiana rio, e ouvi a risada do imbecil também mas preferi ignorar.
 Ele pode ir mas terá que avisar.
 Bem, não custa né. Mas duvido que esteja tão interessado ao ponto de gastar tanto só para ficar perto de mim!
 Se tiver aproveita e prende.
 Se ele estiver eu corro, não quero relacionamentos, e você sabe disso melhor que ninguém.
 Tá bom chega de papo e vai pra sua mesa.

Sabrina Onde histórias criam vida. Descubra agora