Capítulo 45

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Julie me ajudou muito, agora eu tinha uma cumplice no meu segredo e era tão bom me livrar de parte daquele peso, ela também me ajudou a me livrar um pouco do povo que estava em cima de mim, inventando uma história de mal entendido.
Se passou mais uma semana, me encontrava em uma fase um pouco estranha. Estudava pensando no Esk e conversava com Eliott, depois chegava em casa e já corria para o celular para conversar com o Esk, pensando no Eliott, sempre naquela duvida cruel! Eram ou não a mesma pessoa?!
As coincidências eram grandes. Só que quando eu jogava alguma indireta, Eliott não tinha reação nenhuma.
Sei que cada vez mais eu me pegava adorando conversar com Esk, ele tinha um jeito que me chamava muito a atenção, me prendia como nenhuma pessoa tinha conseguido. E olha que era apenas por mensagem! Mas o ruim era que na vida real ele poderia ser uma pessoa totalmente diferente, se ele não fosse o Eliott, poderia ser qualquer garoto da faculdade. Conversávamos sobre qualquer coisa e o que mais me encantava era a forma com que ele via o mundo e transmitia em seus poemas. Eu também deixei a minha timidez de lado e comecei a enviar meu livro para ele ler, que pareceu gostar de verdade. Esk me apoiou tanto para continuar a escrever que comecei a me sentir mais motivado à realmente dar um fim para aquela história.
Acabou que os poemas dele me inspiravam também para continuar a escrever sobre paixão, eram tão intensos que eu conseguia imaginar através deles o que era amor verdadeiro... Como seria viver uma paixão. Só deixando minha mente correr solta e meu coração esperar, talvez um dia eu poderia conhecer o que era aquele sentimento.
Estava com os fones, ouvindo uma música muito boa que ele havia me mandado, enquanto lia pela terceira vez o último poema que ele tinha me enviado com um sorriso sem motivo no rosto. Aquela melodia contagiava e as palavras encantavam, em um perfeita sincronia. Meu coração estava disparado... Mas sem motivo. Como podia eu gostar tanto de uma pessoa que eu nem conhecia ou sabia como era? Talvez o encanto acabaria se eu de fato soubesse... Se não fosse por esse fato, eu poderia até dizer que eu estava me apaixonando.

~privado on~

EsqueciMeuNome: Hey!
EsqueciMeuNome: Nossa, todos na faculdade estão comentando sobre a festa de hoje na casa daquele tal de Thomas. O que não é muita novidade, nunca vi uma galera que gosta tanto de festa.
Raziel: Isso é verdade! Mas as festas na casa dele são boas mesmo.

Eu mudei essa última mensagem, quase ia falando que conhecia o Thomas, o que talvez seria informação demais. Pensei um pouco...

Raziel: Você vai estar nessa festa?
EsqueciMeuNome: Vou.
Raziel: Sério?
EsqueciMeuNome: Sim, meu amigos vão estar lá. E você? Vai?
Raziel: Vou...
EsqueciMeuNome: Talvez vamos passar um do lado do outro sem saber, então.

Eu queria saber quem ele era se passasse mesmo do meu lado e pensei seriamente em dizer meu nome... Mas o medo não deixou. E se ele não fosse quem eu esperava e ainda falasse meu segredo?
O jeito era deixar acontecer.

~privado off~

Tinha duas semana que Ryck ficava mofando em casa e aquilo deixava ele irritado, então parecia uma mulher com tpm, explodia por qualquer coisa!
- Você podia me fazer companhia! Ou engessar o braço que nem eu. Assim eu poderia ir na festa!
- Tenho certeza de que você não iria ter um encontro agradável com a Anne. Ela está quase tão para baixo quanto você essas duas semana e nem olha na minha cara.- Falei.
- Quem disse que eu estou para baixo? Até parece...- Se fez de durão olhando para a TV.
Olhei para ele sem vontade de argumentar o óbvio.
- Ryck, você está coberto com a manta cor de rosa que a Julie trouxe, com um pote de sorvete na mão e assistindo novela mexicana. Isso não é estar para baixo?
Ele parou com a colher de sorvete na boca, pensou um pouco e falou com desdém:
- Primeiro, essa manta é quentinha, tá? Segundo, sorvete sempre é bom, se reclamar vou acabar sozinho com o outro pote que tem na geladeira. Terceiro, eu só quero saber se a Maria Antonieta traiu mesmo o João Miguel e está esperando trigêmeos. E quarto, vai te catar e me deixa em paz.
Revirei os olhos e terminei de arrumar meu cabelo.
- Ok, vou nessa. Chris, Julie e Eliza iam direto para a festa.
- Tudo bem, então... Eu vou ficar aqui sozinho... Na solidão... Sem ninguém!
Saí antes que ele começasse a dar a louca.
Fui para a festa na casa do Thomas, sua casa estava cheia com a galera toda empolgada, música alta e neons para dar um ar de baladinha. Ele me cumprimentou todo animado e entrou conversando comigo, depois nos juntamos a Chris, Arthur, Jeremy e Eliott.
Olhei para Anne que estava um pouco atrás com a Japa e algumas outras garotas, ela também estava olhando para mim, talvez querendo na verdade ver o Ryck. Ela abaixou os olhos e eu também, sem saber muito como agir.
- Você vai tocar com a gente hoje, Ryan?- Perguntou Thomas um pouco de canto.
Olhei para ele confuso.
- Com a gente?
- Anne, Japa, Felipe e eu. Seria a primeira vez que tocariamos para um público, lembra?
- Vocês tocam?- Perguntei surpreso.
Thomas olhou para mim estranhando.
- Quer dizer, é lógico que tocam! Mas... Hoje eu não vou poder.
- Por que?
- Porque... estou com dor de garganta! É, minha garganta está péssima...- Falei fazendo uma voz rouca.
- Sério? Que tal você só tocar a guitarra, então?
- Hum... Eu... estou com um problema no pulso também!
- No pulso?
- Sim, posso ter até que amputar!- Ok, eu não era tão bom mentiroso igual meu irmão, principalmente quando as pessoas ficavam me fazendo muitas perguntas, me deixavam nervoso- Quer dizer, não amputar, talvez só enfaixar e tals...
Thomas olhou para mim, deu uma risada de leve e falou:
- Você está mentindo.
Olhei para ele preocupado.
- Não, é sério! Eu...- Gaguejei.
- Relaxa... É por causa da Anne? Percebemos que vocês se afastaram.
Olhei para Thomas pensando. Acabei usando a deixa dele:
- É...- Me fiz de chateado.
- Tudo bem, então. Quando vocês se resolverem a gente volta a tocar.- Falou ele sorrindo e colocando o mão no meu ombro.
Sorri de volta para ele, que saiu e foi conversar com o Felipe e a Reh, que estavam zoando juntos.
Olhei para frente e vi Eliott, ele estava rindo de alguma coisa que Arthur tinha dito.
Me aproximei mais e entrei na conversa, olhando de vez em quando para ele.
- Ah, até parece que isso é verdade!- Falou Jeremy rindo.
- Claro que é! A pessoa que inventou a expressão "todos os homens são iguais" foi uma chinesa que perdeu o marido na multidão. Isso é fato!
Dei risada e falei:
- Por que estão falando sobre isso? Acham mesmo que todos os homens são iguais?
- Não, mas sua irmã falou isso quando tivemos uma pequena discussão hoje.- Falou Chris revirando os olhos.
- Claro que ela estava com ciúmes. Todas as garotas acham que só pensamos em sexo ou em outras garotas! O que não deixa de ter uma porcentagem de verdade.- Falou Arthur sorrindo.
- Sim, mas nem todos os homens são iguais. Tem alguns que pensam em outras coisas.- Falou Eliott dando de ombros.
Claro, tipo em outros garotos? Meu caso.
Sorri para Eliott sentindo aumentar a minha certeza de que Esk e ele eram a mesma pessoa.
Eu apostava um centavo de que se Esk estivesse ali, iria falar alguma frase de efeito. Ele adorava fazer aquilo.
- "Os homens distinguem-se pelo que fazem; as mulheres, pelo que levam os homens a fazer."- Comentou Eliott sorrindo e dizendo uma frase de Carlos Drummond.
Olhei para ele e senti meu coração disparar.
- Nossa...- Soltei.
- O que foi?- Perguntou ele.
- Nada! Eu só... Gostei da frase.
Ele sorriu e falou:
- É uma frase boa. O que me faz lembrar que eu estou pensando em comprar aquele livro de suspense que você falou!
Eu e Esk também tinhamos comentado sobre aquele livro na noite anterior.
- Sim, ele é muito bom...
Continuamos a comentar sobre aquilo, enquanto Jeremy ia buscar bebidas, já Chris e Arthur falavam sobre outros assuntos.
- O final daquele livro me deixou tipo... Caramba, eu não esperava por isso! Quer me matar do coração!- Falava ele animado.
- Exatamente! Mas eu adorava como a autora mostrava a jovem e seus desejos.
- Eu gostei mais quando o cara apareceu.
Sorri de novo, talvez rodopiando internamente. Ele preferia sempre os caras do que as garotas.
- Gostei da forma como ele mostrava sua coragem. Atitude é tudo nessa vida.
Atitude... Talvez eu devesse... Dizer mais diretamente as minhas suspeitas?
Pensei bastante depois que ele falou isso. Talvez fosse a melhor maneira mesmo de saber a verdade. Tendo atitude...
- Eliott, eu queria te perguntar uma coisa.
- O que?
- Bom... Queria saber se você é o...
- Eliott!- Uma garota com os cabelos encaracolados veio para perto dele e o abraçou toda meiga- Estava te procurando!
- Até que enfim você chegou, já estava com saudades...- Falou ele olhando para a garota sorrindo e os dois se beijaram.
Perai... Como é que é? Se beijaram?!
Eu parei totalmente espantado com a cena. Quase como se um beijo entre uma garota e um garoto fosse algo estranho. Porque naquele momento, aquilo era a coisa mais estranha do mundo para mim, já que achava que Eliott era gay!
Eu ainda estava em choque, sem reação... Então Eliott e Esk não eram...
Eliott olhou para mim sorrindo.
- Ah, essa é a Margot, Ryan! Começamos a namorar a pouco tempo.
- Oi!- A garota me cumprimentou animada.
- Oi...
- Me ajuda a achar a Carol? Eu não faço ideia da onde ela se meteu.- Falou a garota preocupada.
Eliott olhou para mim.
- Eu vou ter que ir.
- Ah, tudo bem...
Eles se deram as mãos e sairam, Chris e Arthur se juntaram mais a mim.
- Caramba, o Eliott conseguiu uma garota linda, hein?- Comentou Chris.
- Nhé, só porque ele é metido a romântico indomável.
Abaixei a cabeça, realmente me sentindo para baixo.
- Hey! Falem a verdade, até eu sou mais irresistível que ele, não sou não?- Falou Arthur se achando. Olhei para ele com os olhos arregalados, do nada resolveu falar igual ao Esk!
- Que foi, Ryan?- Perguntou Chris.
- Nada! Eu... Preciso pegar algo para beber.
Estava aéreo com tanta coisa de uma vez.
Fui me direcionando até onde as bebidas estavam, me sentia perdido de novo. Achei que estava começando a sentir algo por Eliott e de novo...
Seria possível eu passar por mais uma desilusão? Acho que o que me deixou triste mesmo foi descobrir que não sabia quem era o Esk. Pensava aquilo ainda meio atordoado, depois me virei para a frente, via tantos rostos, tantos garotos... Dançando, bebendo, se divertindo... Esk estava lá, sabia que estava, mas a pergunta não era só onde e sim... Quem?
Eu ia pegar algo para beber sem álcool, mas minha cabeça estava girando com tudo aquilo. Olhei para o copo de vodka em uma guerra interna que parecia não ter fim, porque lembrei que da primeira vez que bebi fiquei leve e sem preocupações, queria voltar a sentir aquilo... No final, eu acabei pegando e bebendo tudo de uma vez. Fiquei ali do lado das mesas bebendo, dois copos, três copos, mas na hora que cheguei no quarto comecei a passar mal, talvez por eu não ter comido nada antes de ir para a festa e estar com o estômago totalmente vazio.
Corri para o banheiro e coloquei tudo para fora, vomitar sempre será uma coisa horrível...
Quando consegui parar de botar os bofes para fora, saí do banheiro meio cambaleante, devia estar um pouco pálido.
- Ryan? O que você tem? Está passando mal?- Perguntou Thomas que estava passando por ali.
Falei que não estava com a cabeça, mas depois vi tudo girando e concordei fazendo uma careta.
- Bebeu demais?
- Talvez sim com base de que eu nem deveria ter bebido nada, jurei que não ia fazer merda de novo- Falei mole.- Meu Deus, ver todo mundo pular está piorando a situação...
Aquilo estava me deixando mais enjoado. Ele olhou para a pista e depois para mim preocupado, que me apoiei na parede tentando parar de passar mal.
- Quer subir? Você precisa descansar um pouco, acho que tenho um remédio que vai te ajudar a parar de vomitar. Vem, eu te ajudo...
Ele me ajudou a subir, quando já estavamos no andar de cima, eu falei:
- Só não me deixa fazer outra tatuagem na bunda...
- O que?- Ele falou confuso e rindo.
- O que?- Falei mole também, tinha dado tempo de ficar um pouco bêbado.
Eu cismei que queria ficar sentado na porta do quarto dele, não me pergunte o porquê, coisa de bêbado! Só sentei ali na entrada sentindo meu estômago revirar e esperei ele voltar com o remédio.
- Você está péssimo.
- E você está sendo malvado sendo tão realista...- Falei pegando o remédio e fazendo um bico.
- Ai, perdão, não era meu objetivo ser malvado.- Falou ele rindo, pensou um pouco e perguntou- Vai me dizer porque tenho a impressão de que a bebida não é a única responsável por isso? Parece estar um pouco triste...
Parei encostando a cabeça na porta e fechando os olhos, sentindo vontade de vomitar de novo.
- Talvez eu realmente esteja.
- Imagino... Acabou de terminar com a Anne.
Dei risada.
- Que foi?- Ele ficou confuso.
Olhei para seus olhos, eram de um castanho bem escuro e intenso.
- Posso dizer que sou muito mais do que pareço, Thomas... Tenho meus segredos.
Ele me olhou pensativo.
- Entendo... Acho que todos temos nossos segredos, Ryan.
Ele foi se ajeitando e se sentou ao meu lado no chão. Parecia pensativo.
- Não vai voltar para a festa? Não precisa se preocupar, eu tô bem.- Falei meio mole.
- Não está, não. Parece pálido... Quero ter certeza de que está bem.
Mesmo sentindo um mal estar horrível, sorri por ele estar se preocupando comigo.
- Não quer se deitar, as vezes ajuda a passar o mal estar mais rápido.
Ele se referia a me deitar na cama, mas só concordei e acabei me escorando no seu ombro mesmo, o que deixou Thomas um pouco surpreso. Eu não estava raciocinando direito.
Thomas ficou ali, me observando deitado sobre seu ombro durante alguns momentos, enquanto eu fechava meus olhos e esperava o remédio fazer efeito. Depois de uns 5 ou 10 minutos que estavamos ali, eu falei levantando um pouco meu rosto.
- Está passando... Se quiser ir lá para baixo...
Thomas pensou, ele ainda me olhava de uma maneira um pouco diferente.
- Bom, eu... não quero voltar agora. Acho que estava me sentindo meio vazio lá em baixo...
- Não gosta de festas?
- Gosto, mas as vezes me incomoda. Sabe quando você é obrigado a ser o que não é por causa das outras pessoas? Engraçado... Mas ficar aqui com você em silêncio estava bem melhor que passar por isso.
Pensei, me sentindo confuso.
- Por que diz isso?
Nos olhamos durante alguns segundos em silêncio. Seu rosto estava próximo do meu... de uma maneira que nunca esteve antes. Ele deu um sorriso de leve e disse:
- "Não te abras com teu amigo, que ele um outro amigo tem. E o amigo do teu amigo, possui amigos também..."
Thomas falou a frase de Mario Quintana, o que me deixou surpreso. Ele também tinha seus segredos? Olhei para a frente ainda vendo as coisas girarem um pouco.
- Acho que está virando moda essas frases de efeito...- Resmunguei.
Ele deu risada.
- Qualquer um pode saber essas frases lendo um pouco, não é mesmo?
- Gosta de ler?- Perguntei mais surpreso ainda.
- Claro!
Olhei para dentro do quarto dele e vi que ele tinha uma estante repleta de livros. E meu olho foi direto em um especial.
- Oh!!- Falei apontando para a estante como uma criança quando vê o brinquedo que tanto sonhou na vitrine- Você tem! Eu não acredito que você tem!
- O que?
- Edição limitada, o especial da trilogia Ao Delirar!
Thomas sorriu vendo minha empolgação e foi pegar o livro para mim ver melhor. Quando ele me entregou, senti que estava segurando algo sagrado.
- Ai, meu Deus... Você não sabe o quanto eu já procurei esse livro! Tipo muito mesmo!
- Sério? Não sabia que você gostava também. Realmente é bem difícil de achar, tive que ficar horas na fila para conseguir essa edição, mas valeu muito a pena!
- A história é boa mesmo?
- Boa é pouco, é sensacional!- Falou ele todo empolgado.- Você tem que ler.
- Bem que eu queria, mas eu não consegui o livro.- Falei desanimado.
Ele pensou um pouco olhando para o livro e para mim, até que disse por fim:
- É seu agora.
- O que? Como assim?
- Estou te dando, quero que fique com ele!
- Não, Thomas! Não posso aceitar, você ficou horas só para conseguir ele.
- Sim, é um livro especial para mim mas não tanto quanto pareceu ser para você! Sei que vai estar em ótimas mãos...- Falou ele sorrindo de lado.- Quero que aceite, olha que vou ficar muito chateado se negar!
- Não brinca!- Olhei para ele ainda todo surpreso.
- Não estou!- Falou ele rindo.
Agradeci umas mil vezes enquanto abraçava o livro e sorria para ele, que me observava também com um belo sorriso no rosto. Ainda ficamos conversando e rindo durante um bom tempo ali, quase a noite inteira, nem se importando com a festa que estava rolando lá embaixo... Talvez tenhamos encontrado algo ainda melhor ali em cima.

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