Brandon
Os pais de Danielle são duas figuras singulares. O pai é de poucas e emburradas palavras, me olha feio o tempo todo, mas vejo que se preocupa genuinamente com Danielle. A mãe dela fala pelos dois e tenho a impressão que, por causa disso, ela escuta muito pouco o que os outros tem a dizer.
Eu sirvo o vinho assim que vamos à mesa para comer. A entrada é uma salada grega com figos. Adelia elogia o prato como elogiou a casa, meus trajes, a decoração e o vinho. Ela só não elogiou Danielle.
Tenho o impulso irresistível de segurar a mão dela e seus olhos castanhos me encaram cúmplices com seu sorriso. Meu coração se aquieta um pouco do nervosismo.
Os pratos são trocados e mais uma vez Adelia domina a conversa.
- O que exatamente você faz, Brandon? - o Coronel Riggs interrompe a esposa.
- Sou produtor musical. - respondo incerto de que ele saiba o que isso significa.
- Tinha que ter algo a ver com música. - ele comenta para si mesmo. - Danielle tinha 16 anos quando me pediu uma bateria de aniversário. Foi o terror dos vizinhos!
- Ela tocava muito mal. - Adelia completa. - Ela tocava piano desde os quatro anos e do nada quis uma bateria!
- Isso foi influência daquela garota, elas não se separavam. Como era o nome dela? - o pai de Danielle está prestes a se lembrar de Clara, mas a mãe de adianta.
- Clara! - Adelia lembra num sobressalto.
- Muitas coisas foram influência de Clara. Mas ao menos agora estamos esperançosos. - Coronel Riggs é direto.
- Nada foi influência de Clara. Vocês são tão lúcidos, me surpreende a habilidade que vocês tem de negar a verdade. - Danielle se pronuncia irritada. - Eu estou com trinta anos, acho que é hora de vocês encararem que as minhas escolhas não são culpa de mais ninguém além de mim.
Os dois se olham e coloco a mão na perna de Danielle debaixo da mesa. Balbucio pedindo que ela tenha calma.
- Eu sei que você é adulta. Mas a melhor decisão na época foi afastar você daquela garota. - Adelia diz e Danielle a encara atônita.
- Não funcionou muito né, mãe? - ela fala ironicamente.
- Não é hora e nem lugar de discutir isso, pelo amor de Deus. - Henry racionaliza e vejo a face de Danielle se avermelhar.
- O ponto é que estamos felizes com o namoro de vocês. - ela encosta a mão no ombro de Danielle, que desvia do carinho com destreza.
- Obrigado, Adelia. Estamos felizes também. - respondo cordialmente.
Ela aprendeu tanto a não confiar em seus pais que tem uma resistência natural a eles. Segundo as histórias que ela me contou, seus pais haviam a separado de Clara inconscientemente. Agora haviam acabado de confessar que foi uma decisão pensada e isso obviamente abalou Danielle.
Um silêncio incômodo se instala na sala de jantar e sirvo mais vinho a todos, esperando que a bebida acalme os ânimos.
- Coma, Danielle. - peço vendo que ela mexe a comida de um lado a outro do prato.
- Não insista, Brandon. Ela não precisa se alimentar muito. - Adelia não cansa de ser inconveniente. - Se eu soubesse que era só falar de Clara pra ela se recusar a comer, teria criado uma adolescente magra. - somente ela ri da própria piada.
Danielle se levanta da mesa nervosa.
- Dany. - o pai a chama com a rigidez militar. - Não seja infantil e volte a se sentar.
- Vocês não podem me dizer o que fazer. Não mais. - ela diz magoada e sai da sala.
- Isso foi realmente um desastre. E nem chegamos na sobremesa! - Henry conclui e eu me levanto, sem nenhuma vontade de continuar jantando com os dois.
- É uma pena, mas quem sabe seria mais agradável se a senhora pudesse guardar seus comentários sobre o corpo de Danielle dentro da sua maldita boca. - falo essas duas últimas palavras com um soco no vidro da mesa e os dentes cerrados. - Com todo respeito, sua filha é incrível e você não a merece.
- Não fale assim com minha esposa. - Henry defende Adelia.
- Cala a boca você também. - estou ficando cada vez mais furioso e levando as coisas a um ponto irreversível. Mas foi libertador deixar de me segurar em respeito aos pais da mulher que eu amo.
Danielle passa pela sala apressada e vou atrás dela, ela está com seu casaco para aplacar a brisa noturna e sai pela porta da frente.
- Eu preciso ficar um pouco sozinha, Brandon, por favor. - ela pede quando a alcanço.
- Onde está indo? - pergunto assustado com a forma que ela parece agitada.
- Só dar uma volta. Eu volto logo.- ela diz escapando dos meus braços.
Eu sinto vontade de impedi-la de sair, mas não consigo imaginar o que está se passando pela sua cabeça e sei que exercitar qualquer vontade minha agora vai fazê-la ficar ainda mais fora de si.
A solto e deixo sair andando pela calçada. Danielle nem olha para trás, sua cabeça está baixa e o frio a faz encolher as mãos pra dentro do casaco. Uma sensação ruim me toma, meu impulso é correr atrás dela e não deixar que ela vá para lugar nenhum, especialmente com esse humor deprimido que não é o seu característico.
Tenho medo que ela vá procurar Clara, que ela esteja pensando em todo o amor que nunca teve possibilidade de existir entre elas e que ainda existe em algum lugar das duas. Mas é mais que isso. Meu estômago se revira em mais do que só ciúme.
Os pais dela saem prontos para ir embora e desvio o olhar da figura já meio distante de Danielle por um segundo. Passo por eles sem dizer nada e entro em casa batendo a porta atrás de mim. As coisas não podiam ter saído pior. Faço uma anotação mental: "nunca mais insistir em jantares com os sogros.".
Pego a garrafa de bourbon e sirvo uma dose que para inteira direto no meu estômago. Outra. Ligo para Danielle e recebo a mensagem de sua caixa postal.
Outra dose. Outra ligação perdida. Parece que estou só com o Sr. George T. Stagg engarrafado.
Eu deixo algumas mensagens com a voz embargada na caixa de mensagem de Danielle e vou deitar cambaleante. Na cama eu fecho os olhos e lembro dela com Clara. Essa imagem me perturba. Estou bêbado e alucinando com as lembranças dela na boca de outra pessoa.
Respiro fundo, minha cabeça gira e penso em ir até a casa dela, mas eu não posso dirigir, nem consigo saber onde ela está para sair pela cidade a perseguindo.
Fecho os olhos.
Sinto uma boca me percorrendo e abro os olhos inchados pelo sono e pelo álcool, quanto tempo passou é uma incógnita. Eu sei que o quarto está todo escuro. Eu respiro fundo com a sucção que me deleita. Não conheço um jeito melhor de acordar do que esse.
Ela se senta sobre mim e eu ainda enxergo tudo embaçado. Minha cabeça gira e estou mais zonzo do que nunca, fecho os olhos e me deixo levar pelo prazer, sem escutar os gemidos que tanto aprecio de Danielle.
Algo estranho me toma, uma sensação diferente e percebo que não é ela que me toma dentro de si vorazmente. Tento me levantar e Larissa me empurra. Eu giro o corpo e a derrubo de cima de mim para o colchão. Ela ri, se deitando na minha cama, deliciada com o que acabou de acontecer.
Eu não consigo me equilibrar, completamente intoxicado pelo álcool eu vomito no chão ao tentar sair da cama. Me sinto apavorado pelo descontrole, eu não consigo me mover coordenadamente e fecho os olhos tentando me recompor, sentindo novamente o sono e a tontura pós êxtase me dominar.
Deito no chão frio e apago.
VOCÊ ESTÁ LENDO
Peculiar
Short StoryDanielle é peculiar. Com a ajuda de Clara, sua amiga da adolescência, ela se tornou destemida, encarando de frente os desafios de sua vida e a incansável luta de ser uma mulher fora dos padrões. Ela prefere ser chamada de gorda mesmo. Por que? Porqu...
