Danielle
Elena me abraça com carinho e elogia minha aparência. Ela acaricia meu cabelo e meu vestido muito cordialmente e vejo que minha mãe se incomoda um pouco. O comum é que as sogras sejam menos queridas do que as mães, mas nada comigo é exatamente convencional.
Eu absolutamente adoro a companhia de Elena e conversamos sobre diversas coisas como se fôssemos velhas conhecidas. Me sento perto das duas e minha mãe segura a minha mão com força.
Estamos num jantar íntimo, para finalmente oficializar o noivado somente com nossos pais, sem grandes eventos.
Brandon está entre seu pai e o meu e não consigo evitar um sorriso ao cruzar nossos olhares. Sua postura me tira o ar e a forma como ele parece satisfeito com nossa situação me acalma o interior. Eu tive muitas dúvidas sobre nós e especialmente sobre ter um filho. Depois do choque inicial e todas as coisas que aconteceram conosco, eu já estou um pouco mais familiarizada com a ideia de ser mãe. Resta saber como será a reação dos nossos pais a notícia sobre o bebê. Esta palavra ainda me dá alguns calafrios. Bebês e seus choros indecifráveis me assustam absurdamente.
Durante o jantar tudo corre perfeitamente bem. Depois da sobremesa fazemos um brinde rápido e pronto. A aliança está ali no meu dedo, uma declaração e tanto pra quem jurou que não usaria uma coleira ao iniciar o namoro.
Brandon me beija e me segura em um abraço. Meus pais estão aliviados. Eles sempre tiveram medo que eu acabasse me casando com uma mulher, ou não me casando de forma alguma. Me ver com Brandon é pra eles uma realização de certa forma.
- O casamento será em quinze dias. - Brandon anuncia e nossas mães se espantam. A minha muito mais do que a dele. Ela já sabe da novidade, apesar de não ter havido nenhum comunicado oficial.
- Quinze dias? Por que tão rápido? - minha mãe parece exageradamente chocada.
- Vai ser uma cerimônia simples, Adelia. - Brandon explica.
- Muito simples. - eu complemento. - Vamos convidar poucas pessoas.
- Eu estou feliz por você estar se casando. Não vou arriscar dar qualquer palpite sobre como ou quando. - meu pai esbraveja como sempre.
- Eu já penso o contrário. É um casamento. Vocês não podem tratar como uma festa qualquer que irão fazer. Tem que ser bem pensado e organizado. - minha mãe reluta em aceitar que não vai poder se gabar sobre a cerimônia para o restante da família.
Há uma porção de tias e primas a quem ela gostaria de impressionar com meu casamento. Ainda mais com um homem e principalmente um homem como Brandon.
- Mãe, não é como uma festa qualquer. - eu defendo.
- Se vocês dois estão felizes com a ideia de um casamento pequeno, nós também ficamos. - Nicolas aponta com sua sensatez característica.
- Podemos deixar a festa maior para quando o bebê nascer, Adelia. Tenho certeza que você vai adorar organizar esta. - Brandon fala sério e eu caio na risada.
Eu sempre rio em momentos embaraçosos.
- Que bebê? - meu pai arregala os olhos.
- Henry, eu estou casando com ela. Sua condição era essa não? Se ela engravidasse eu deveria me casar. - meu futuro marido tem um senso de humor bem irônico.
Estou nervosa. Incrivelmente nervosa, mas minha risada vira um sorriso feliz. Minha mãe está boquiaberta enquanto os pais de Brandon comemoram a notícia. Eu olho meu pai e o vejo lacrimejar. Nunca em toda minha vida eu vi meu pai chorar.
Eu só espero que não seja de decepção por ter uma filha que vai casar grávida.
Ele se levanta e cruza a sala até nós. Pela primeira vez eu percebo quanto os anos passaram, seus cabelos grisalhos o fazem parecer mais velho e quando ele se aproxima de mim eu vejo as rugas que o nosso relacionamento distante não me deixava ver antes.
Ele não diz uma palavra, mas me puxa para seus braços e me aperta com força. Meu pai nunca mais me abraçou assim desde que eu me tornei uma adolescente. E foi um baita abraço.
Em seguida ele abraça Brandon.
Quando me deito na cama com Brandon ele larga o livro que lê e me abraça. A noite foi tranquila, sem nenhum drama, nenhum problema. Isso é completamente inusitado para nós dois. Ele me beija e acaricia.
Meus hormônios enlouquecidos me fazem faminta por ele. Eu nunca entendi como funcionava o sexo na gestação das minhas amigas. Mas na minha ele funciona, e é delicioso.
Por causa da preocupação em ter um ritmo mais leve, eu e Brandon acabamos por explorar nossos corpos com calma, com jeito e delicadeza. É diferente, mas não quer dizer que não seja igualmente intenso.
Uma das coisas que eu aprendi sobre Brandon é que ele é intenso em tudo. E isso é o que me fascina nele. Ele não é, e nem conseguirá nunca ser, uma pessoa morna, um homem de "tanto faz". Suas opiniões são sempre todas firmes e bem colocadas, e ele se irrita quando eu desafio isso.
Mas eu não gostaria que fosse de qualquer outro jeito.
Nos apaixonamos por sermos tão teimosos e diferentes. Eu não fujo de desafios e ele é o ser humano mais desafiador que eu conheço.
A notícia da prisão de Mark foi divulgada amplamente e virou um escândalo. A cumplicidade de Larissa em toda a questão não rendeu a ela o mesmo destino de Mark. Ela saiu com alguns serviços comunitários pelas chantagens a Clara e a ajuda que dava a Mark.
Esse resultado não me agradou em nada. De fato, Mark era o executor das maldades de Larissa. Mas acabou pagando o preço por não ter contestado o que ela queria a qualquer custo.
Para uma mulher como ela, acostumada a viver uma vida afortunada, foi bem difícil abrir mão do apartamento, carro e ter que trabalhar, ou mesmo prestar serviços comunitários, que também foi o acordo oferecido a Clara.
Larissa nunca esteve grávida de Brandon. Foi mais um de seus blefes para nos torturar.
No fim das contas, acabou sendo uma previsão para o que aconteceria conosco. Acostumou Brandon com a ideia de ser pai. E eu finalmente posso respirar aliviada, sem a ideia que ela ou qualquer outra pessoa nos deseja algum mal.
Eu e Brandon escolhemos um terraço no meio da cidade. Ao fundo dá pra ver a praia. Eu queria me casar com os pés na areia mas, pela privacidade que gostaríamos de ter no nosso momento, não foi possível.
Pelo menos eu consegui manter o por do sol para o horário.
Três das minhas coisas favoritas na vida reunidas em um dia perfeito pra mim. A praia, o sol e Brandon.
Meu pai segura a minha mão quando estamos prestes a sair do elevador.
- Danielle, eu quero que você saiba que eu te amo. Eu não sou bom com as palavras, nem rápido para utilizá-las como você. Mas tenho um imenso orgulho de quem você é. E sua mãe também.
Eu abraço o velho Henry Riggs e o beijo no rosto, agradecida. Eu sempre achei que meu pai tivesse vergonha de mim, ainda mais por ser rígido e meio tacanho. Mas sei que ele não tem orgulho de mim por eu estar me casando com Brandon, e sim por ter enfim enxergado quem eu sou.
Eu me orgulho de ser exatamente assim. Mas saber que as pessoas que eu amo também partilham este sentimento me faz muito mais feliz.
A única coisa que eu consigo pensar é pedir pra que a bolinha não demore trinta anos pra compartilhar comigo esse tipo de coisa.
- Eu te amo, pai. - dou um sorriso e ele me admira.
- Você está linda, radiante. Está pronta pra se casar? - ele me pergunta quando o quarteto de cordas começa a tocar e a organizadora nos chama com as mãos.
- Eu nasci pronta, pai. Esse é só mais um passo. - digo confiante e ele ri.
- Você responde Brandon em tudo que ele fala também?
- Sempre! - pisco pra ele.
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Peculiar
Short StoryDanielle é peculiar. Com a ajuda de Clara, sua amiga da adolescência, ela se tornou destemida, encarando de frente os desafios de sua vida e a incansável luta de ser uma mulher fora dos padrões. Ela prefere ser chamada de gorda mesmo. Por que? Porqu...
