Danielle
Me olho no espelho do banheiro de lado, tentando ver se tem alguma diferença na minha barriga. Suspiro assim que viro de frente. Tem uma parte de mim que ainda não conseguiu se conectar com a ideia de ser mãe.
Eu tenho certeza que vou ser uma mãe crítica e irritante, exatamente como a minha. Já sinto pena dessa criança.
- Temos alguns meses pra tentar nos entender. Por favor, me ajude! - peço à bolinha pelo meu umbigo. - E me desculpe. Não é que eu não vou amar você. Mas você está vindo numa hora ruim.
- Está tudo bem? - Brandon me assusta quando entra. Talvez eu o tenha assustado falando "sozinha".
- Sim. Tudo bem. - minto sem nenhuma culpa. Eu não quero mais que ele fique preocupado com a minha incapacidade de estar totalmente feliz com a gravidez. Mas a verdade é que estou apavorada.
- Você tem médico hoje. - ele me abraça e beija de um jeito carinhoso. - Dois médicos.
- Da cabeça e da bolinha. - afirmo e ele sorri pra mim.
- Tem certeza que não quer que eu vá com você? - ele me encara e nego mais uma vez. Eu nunca precisei de cicerones para resolver nada na vida, ainda mais para ir ao médico.
- Já falamos sobre isso. Um homem num consultório de um obstetra grita gravidez. E não precisamos desse tipo de publicidade. - digo puxando-o para me beijar novamente pela gola da camisa.
- Me mande notícias assim que puder. - ele pede e concordo antes de irmos tomar café da manhã.
Está tudo ótimo comigo, e melhor ainda com a bolinha. Tranquilizo Brandon quanto a isso.
Ele marcou um jantar com seus pais no final de semana e o tempo parece se arrastar. Eu desconheço o significado da palavra "repouso". Não gosto de ficar sem trabalho e olhando para as paredes do meu apartamento. Aproveito a semana de folga para arrumar todas as coisas para minha mudança.
Em dois dias minha mãe me acompanha, eu e ela nunca fomos íntimas assim. É estranho que ela esteja interessada em ficar perto de mim. Mas de alguma forma eu acabo gostando de toda atenção.
Ela dá um grito de dentro do meu closet e espero ela sair, sentada no chão do quarto mexendo em vários documentos antigos.
- Danielle, o que é isso? - ela segura horrorizada um cinto com dois vibradores. Eu não contenho o riso.
- Isso é um dos jeitos de fazer sexo, mãe. - explico com naturalidade.
- Com mulheres? - ela arregala os olhos.
- Uhum. - continuo rindo. Ela nunca me deu abertura para falar da minha sexualidade e agora está segurando um pau de borracha na mão. É no mínimo estranho.
- Mas se você gosta disso, então por que não pode ser um homem? - ela me encara genuinamente curiosa.
Eu precisei quase morrer pra minha mãe querer me entender. É uma pena que tenha sido assim, mas fico feliz que esteja finalmente acontecendo. Antes tarde do que nunca, não é?
- Porque não é só o ato de prazer, mãe. É a atração, o cheiro, o jeito. Tudo que as garotas fazem de diferente dos garotos. - tento ser sutil.
- E você consegue gostar das duas coisas igualmente? - ela está se esforçando.
- Sim. Igualmente. - tento estabelecer uma leitura de sua reação, mas é complicado.
- Aumenta bastante as opções, não é? - ela dá um pequeno sorriso.
- Consideravelmente. - eu rio. Minha mãe está se abrindo pra mim.
Talvez ela não seja uma mãe tão ruim quanto eu pensava. Quem sabe eu também não vou ser, afinal.
- Você sabe que eu te amo, não é, Dany? - ela senta na cama atrás de mim e passa a mão no meu cabelo. - Eu sempre amei, mesmo que não soubesse demonstrar.
- Eu achava que você tinha vergonha de mim. De ter uma filha diferente do que você imaginava que eu seria. - malditos hormônios que fazem brotar água dos meus olhos.
- Não tenho vergonha, Danielle. Me desculpe por ter feito você sentir isso. Quando você tiver filhos vai saber como é difícil acertar com eles. Parece que queremos dizer uma coisa e eles entendem outra. - ela ri também limpando algumas lágrimas.
- Céus. - digo pensando na bolinha. Vai ser o maior desafio da minha vida. Suspiro.
Olho a bagunça ao nosso redor. Ainda tenho muitas coisas pra arrumar e só consigo pensar em como é difícil abrir mão da minha casa para morar com Brandon. É uma situação nova para nós dois e vai exigir bastante de duas personalidades dominantes e teimosas.
Meu telefone toca algumas vezes, Brandon me diz que o inspetor de polícia pediu que eu fosse até a delegacia e nos encontramos lá no final da tarde. Ele nos recebe bastante solenemente. Diz que fizeram alguns levantamentos e numa das câmeras de rua na região tem imagens de um SUV, que pode ter sido o carro que provocou meu acidente.
Vimos exaustivamente imagens de todas as câmeras que existiam na região, nas casas, nos comércios e nenhuma parecia mostrar nada relevante, então meu ânimo para mais esta vez não está dos melhores.
Sinto a mão de Brandon em meu ombro enquanto estou sentada na cadeira em frente ao monitor.
O inspetor me mostra algumas imagens e em seguida ao Z4 que eu dirigia aparece por outra rua um carro preto. Meu corpo gela no mesmo instante.
- Não é este carro. - faço uma negativa com a cabeça.
- Tem certeza, srta. Riggs? - o policial me encara sério. - Levantamos a placa, é um carro alugado e foi devolvido com algumas marcas no para-choques. Estávamos aguardando sua confirmação para ir atrás do motorista.
- Tenho certeza. - digo sentindo minha respiração se alterar de nervoso. - Não é este carro.
- Certo, continuamos procurando então? - Brandon diz sério. - Temos uma medida restritiva para Larissa Kegan, ela estava na festa, mas pode ter chego depois.
- Já investigamos a srta. Kegan. Ela tem um álibi plausível. Tanto ela quanto o sr.Mendez estão liberados.
- Mark? - Brandon pergunta surpreso.
- Eles estavam juntos. - o inspetor confirma e olho boquiaberta para Brandon.
Ele sai nervoso da sala.
- Eu não sei quem eu quero matar primeiro. - Brandon diz entre os dentes cerrados de raiva.
- Tente se acalmar. - peço inutilmente. - Eles podem ter ficado juntos há pouco tempo.
Ele me olha bravo. Logicamente não é isso, mas eu estou tentando amenizar a fúria de Brandon, enquanto ele percebe o quanto foi feito de trouxa nos últimos anos, achando que tinha o controle absoluto sobre toda a situação de seu relacionamento com a loira magra e linda.
Eu sei o que isso faz com o ego de Brandon. Sei ainda mais o que é capaz de fazer com a forma que ele se descontrola quando provocado.
Larissa e Mark se merecem, indiscutivelmente. Ela nunca sequer gostou de verdade de Brandon, ou talvez tenha gostado apenas o suficiente para fingir amar de verdade. E ele, este tempo todo disfarçado de um bom amigo.
Ele sai apressado em direção ao carro. Eu acompanho seus passos largos e rápidos.
- Brandon, por favor. - tento parar ele.
- Foram eles, Danielle. Eu já imaginava, mas temos que descobrir como provar.
- Matar os dois não vai provar nada, Brandon. - eu tento racionalizar entrando no carro com ele às pressas.
- Eles quase mataram você. Estão juntos armando contra mim. - Brandon está tomado pela raiva e preciso que ele pare para conversar comigo.
Ele acabou de afivelar o cinto e eu solto a trava e rápido subo em seu colo no banco do motorista. Seguro seu rosto e o forço a olhar pra mim. Pelo menos ele não pode sair dirigindo enquanto eu estiver ali em sua frente.
- Brandon, não foram eles. - digo nervosa. Sinto a respiração dele no meu rosto, forte e ofegante. Ele está com as mãos na minha cintura, pronto pra me colocar pro lado do passageiro e me aperta.
- Danielle, não me impeça de fazer o que eu tenho que fazer. - ele realmente fala sério. Seus olhos parecem mais escuros do que nunca.
- Por favor, me escute. Eu preciso ir pra casa. Agora. - seguro seu rosto ainda com mais força. - Vamos fazer isso direito.
Ele respira fundo e encosta a cabeça no banco do carro. Eu encosto a boca na dele até que ele se acalme, até que eu o reconheça novamente. Dou um beijo acariciando seu cabelo.
- Precisamos conversar. - digo assim que o nosso silêncio característico vira nosso momento e deixa de ser pura tensão.
- Ok. - ele concorda passando as mãos pelas minhas costas.
- Meu pai jurou que se você me engravidasse ia ter que casar comigo. Acho melhor você me tornar uma senhora de respeito logo. - falo beijando seu rosto.
- O que você está fazendo comigo, Danielle? - ele me olha mais calmo, embora eu não saiba se esse comentário é bom ou ruim. Fico sentindo suas mãos em mim e o abraço.
Estou tentando protegê-lo não sei bem do que, talvez dele mesmo, enquanto ele me protege do resto do mundo. Nosso jeito é meio torto e acho que sempre vai ser. Mas precisamos fazer as coisas com calma.
- Não dá pra pensar só em nós dois. - eu suspiro em seu ouvido. - Temos que pensar nele. - digo guiando a mão dele até a minha barriga.
Ele me abraça de um jeito diferente do que já abraçou no nosso tempo juntos. Há um misto de alívio e amor que me envolvem. Agora sei que podemos falar sobre o que realmente é necessário falar: Clara.
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Peculiar
Short StoryDanielle é peculiar. Com a ajuda de Clara, sua amiga da adolescência, ela se tornou destemida, encarando de frente os desafios de sua vida e a incansável luta de ser uma mulher fora dos padrões. Ela prefere ser chamada de gorda mesmo. Por que? Porqu...
