Capítulo 36

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Brandon

Eu chacoalho o copo na mão, balançando o gelo e a bebida que dançam dentro dele. A música que toca é suave, escolhida por Danielle e meu corpo sentado na poltrona ainda não conseguiu esquecer completamente a tensão provocada pela parceria entre Larissa e Mark.
Eu me sinto traído, um idiota. Quanto os dois devem ter feito pelas minhas costas. E não estou falando de sexo. Larissa transar com outro homem nunca me incomodou. Estou falando sobre o dinheiro, o conforto e as tentativas de Lissa de trazer o caos pra minha vida desde que terminei meu relacionamento com ela.
Por mais que eu tente, é impossível não pensar nisso e estou me remoendo em uma angústia caustica que corrói meus pensamentos. Um a um eu repasso os momentos na minha cabeça. Até mesmo quando procurei Mark para falar de meu noivado com Danielle, e ele me disse que Larissa era sua favorita absoluta.
Quanto ele participou na tentativa de Larissa de engravidar de mim e quantas vezes deve ter aproveitado minhas confidências como amigo para instruir Larissa em como agir perto de mim.
Minha sensação de domínio sobre minha vida foi dissolvida cruelmente. Cego e burro. É assim que eu me sinto.
Danielle entra no escritório. Ela está cruelmente bonita, com os cabelos em ondas que se ajeitam perfeitamente sobre seus ombros. Eu adoro as cores dela. Sua pele bronzeada num dourado delicioso, o castanho quente dos olhos e cabelos que me fascinam. Só sua presença me causa um alívio de toda ebulição mental que me toma.
Ela se senta no braço da poltrona. Eu costumava odiar essa mania dela de colocar a bunda em qualquer lugar, menos onde é apropriado se sentar. Agora acho graça quando ela abre espaço entre minhas pernas com seus pés e massageia minhas coxas por baixo, mexendo os dedos.
Estico o braço por trás dela e a vejo me encarar séria.
- Seus pais vão chegar em breve. - ela anuncia como se eu não soubesse do compromisso que eu mesmo marquei.
- Já vou. - digo depois de um suspiro.
- Eu vou precisar viajar. - ela diz tão naturalmente que eu chego a rever meus pensamentos pra encontrar quando foi que ela me falou disso anteriormente.
- Pra onde? - pergunto completamente perdido.
- Preciso ver Clara. - ela me olha e só o nome em sua boca já me dá um arrepio. Eu nunca vou conseguir pensar em Danielle e Clara juntas sem achar que corro um risco imenso de ser abandonado.
Eu suspiro.
Clara recusou o convite para o noivado. Ela estava ocupada com seu trabalho para viajar, mesmo que fosse por poucos dias. Danielle havia ficado muito triste com a ausência da única pessoa que ela realmente queria por perto. E agora ela queria ir atrás de Clara. Eu realmente não posso impedir que ela vá, mas odeio isso.
- Eu sei que você não gosta da ideia. Mas eu preciso vê-la. - ela interpreta meu silêncio e acerta em cheio.
- Por que? - é só o que se passa na minha cabeça.
Ela puxa as mangas da blusa até metade das mãos e esfrega o rosto.
- Está tendo dúvidas sobre nós? - preciso perguntar com um medo latente por todas as incertezas da minha vida.
Larissa diria novamente que o amor me fez patético. Danielle me prende o rosto entre as mãos e me encara.
- É justamente o oposto. É por ter certeza demais sobre nós. - ela morde meu lábio irresistivelmente.
Eu amo Danielle e preciso confiar nela. É a coisa mais simples e num beijo eu concordo que ela vá.
- Eu estou confusa e talvez tenha imaginado que alguém me pressionou para fora da estrada. - ela me fala de olhos fechados.
Eu sei que ela está me subestimado então entendo o que está acontecendo.
- Foi Clara. - concluo e ela se arrepia num suspiro desapontado. - Ela achou que era eu no carro.
- Brandon. Não quero que ela vá pra cadeia. - Danielle fala quase numa súplica vendo meu corpo todo se retorcer.
Eu não acredito que ela seja capaz de proteger Clara mesmo tendo colocado em risco sua vida.
Me levanto subitamente. Nervoso novamente e prestes a ligar para a polícia.
- Você não pode estar falando sério, Danielle. - é a primeira vez que não consigo ceder a ela.
- Nós dois bagunçamos a cabeça dela, Brandon. Nós. Eu e você naquela noite. Nós usamos Clara pra satisfazer nossos desejos.
- Ela é adulta o suficiente! - minha raiva me domina.
- Você também é. Mas não impediu Larissa e Mark de manipularem você. O que você teria feito com os dois hoje se eu não tivesse te parado podia ser até pior do que aquilo que Clara fez. - ela me enfrenta destemida.
Danielle tem bons argumentos.
- Brandon, por favor. Eu e ela significamos algo. Até você chegar. - ela se aproxima de mim e me abraça. - Não quero que ninguém mais sofra.
Eu sei que ela está se sentindo culpada. Mas acabei de colocar Clara na minha lista de pessoas a odiar mortalmente. Bem ao lado do ex assistente traidor e da loira de gelo.
- Nunca mais minta pra mim. - ordeno chateado por ela ter dito que se enganou quanto ao motivo do acidente.
- Me desculpe. Achei que a verdade era um pouco demais.
- Nossas verdades sempre são. - concluo ciente de nossas intensidades. - Não sei quem tem a pior ex. Eu ou você.
- Nós cinco somos pirados da cabeça. - ela dá um sorriso tímido. - Mas pelo menos estamos juntos. Mark tem Lissa. Clara não tem ninguém.
- Não consigo achar isso ruim. - esbravejo.
- Foi ela que me despertou pro que eu sou hoje. Não haveria a mulher que está aqui hoje se não fosse a Clara de quinze anos atrás. - Danielle pondera séria e meu coração se aperta. Eu sei no fundo que Clara deve estar sofrendo muito por Danielle.
- Por favor. Não vá vê-la. - peço tentando remediar o conflito dentro de mim.
- Eu preciso, Brandon. Senão isso não acaba nunca. - ela me abraça e sinto denovo medo de perdê-la.
Eu consigo entender Clara perfeitamente. Eu mataria qualquer um que ficasse entre Danielle e eu.

Meus pais absolutamente adoram Danielle. Minha mãe a abraça docemente como se fossem velhas conhecidas.
Meu pai é só elogios a ela. Danielle é exatamente o tipo de mulher que ele admira. Ele me puxa de lado e diz que fiz uma escolha valente.
- Tem que ter coragem pra ficar com uma mulher inteligente e forte. - ele diz e observo minha amazona no outro lado da sala.
Ele não precisou mais de quinze minutos com ela para entender o que eu demorei pra enxergar.
Meu pai é um homem bem mais esclarecido que eu, certamente.
- Elena e Nicolas, podemos ir pra mesa. - Danielle os chama e me dá uma piscada.
Ela está à vontade com eles e isso me deixa profundamente feliz.
Depois da sobremesa minha mãe e Danielle estão conversando animadamente. Minha mãe se aproxima de mim para um aperitivo e pede um para Danielle.
- Ela não deve tomar álcool. - repreendo e minha mãe levanta as sobrancelhas meio surpresa. - Por causa da cirurgia. - tento disfarçar.
- Ela é absolutamente adorável. Ainda mais do que você descreveu. - minha mãe está radiante. - Mas vocês devem marcar logo uma data. Antes que a "cirurgia" apareça muito.
Dou um sorriso sem graça e ela me abraça. Danielle volta para a sala trazendo o presente que daríamos a eles no dia do noivado. Minha mãe agradece o presente com um abraço caloroso.
Só teria sido uma noite melhor caso não tivéssemos tido um dia agitado.

Antes de dormir Danielle enrosca as pernas nas minhas e me beija o rosto. Ainda estou extasiado pelo sexo delicioso que acabamos de fazer. Finalmente me sinto relaxado sem o peso do dia que tivemos.
- Eu vou com você. - digo acariciando as costas dela.
- Não. - ela levanta o corpo e me olha espremendo os olhos.
- Não foi um pedido. - teimo e ela revira os olhos pra mim.
- Vou falar com ela sozinha. - Danielle insiste.
- Posso esperar fora da porta. Não me importa quanto você ache que ela é boa, ainda é a pessoa que quase te matou. É isso ou a polícia. - falo irritado e ela deita de costas para mim.

Acordo com o corpo dolorido. Tento me mexer e meus braços formigam. Eu não preciso abrir os olhos pra entender que Danielle me algemou na cama antes de sair sorrateiramente.
Não é a primeira vez que o lado ardiloso dela se vira contra mim exatamente assim, afinal ela já me deixou preso e fugiu antes.
Dou um grito raivoso por Lawrence, indignado com a capacidade de insubordinação de Danielle. Encantadoramente e perigosamente teimosa e intratável.

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